quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Oscar 2010 - III

(Continuação da postagem anterior) Tudo bem que Nine não chega aos pés de Chicago, o trabalho anterior de Rob Marshall que, em 2003, lhe rendeu seis Oscars, incluindo filme e direção. Mas também não é este desastre cataclísmico que a crítica especializada está deixando entrever. É verdade que tem muitos problemas, alguns bastante evidentes, o que talvez explique seu fracasso comercial aqui e lá fora. O maior deles, sem dúvida, é a escalação de Daniel Day-Lewis no papel de um italiano. Day-Lewis é um excelente ator, como já demonstrou em diversas ocasiões, inclusive quando arrebatou seu segundo Oscar, em 2008, por Sangue negro, mas é um tipo muito britânico, que não convence como um diretor italiano de sangue quente. Nem o sotaque ele consegue fazer direito! Assim, já fica difícil desde o começo identificarmos ali o que poderia ser a supressão momentânea da realidade, que rege o código do cinema: vemos um ator interpretando um personagem, e nada além disso. Outra provável explicação é a rejeição que grande parte do público de hoje tem por musicais, um gênero que respira por aparelhos há décadas e somente de vez em quando consegue inovar, reciclar-se, sem perder suas origens – foi assim com Moulin Rouge, o próprio Chicago, o espanhol 20 centímetros etc. O título não ajuda, porque não passa a idéia do que é o filme. Também a história já é conhecida: um grande mestre do cinema italiano, em crise pessoal, profissional e afetiva, tenta concluir seu novo projeto, o nono de sua carreira, enquanto repassa sua vida em meio a lembranças das várias mulheres com quem conviveu. Se a sinopse parece familiar, é mesmo: todos viram isso em Oito e meio de Fellini (o diretor interpretado por Day-Lewis se chama Guido Contini!). Na verdade, a base da história foi uma peça da Broadway, que adaptava para os palcos os anseios celebrados por Fellini nos anos 60. Ou seja, como definiu um crítico do jornal O Globo, "Nine é Fellini passado duas vezes no coador"! E todos sabemos os riscos que se corre ao se refazer um clássico do cinema.

Mas Nine é um bom filme, um pouco arrastado no começo, que vai ganhando em interesse do meio para o final, e mesmo quem gosta ou não conhece o original, desde que goste de musicais, poderá até se envolver e se deixar levar ao ritmo das canções. Há pelo menos três bem poderosas e que grudam na memória. Pela ordem de aparição na tela, "Be italian", cantada pela Fergie (ela mesma, do Black Eyed Peas), que faz a prostituta das lembranças infantis de Contini; "Cinema italiano", o mais frenético número do filme, defendido com energia contagiante por Kate Hudson (a canção foi indicada ao Globo de Ouro); e "Take it all" (esta indicada ao Oscar), quase ao final, em que Marion Cotillard dá mais um show de interpretação cantando (e mostrando também uma excelente forma física). Entre as outras figuras femininas do filme, todas com algum momento de canto, estão a sempre respeitável Judi Dench, Nicole Kidman (que aparece muito pouco e mal tem falas como a estrela temperamental) e Penélope Cruz, como a amante do diretor. Ela também foi nomeada ao Oscar, a meu ver injustamente, talvez porque esteja ainda na crista da onda em Hollywood, ainda por conta de seu prêmio por Vicky Cristina Barcelona (aliás, já repararam que agora ela só faz papel de amante?). A Academia esqueceu Marion Cotillard, perfeita como a esposa traída que sofre em silêncio até explodir em seu número de canto e dança (claro que é uma visão subjetiva, pois, como em Chicago, todas as coreografias só acontecem na mente do protagonista). É dela a grande atuação feminina em Nine. Há ainda rápidas aparições da mãe de Contini, vivida por Sophia Loren, no que são as imagens mais chocantes do filme. É triste ver aquela que já foi uma das mais lindas atrizes de todos os tempos bastante envelhecida, com maquiagem deficiente que nada esconde da passagem dos anos. Praticamente um desrespeito.

Além das duas indicações detalhadas acima, Nine concorre ainda em Direção de Arte e Figurinos. Ficou fora das categorias de Som e Efeitos Sonoros, tradicionais nichos dos filmes musicais, o que atesta o fracasso do projeto. Pelo visto, seu destino será mesmo restringir-se a um público bastante restrito. Nine não será desses musicais capazes de arrebanhar novos fãs para o gênero. (Continua)

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Oscar 2010 - II

(Continuação da postagem anterior) O meu favorito ao Oscar deste ano é Preciosa. Confesso que não levava muita fé neste filme produzido pela Oprah Winfrey, estrelado por negros e, supostamente, endereçado a um público restrito, que poderia se reconhecer e identificar na tela. Não nos esqueçamos que foi a mesma Oprah quem nos legou o discutível Bem-amada, execrado pela crítica. Mas o que vi na tela superou qualquer expectativa. É, disparado, o melhor filme entre os dez finalistas. Conta a história (que não é baseada em fatos reais, ao contrário do que se chegou a divulgar na imprensa) de Precious, uma garota obesa de 16 anos, que está grávida do padrasto, com quem já teve uma outra filha, que tem síndrome de Down, e sofre constantes maus-tratos da mãe, que a chama de “baleia”, “lixo” e outras agressões, somando-se às verbais, também as físicas. Sua vida é um inferno, mas ela prefere trilhar o caminho da esperança ao invés de sucumbir diante das dificuldades que se apresentam. Não por acaso, o filme ganhou o subtítulo brasileiro de “Uma história de esperança”. Não é uma obra feita para divertir, e quem for assisti-la apenas para fazer hora no cinema ou se distrair certamente ficará arrependido ou revoltado. Ao contrário, é um filme de forte impacto, difícil, por vezes quase insuportável de ver, barra-pesadíssima, que pode tender para a depressão, mas inevitavelmente provocará lágrimas. Nada prepara o espectador para o choque que se terá ao assisti-lo. Pode-se acusar o diretor Lee Daniels de manipular seus personagens, visando o efeito fácil, a catarse pública; ele o faz, porém, com extrema segurança. Além de contar com duas interpretações impressionantes. A comediante Mo’Nique, muito conhecida na televisão americana, desperta ódio e pena no espectador como a mãe. Deve faturar o Oscar de coadjuvante, repetindo o feito do Globo de Ouro. Seria um prêmio merecidíssimo. A protagonista é vivida por uma estreante de nome estranho e complicado, Gabourey Sidibe, que ainda encara o desafio de, aos 27 anos de idade, interpretar uma adolescente. Sua atuação é visceral, e deveria ser reconhecida com o Oscar de Atriz, outra das seis que o filme recebeu (mas alguém acredita que uma negra gorda e feia vai ganhar o prêmio? A América de Obama ainda não chegou a esse ponto de igualdade). Quase nos faz acreditar que sua Preciosa é de fato real. Embora sua composição não esteja assim tão longe da realidade. Quantas “Preciosas” existem espalhadas por aí, mesmo no Brasil, perambulando invisíveis suas existências sofridas e silenciosas? É uma realidade que as pessoas não fazem questão de conhecer nem de ver. Mesmo assim, é um raro caso de filme que nos leva a uma profunda reflexão sobre nossa própria condição humana. Obrigatório.

Este meu favoritismo por Preciosa ocupou o espaço que antes era de Amor sem escalas, comédia romântica sobre um executivo que viaja por todo o país demitindo pessoas de empresas em situação falimentar (o cargo não existe de verdade, é apenas uma invenção dramática surgida no romance original em que se baseia, de Walter Kim, publicado no Brasil pela Record). Metódico e extremamente cético quanto ao sucesso dos relacionamentos afetivos, vê sua estrutura ruir depois de conhecer uma executiva, papel de Vera Farmiga, outra indicada como coadjuvante, juntamente com sua colega de elenco Anna Kendrick. A abertura do filme é espetacular, com uma sobreposição de imagens aéreas de várias cidades norte-americanas. Quando lançado nos EUA, Amor sem escalas chegou a ser apontado como obra-prima, coisa que está longe de ser, mas é um filme bem agradável, confirmando o talento do diretor Jason Reitman, o mesmo de Obrigado por fumar e Juno.

Sobre Bastardos inglórios, já escrevi na época do Festival do Rio. Dos outros indicados à categoria principal, Up – altas aventuras é apenas o segundo desenho animado a concorrer ao prêmio máximo (o primeiro foi A bela e a fera, em 1992). Mesmo sendo um primor de realização, evidentemente não tem chances de ganhar, mas é o favorito ao Oscar de Animação. Sua presença na lista é uma espécie de pedido de desculpas da Academia, que não incluiu Wall-E entre os finalistas ao Oscar do ano passado, quando todos davam como certa sua presença, em que pese o fato de ele ter concorrido e vencido em sua categoria específica.

Dos outros quatro indicados, há pouco a dizer. Distrito 9 já pode se considerar vencedor: é o primeiro filme africano a concorrer ao Oscar principal, além de ser uma rara ficção-científica considerada elegível pela Academia. Já se vislumbra um futuro promissor para seu diretor, o sul-africano debutante Neil Blomkamp, bem como para seu protagonista, Sharlto Copley (prestem atenção que logo logo estará em Hollywood), talvez até mesmo estrelando uma provável refilmagem em terras ianques. Educação apenas ocupa a vaga do filme inglês do ano. Um sonho possível e Um homem sério parecem evocar mesmo a época em que ter muitos indicados era uma norma em Hollywood. Cada um recebeu apenas mais uma nomeação – o primeiro deve render à atriz Sandra Bullock seu primeiro Oscar. O segundo reafirma o prestígio dos irmãos Coen junto à Academia; fossem outros que assinassem a direção, o filme provavelmente passaria em branco. Mais uma vez, não entendo como um concorrente ao Oscar recebe menos indicações do que um outro filme, que fica de fora da lista final – no caso, o musical Nine, massacrado pela crítica, esquecido até no Globo de Ouro, e que, mesmo assim, defende quatro indicações. (Continua)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Oscar 2010 - I

Depois de quase 70 anos, a Academia dobrou o número de indicados ao Oscar de melhor filme. Na cerimônia de entrega do prêmio, a se realizar em 7 de março, dez produções concorrerão pela láurea máxima do cinema. A justificativa para a inflação de candidatos foi a alta qualidade do cinema produzido hoje em Hollywood. Mas basta uma rápida análise dos nomeados para constatar que não é bem assim. Na verdade, tal decisão parece estar muito mais atrelada às pressões dos grandes estúdios, que assim podem emplacar suas obras e faturar mais com o simples chamariz de “filme indicado ao Oscar”. A diferença entre o que se faz hoje e o que se fazia naquele tempo é tão grande quanto a distância que separa o mundo dos humanos de Pandora.

Entre o final da década de 30 e o começo da de 40, era comum que dez filmes disputassem o prêmio. Porém, naquela época sim, podíamos falar de alto nível das produções. Apenas para ficarmos naquele que é considerado por muitos como o ano mais fértil da história do cinema, veja alguns filmes indicados à categoria principal em 1940: E o vento levou..., O mágico de Oz, No tempo das diligências, Adeus Mr. Chips, Ninotchka... Por uma década, a Academia manteve o número de dez indicados, sempre confrontando obras como As vinhas da ira, Núpcias de escândalo, O grande ditador (1941), Cidadão Kane, Sargento York, Como era verde o meu vale (1943), Casablanca, Consciências mortas, Nosso barco, nossa alma (1944) – a partir de 1945, o número de indicados estabilizou-se em cinco.

A lista de nomeados este ano, contudo, pode ser vista como a mais eclética de todos os tempos. Há espaço para aventuras fantásticas, comédias de costumes, dramas humanistas, animações e até uma ficção científica sul-africana, caso inédito na história do prêmio. Todos os prognósticos apontam para a vitória do monumental Avatar, de James Cameron, o “rei do mundo” desde os tempos de Titanic, que, contudo, não conseguirá repetir os feitos alcançados com seu sucesso anterior, mesmo porque sua superprodução atual recebeu menos indicações – 9 contra 14 daquela. O filme já se consolidou como a maior bilheteria de todos os tempos, rendendo mais de 1,83 bilhão de dólares em todo o mundo, superando a marca anterior, que era de... Titanic. Chega respaldado também pelas inovações tecnológicas introduzidas pelo uso do 3D, que é um sistema antigo de projeção, mas que somente agora, no limiar de um novo século, ganha as ferramentas adequadas para se popularizar, embora o uso daqueles oclinhos seja incômodo pra caramba. O fato é que Avatar está muito longe de ser o grande filme apregoado por vários espectadores, certamente encantados pela ousadia visual, confundindo uma coisa com outra, esquecendo-se do roteiro esquemático, dos personagens rasos e sem sustentação dramática. Mas, além de deu poderio financeiro, o filme já chega como franco favorito também por ter arrebatado o Globo de Ouro, tradicional prévia do Oscar, e que quase sempre serve de termômetro para indicar o grande vencedor da estatueta dourada.

Na cola de Avatar, está Guerra ao terror, curiosamente dirigido por Kathryn Bigelow, ex-esposa de Cameron e apenas a quarta mulher nomeada ao Oscar da categoria. Suas chances de desbancar o ex-marido são grandes; já seu filme, lançado meio na encolha ano passado, colecionou elogios nos últimos tempos e pode surpreender na disputa. No Brasil, teve uma trajetória curiosa: foi lançado primeiro em DVD, porque sua distribuidora, a Imagem, simplesmente não acreditou em seu potencial de mercado. Bastou o burburinho na imprensa norte-americana, e as posteriores 9 indicações ao Oscar, contudo, para que ele ganhasse finalmente as salas exibidoras, nas quais estreou no último dia 5. (Continua)

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Coisas belas e sujas

Coisas belas e sujas não é uma obra-prima nem um filme que possa mudar sua vida, mas sem dúvida vai gerar muita discussão pela natureza do tema tratado.
O nigeriano Okwe (Chiwetel Ejiofor, bom paca) trabalha como recepcionista em um hotel de Londres. Ele está em situação ilegal no país, assim como sua namorada, a camareira turca Senay (a gracinha Audrey Tautou, de O fabuloso destino de Amelie Poulain). Um dia, Okwe descobre algo terrível em um dos quartos do hotel e percebe que algo de muito estranho está acontecendo por ali. Suas suspeitas indicam para Juan Sneaky (Sergi Lopez, de Uma relação pornográfica), o subgerente do hotel. Junto a Senay, e com a ajuda do porteiro, de uma prostituta e de um amigo que trabalha no necrotério da cidade, Okwe parte para desvendar o mistério e salvar sua vida e a de seus amigos.

Dirigido com segurança pelo inglês Stephen Frears (Ligações perigosas, Os imorais, Minha adorável lavanderia), o filme trata de um tema atual e polêmico: o comércio de órgãos humanos nas grandes cidades, realizado clandestinamente. Aliás, todas as ações dos personagens se dão no mesmo nível. Okwe e seus amigos parecem viver à sombra, agindo nos subterrâneos, fundindo-se à sua irregularidade; é como se habitassem um mundo à parte (suas situações de ilegalidade) dentro de um mundo à parte (o hotel, com sua divisão de classes, patrões e empregados). A realidade comentada pelo roteiro ganha em dramaticidade pelo apelo cruel que envolve a situação.

O roteiro não apela para a sanguinolência, embora haja cenas desagradáveis (como uma logo no começo, que deflagra toda a trama) e equilibra bem o suspense e o drama, com alguns momentos de bom humor para aliviar a tensão (o porteiro e a prostituta, interpretada por Sophie Okonedo, são muito engraçados). Uma grande cena é quando Okwe interpela Sneaky sobre as descobertas que fez e este lhe revela todo o esquema (e quando o título do filme é justificado).

O filme foi indicado ao Oscar de Roteiro Original em 2003 e passou voando pelo circuito carioca. Merece ser descoberto.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A mulher invisível

Embora tenha sido sucesso de público nos cinemas, com mais de dois milhões de espectadores, é decepcionante este segundo trabalho do diretor Cláudio Torres, da turma da Conspiração (o primeiro foi o também irregular Redentor, de 2004, mas que era superior a este). Provavelmente as muitas cenas em que Luana Piovani aparece só de lingerie serviram para vitaminar a bilheteria do filme, sobretudo pelo público masculino. Mas isso é pouco para salvar o resultado final.

Basicamente, conta a história de um homem, Pedro (o onipresente Selton Mello), que, depois de ser abandonado pela esposa, cai em um estado de torpor absoluto. Meses se passam até que ele conhece a suposta nova vizinha, uma linda jovem chamada Amanda (Piovani). Os dois se apaixonam de cara e iniciam um relacionamento. Ela é realmente a mulher perfeita para qualquer homem: bonita, extrovertida, sensual, e ainda gosta de futebol (uma cena rápida e deslocada). Com uma hora de projeção, revela-se o truque óbvio, e que deveria ser surpresa: Amanda é uma mulher invisível, que só existe na imaginação desesperada do rapaz. Paralelamente, há uma subtrama envolvendo a verdadeira nova vizinha de Pedro, Vitória (uma atriz fraca, Maria Manoella), que, ao mesmo tempo em que se interessa por ele, sendo incentivada pela irmã (Fernanda Torres, irmã do diretor), é cortejada pelo melhor amigo dele, Carlos (Wladmir Brichta). A partir desse momento, o roteiro não tem mais o que inventar e fica dando voltas. Depois que Pedro é tido como louco por falar sozinho e tenta espantar Amanda de sua vida, a história se perde de vez, o filme se torna aborrecido, esticado, até um final que parece ter sido inventado de qualquer maneira.

O filme já começou errado na campanha de marketing, nos trailers e nas sinopses oficiais divulgadas pela imprensa, que de cara revelam o que seria o elemento surpresa da narrativa. A "descoberta" de que Amanda é invisível não pega ninguém desprevenido porque já sabemos do que se trata a história. Assim, como o espectador já sabe que tudo aquilo é um delírio do personagem, não há impacto nenhum na revelação, o que é péssimo, porque ficamos apenas esperando o momento em que a farsa virá à tona. E depois não há muito mais a fazer. O roteiro tem ainda alguns absurdos, como a garota entrar no quarto de hospital às 3h da manhã ou sair de lá sem ser vista por ninguém. Também não funciona o que deveria ser uma confusão amorosa envolvendo Vitória, Pedro e Carlos: ela fica entre os dois, sem saber que eles se conhecem, mas nem isso é explorado. Também nunca fica claro o que faz a personagem, parece que é autora de peças infantis, mas não se explica como sobrevive, nem sua irmã, que parece só estar na trama para dar pitacos, sem uma função mais definida. Também não faz sentido ela se mudar para o interior de Minas Gerais, se queria ficar longe de Pedro, bastava sair do apartamento e ir para qualquer outro lugar no Rio. Mais absurdo é como o rapaz descobre onde ela está morando e vai atrás! Ou seja, são tantas falhas que mesmo com muito boa vontade o filme acaba sendo um desastre. Que só não é maior porque a produção ao menos é bem cuidada, com locações em lugares conhecidos da cidade (o bar Clíper, no Leblon, a Livraria da Travessa – outra resolução inconvincente é o romance escrito por Pedro e lançado com sucesso em poucos meses, quando, como se sabe, a coisa não é bem assim).

O elenco também não ajuda muito. Selton Mello não está em seus melhores dias e atua fora do tom, descontrolado, gritando o tempo todo. Já Luana, embora belíssima, nem sempre é captada em seu melhor ângulo pela câmera, parecendo por vezes envelhecida – repare no encontro inicial entre ela e Selton, quando o rapaz lhe toma o rosto entre as mãos. Wladmir Brichta é o único que consegue compor seu personagem com um mínimo de sustentação, mesmo seu destino sendo forçado (mas a culpa não é dele). Há ainda diversas participações especiais (melhor dizer, afetivas), quase todas sem importância na história: Maria Luíza Mendonça (que aparece logo na primeira cena e some; ela é também uma das colaboradoras do roteiro), Lúcio Mauro (que mal tem falas!), Marcelo Adnet, Gregório Duvivier (de Apenas o fim), Danni Carlos. Mas é mesmo difícil defender uma comédia que, a rigor, só tem uma única cena realmente engraçada, na reunião de trabalho, e que, mesmo assim, de tanto ser vista no trailer, pode não funcionar no contexto do filme (mas foi somente neste momento que eu ri de verdade).

Se a idéia de salvação do cinema brasileiro passa por projetos como este, é melhor pensarmos em outras alternativas. Afinal, de que adianta o sanduíche da bilheteria ser encorpado se o recheio não tem sabor?

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Quem quer ser um paraplégico?

Alguma vez você já pensou em passar o resto da sua vida em cima de uma cadeira de rodas? Já teve vontade de ficar paraplégico? Tem ou já teve fantasias sexuais envolvendo mulheres mutiladas ou amputadas? Antes que alguém pense se tratar de mais um assunto motivado por uma polêmica abordada pela novela de horário nobre, esclareço que são apenas questões levantadas pelo filme O outro lado, ainda inédito em DVD, mas que costuma ser exibido na TV a cabo.

O começo é instigante. Isaac Knott, um jovem repórter paraplégico de uma pequena rádio pública de Nova York, recebe uma denúncia sobre um homem que foi até o hospital da cidade e pediu que lhe amputassem as pernas. Intrigado, vai investigar, mas, por conta de sua condição física, ninguém parece lhe dar muito crédito. Porém, as denúncias continuam surgindo e, da segunda vez, ele chega até uma seita de pessoas que, embora aptas fisicamente, desejam se tornar limitadas (são chamadas de pretendentes) presas a cadeira de rodas ou aparelhos corretores. O que poderia motivá-las a tal intento? É neste momento que Isaac conhece Fiona, a autora das mensagens que o levaram à investigação. Ela é saudável e deseja se tornar deficiente, usando aparelho para coluna e até uma cadeira de rodas. A relação entre os dois personagens vai se estreitando, até Isaac descobrir um segredo obscuro, que muda sua vida e o faz repensar tudo o que já viveu até ali.

O problema do filme é que o roteiro abandona algumas ótimas premissas para se focar no relacionamento entre o repórter e a garota misteriosa, não se aprofundando no que poderia render discussões no mínimo polêmicas. A tal seita de pretendentes, por exemplo, é logo esquecida, e nem ficamos sabendo direito o que aquelas pessoas esperavam de fato, quais as implicações psicológicas ou psicanalíticas que as moviam. Lá pelo meio, o filme quase se perde em uma solução fantasiosa, quando Isaac compra um par de sapatos de dança, bicolores, “como os que Fred Astaire usava em seus filmes”, e que, uma vez calçados, fazem com que ele consiga, se não andar, ao menos ensaiar alguns passos. Um absurdo, claro, ainda mais grave se considerarmos o grau de realismo com que a história é tratada o tempo todo. O tom fica entre o drama humano e o suspense psicológico, mas, no final, é o primeiro que prevalece, com uma resolução coerente e que justifica os atos dos personagens, embora o final possa desagradar a muitos espectadores.

A mudança do foco narrativo – começa como um suspense investigativo e termina sendo uma história de redenção e sacrifício pessoal – pode ser percebida pelo título original, Quid pro quo, expressão latina que pode ser entendida de duas formas: como gíria para confusão (qüiproquó) e, se analisada individualmente, significa, em tradução livre, “uma coisa por outra”, ou seja, um favor por outro (embora haja uma explicação na Wikipédia, quem primeiro me esclareceu o termo foi o professor de Português e grande latinista Marcelo Bastos, amigo de longa data). E mais não se pode revelar, sob o risco de atrapalhar o espectador, que deve acompanhar a história e tirar suas próprias conclusões.

Nick Stahl, ex-ídolo juvenil (O exterminador do futuro 3 – a rebelião das máquinas e a série Carnivale), não compromete e se esforça para construir um personagem convincente, o que até consegue, garantindo a seriedade do projeto. Vera Farmiga faz um bom contraponto, mantendo uma característica enigmática, evitando o derramamento romântico que seria fácil imaginar. Ela já foi vista antes em Os infiltrados de Scorsese (um papel pequeno, era a esposa de Matt Damon) e acabou de ser indicada ao Globo de Ouro por Amor sem escalas, com grandes chances de ser também nomeada ao Oscar. Não é especialmente bonita, mas sempre uma presença marcante, muito talentosa.

O filme tem o mérito de mostrar os problemas enfrentados pelos portadores de necessidades especiais (este é o nome politicamente correto) em uma grande metrópole como Nova York. Isaac, por exemplo, nunca consegue sequer entrar em um táxi: todos o ignoram quando o vêem no ponto, fazendo sinal. Também sua vida afetiva é desastrosa: as garotas (que ele conhece por meio de um site de encontros) o rejeitam ao saberem de sua condição e sua ex-noiva, também paraplégica, o deixou (porque acredita que, em um casamento, um dos dois deve ser saudável, para poder agir em caso de emergência). Lá como cá, preconceitos há.

O diretor e roteirista Carlos Brooks , em sua estréia no cinema, demostra talento e segurança. Olho nele.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Eric Rohmer (1921 - 2010)

Anunciada a morte, na última segunda-feira (11/1), do veterano diretor francês Eric Rohmer (1921), um dos principais nomes da Nouvelle Vague, que influenciou gerações de cineastas nos anos 60 e promoveu uma verdadeira revolução na maneira de se ver e pensar um filme. Como se fosse um elemento narrativo do próprio movimento que integrou, Rohmer guardava enigmas até referentes à sua origem – sua data de nascimento varia, dependendo da fonte consultada, e mesmo seu nome verdadeiro não é oficialmente conhecido. Mas são pequenos detalhes constitutivos de uma personalidade que soube marcar seu nome no universo cinematográfico. Afinal, pode-se gostar ou não dos filmes de Rohmer, mas jamais permanecer indiferente.

Dentre a geração de cineastas que se formou naquele período, entre os quais Godard, Rivette, Resnais, Chabrol e outros, o nome de Eric Rohmer é um dos menos conhecidos pelo público em geral, mas, paradoxalmente, um dos mais cultuados pelos cinéfilos. Dono de um estilo muito pessoal, inconfundível, ele conseguiu se sobressair em meio a um grupo que, dentro de uma proposta de renovação da forma de fazer cinema, buscava uma conscientização política por meio da arte, exatamente remando contra essa maré.

O cinema de Rohmer é extremamente simples na forma. A câmera fica estática, nada de enquadramentos inovadores ou tomadas elaboradas. Não há trilha sonora, apenas os sons ambientes. Os roteiros não primam pela inventividade, apresentando sempre o mesmo assunto: questões afetivas envolvendo homens e mulheres de diversas idades. O amor é o traço em comum. A maneira como os personagens interagem, também. Portanto, nada de excepcional. O que chamava a atenção em Rohmer era justamente a capacidade de se renovar a cada nova experiência, a segurança com que abordava seu tema preferido.
Um dos destaques da obra de Rohmer é a série Comédias e Provérbios. Formada por meia dúzia de filmes, aborda vários desencontros amorosos sempre por um viés cômico, a partir de um mote, geralmente um dito popular que funciona como uma epígrafe cinematográfica. Claro que é um tipo de humor muito francês, sofisticado, por vezes cerebral, sutil. É um tipo de comédia que leva mais à reflexão do que à gargalhada, que se debruça sobre os aspectos mais patéticos dos relacionamentos afetivos. Um dos melhores filmes da série é Pauline na praia, em que uma adolescente vai passar férias na casa de veraneio da família e provoca uma disputa entre vários rapazes. Outro bom título é A mulher do aviador, que parte de uma premissa batida, mas sempre eficiente. Um casal que nunca consegue se encontrar por incompatibilidade de horários, causada por suas atribuições profissionais. Mesmo assim se apaixonam. Como conciliar a diferença? Menos cômico do que os demais, mas igualmente interessante, é O raio verde, premiado com o Leão de Ouro no Festival de Veneza em 1987. Nele, uma jovem secretária não sabe como aproveitar suas férias. Viaja para vários lugares, sempre insatisfeita; o que ela quer mesmo é encontrar um romance. A atuação de Marie Rivière, também roteirista do filme, confere uma simpática veracidade à sua personagem, que pode suscitar identificações entre os espectadores, por suas inseguranças e manias. Rivière, aliás, é uma das atrizes preferidas de Rohmer, já tendo estrelado diversos filmes do diretor, que costuma mesmo trabalhar com os mesmos nomes em grande parte de sua produção.

Da mesma forma que Beatrice Romand, que começou menina nos filmes do diretor e protagoniza Um casamento perfeito. No filme, ela é uma jovem que resolve abandonar o amante, um homem casado, e conhece um advogado, com o qual fará de tudo para se casar. Mas o destino reserva muitas surpresas. Como nos outros títulos da série, este mantém os diálogos espirituosos, cheios de observações aguçadas sobre os conflitos sentimentais.

Mas a obra de Rohmer vai muito além dessa série. Seu nome ganhou notoriedade em 1969, quando foi indicado ao Oscar de Roteiro Original por Minha noite com ela. No ano seguinte, assinou sua obra-prima O joelho de Claire, contando com a fotografia deslumbrante de Nestor Almendros. Claro que seu estilo seco e lento angariava mais detratores do que admiradores. Em 1975, no filme Um lance no escuro (dirigido por Artur Penn), o personagem de Gene Hackman explicitava o que era um consenso a respeito da obra do cineasta francês: “Eu vi um filme do Eric Rohmer uma vez. Foi como se eu estivesse assistindo tinta secando.” Por isso, Rohmer é mais um gosto adquirido.

Toda a obra de Eric Rohmer, que permaneceu inédita por aqui até em VHS, foi finalmente lançada em DVD pela Europa, em edições que bem mereciam maior cuidado (quase todas têm a imagem riscada e em mau estado de conservação, além de não trazerem qualquer extra, sequer trailer). Não é para todos os públicos, mas, sem dúvida, conhecê-la é uma experiência enriquecedora.

Sua última produção, Os amores de Astrea e Celádon (2007), só foi exibido por aqui no Festival do Rio, em apenas três sessões, todas lotadas (eu consegui estar presente em uma delas), permanecendo inédito em circuito e em DVD. É provável que agora venha a público, como derradeira homenagem a um dos grandes mestres da Sétima Arte em todos os tempos.