quarta-feira, 17 de março de 2010

Desejo e obsessão

Embora mais veterana, a diretora francesa Claire Denis tem um estilo de filmar que hoje pode ser comparado ao da argentina Lucrecia Martell (do engodo O pântano e do bom Santa menina): planos fechados, ritmo lento, economia de diálogos, roteiro por vezes descosturado. Além disso, utiliza com sobriedade um recurso narrativo que geralmente é relegado a um segundo plano no cinema comercial, o tempo, marcado por silêncios que pontuam a narrativa e preenchem as ações dos personagens, que assim compensam suas poucas falas. Num certo sentido, um tipo de cinema de ação, só que ao modo francês. Sem pressa e com pleno domínio de sua técnica, Denis comanda cada um destes elementos com invejável segurança. E todos eles aparecem combinados de maneira arrebatadora no magnífico Desejo e obsessão.

Em Paris, o médico Leo Semenault (Alex Descas), especialista em pesquisas sobre o comportamento sexual, mantém enclausurada em sua casa a esposa, Cora (Beatrice Dalle, a Betty Blue), que sofre de uma estranha e rara doença e está fora de controle. Paralelamente, um amigo, o jovem médico americano Shane (Vincent Gallo) chega à cidade para sua lua-de-mel. Ele procura Leo para que este lhe auxilie no tratamento da mesma doença que o acomete. Tanto Shane quanto Cora gostam de atacar a dentadas seus parceiros durante o ato sexual, matando-os num ritual canibalístico, numa busca insana do paroxismo do prazer. Uma série de contratempos encaminha este estranho caso de amor rumo a um explosivo desfecho.

É uma história trágica e tristíssima sobre a força do desejo e as pulsões que movem o ser humano a satisfazê-lo, ao mesmo tempo em que precisa controlá-lo ou mesmo abortá-lo em nome de uma suposta normalidade social, mesmo que isso o leve a estados mentais de desequilíbrio e abandono. Pois é o desejo, multiplicado pelo desespero, que arrasta o casal de canibais (Cora e Shane) aos limites de sua sanidade, confrontando-os com as convenções estabelecidas e expondo o sofrimento de ambos em sua inócua tentativa de controlar o que os mantêm vivos.

A magnífica abertura do filme dá uma boa dica do que se verá a seguir. Após uma rápida transa clandestina dentro de um carro estacionado em uma estrada deserta, uma atônita Beatrice Dalle (cuja bocarra sensual nunca esteve tão bem aproveitada no cinema e tão adequada a um papel) caminha por um descampado, enquanto um corte de cena flagra o alvorecer em algum bairro residencial nos subúrbios de Paris, com os primeiros raios de sol refletidos no lago, linda imagem realçada pela primorosa fotografia e emoldurada por uma oportuna trilha sonora. Outra grande cena é a que reúne Cora e uma eventual conquista, um desocupado que invade sua casa, atraído por sua beleza, durante o ato sexual, e onde a bela deixa aflorar seus instintos canibalescos, atacando com todo seu incontrolável desejo o rosto de seu amante. A cena é mostrada na penumbra, mas a tudo se vê, a tudo se assiste, chocado com a crueza da imagem, extasiado com a intensidade de tanto desejo – e, por que não dizer, comovido diante da constatação do fim melancólico que fatalmente aguarda a protagonista. Não há concessões. A seqüência é coroada com uma performance de loucura de Cora, banhada de sangue, andando sem rumo pelo quarto coalhado de tinta vermelha escorrendo das paredes, na boca restos carnais do homem a quem amara até poucos minutos atrás. Assustador e arrebatador.

O restante do elenco também está muito bem, com destaque para Vincent Gallo, bom ator que parece estar se especializando em papéis de personagens marginalizados. É ele o responsável pela cena final de canibalismo, fazendo explodir a tensão de que o filme se carregou até então. De certa forma, seu personagem funciona como uma espécie de contraponto dramático à Cora de Dalle. Enquanto esta foge de casa e luta para buscar o prazer à custa de um preço a ser pago por sua concretização, aquele trava dentro de si uma batalha feroz pelo controle de seus desejos. Neste sentido, o nome do personagem ganha em dimensão simbólica, sendo Shane o cowboy por excelência eternizado no faroeste Os brutos também amam (1953), de George Stevens, e cuja principal característica é a solidão que marca seu relacionamento com o mundo e com as pessoas com as quais se envolve. Não é por outro motivo que o Shane de Denis, embora se mostre sempre carinhoso e apaixonado pela jovem esposa, não consegue consumar a expressão física deste amor. Shane prefere se masturbar – em uma cena, ele se levanta no meio da noite e se tranca no banheiro enquanto do lado de fora a mulher ouve, chorando, os gemidos do marido em sua brincadeira onanista – a dar vazão a seus impulsos e desejos, ferindo assim o objeto de sua afeição. É a impossibilidade de viver este desejo, e de consumá-lo em sua totalidade, que atormenta Shane e o lança num exercício de desespero contido.

A derradeira e sintomática fala da história é um desfecho mais do que adequado e que simboliza de forma compacta todos os desejos experimentados pelos personagens ao longo da narrativa. Uma obra-prima carregada de simbologias, simplesmente espetacular.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Oscar 2010 - final

  • Confesso que quando Preciosa foi anunciado como vencedor de Roteiro Adaptado, tive esperança de que mais vitórias viessem, sobretudo na categoria principal. Afinal, fora uma surpresa o triunfo sobre o grande favorito Amor sem escalas. Porém, meu entusiasmo foi arrefecendo na medida em que os prêmios se sucediam. Seria mesmo querer demais: um filme pequeno, estrelado por negros, com uma história difícil, ser consagrado como o melhor do ano. Repetindo o que escrevi aqui neste espaço outro dia: "A América de Obama ainda não chegou a tal nível de igualdade". Mas fiquei feliz, no final das contas. Ao menos, o Oscar ficou no nosso planeta, e não em um mundo virtual, cheio de magia e encantamento, mas vazio de significados.
  • Parabéns à Academia, pela maturidade de conferir o prêmio máximo do cinema a um filme sem grandes ousadias narrativas ou visuais, que se sustenta em seu roteiro e não em invencionices tecnológicas. Parabéns pela escolha de um filme que, mesmo não sendo excepcional, dá o que pensar depois que o assistimos. Parabéns por escolher um filme que mostra gente real, de carne e osso, como eu e você, vivendo problemas reais, em vez de contemplar aberrações extraterrestres. O megabadalado blockbuster de James Cameron até pode ser muito bem intencionado em sua mensagem ecológica, mas somente consigo entendê-lo como um produto voltado única e exclusivamente ao puro entretenimento mercantilista, cuja bilheteria mundial não reflete exatamente suas qualidades dramáticas.
  • Nem preciso dizer que detestei Avatar, desde o trailer, que vi ainda em novembro e já havia me tirado todo o interesse em assisti-lo (e que já não era grande mesmo). Mas tampouco acho Guerra ao terror um grande filme, como todos podem confirmar pelos comentários que fiz aqui no blog, em postagens passadas. Porém, entre uma farsa tão vazia que necessita de toda a promoção de sua tecnologia para servir de chamariz e um filme que coloca na tela o drama de pessoas comuns, fico com este último.
  • O grande problema é que Guerra ao terror corre o sério risco de se tornar um dos menos memoráveis ganhadores de Oscar. Daqui a cinco, dez anos, todos falarão de Avatar, mas não sei se alguém vai se lembrar da fita de Bigelow. Isso não é bom para o prêmio, que pode acumular mais um caso de escolha equivocada. Só o tempo dirá.
  • Tudo bem, Sandra Bullock é uma atriz querida em Hollywood, todo mundo gosta e a Academia já vinha querendo premiá-la há um bom tempo. Mas foi a primeira vez em que uma atriz ganhou, ao mesmo tempo, o Oscar de Melhor Atriz e o Framboesa de Ouro de Pior Atriz! Quem quiser conferir o desempenho de Sandra no filme que lhe rendeu o primeiro, deve esperar até o dia 26, quando Um sonho possível chega às telas brasileiras. Mas quem quiser vê-la justificando sua escolha no segundo, pode procurar nas locadoras Maluca paixão, uma dessas escolhas erradas que ela tanto fez ao longo da carreira.
  • E ainda não foi desta vez que vi Meryl Streep ganhar o Oscar... (sua última vitória foi em 1983, quando eu não assistia à premiação). Mas tudo bem: ano que vem, ela está lá de novo. Alguma dúvida?
  • Na semana passada fui ver O segredo dos seus olhos. Saí maravilhado com o novo trabalho de Juan José Campanella, de quem já conhecíamos O filho da noiva e Clube da lua. E pensei: vai ser um páreo duro com A fita branca, mas até o último momento acreditei que o ótimo filme de Michael Haneke fosse confirmar seu favoritismo. Mas quem viu ambos os trabalhos sabe que o prêmio ficou em ótimas mãos. O segredo dos seus olhos é um filme espetacular, com excelentes atuações, uma seqüência já antológica, rodada com câmera na mão, durante um jogo de futebol, e um dos finais mais dolorosos e chocantes dos últimos tempos. Merecido. E vibrei com o prêmio conquistado. É a segunda vez que a Argentina ganha o Oscar de Filme Estrangeiro. Enquanto isso, o Brasil sequer consegue emplacar um representante entre os finalistas. E vai continuar assim enquanto insistirem com produções de qualidade duvidosa, achando que só filme de violência urbana tem algum valor. Sugestão para a Ancine: ano que vem, pensem com carinho em Os famosos e os duendes da morte, de Esmir Filho. Não tem tiroteio, nem bandido, nem chacina em grandes cidades. Mas tem inteligência e criatividade. Serve?
  • Outra surpresa: a derrota da dupla Wallace e Gromit. E justamente para Logorama, em quem eu originariamente teria apostado, mas desisti, certo da força que os personagens da Aardman têm no Oscar. Mas foi justo, o filme é um primor. Esperemos por ele no Anima Mundi.
  • Muito legal a homenagem prestada aos filmes de terror. Mas alguém me explica por que a Academia pagou tributo a um gênero que ela mesma sempre desprezou? Mistério...
  • Sobre a festa. Gostei do visual do palco, despojado, mais limpo, sem aqueles penduricalhos que desviavam a atenção. Não gostei da "novidade" deste ano, de não apresentar as canções indicadas. Quem já não as tivesse escutado antes ficou sem as conhecer e sem um parâmetro de comparação. Também não sei quem teve a idéia esdrúxula de ressuscitar a antipática frase "And the winner is...", que já estava esquecida há décadas. Pior: alguns artistas anunciavam os prêmios da outra forma, "And the Oscar goes to...". Afinal, o que estava valendo? É preciso rever isso para o ano que vem.
  • Acertei 15 palpites que cravei aqui na semana passada, meu melhor desempenho em todos os tempos.
  • Para finalizar. Se a Rede Globo não tem interesse em transmitir o Oscar, devia deixar a tarefa a outra emissora aberta mais competente, como o SBT, que, todas as vezes em que exibiu a festa, sempre o fez com total brilhantismo. Minha sorte é que pude acompanhar tudo pela TNT, mas e quem não tem a mesma sorte? Pelo visto, podemos imaginar que todo cinéfilo é, antes de tudo, um BBBmaníaco e não se importa de perder grande parte da cerimônia para acompanhar os interessantíssimos debates protagonizados pelas novas sumidades da vida nacional. Oscar de Desrespeito é isso aí.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Oscar 2010 - IV

Chegou a hora! Neste domingo, serão conhecidos todos os vencedores do Oscar, o mais aguardado prêmio do cinema mundial. Depois de passar o mês inteiro comentando e analisando alguns dos indicados de maneira geral, agora vou dar meus palpites para os premiados.

FILME
Todos os prognósticos apontam para a vitória de Avatar, o filme mais rentável da história do cinema, que popularizou o sistema 3D e lançou novos rumos para o futuro da Sétima Arte. Mas a tarefa não é tão simples, pois Guerra ao terror vem na surdina colecionando prêmios e elogios. Os americanos estão encantados com um filme absolutamente comum e que, no fundo, é uma celebração do espírito belicista típico da nação, com uma mensagem estranha de que a guerra é mais importante do que a família! Enfim, a disputa está polarizada entre estes dois. Correndo por fora, vem Bastardos inglórios e o meu favorito, Preciosa, mas dificilmente um deles vai surpreender.

DIRETOR
Aqui deveremos assistir à quebra de um tabu: Kathryn Bigelow deve se tornar a primeira mulher a ganhar o Oscar da categoria (é apenas a quarta indicada da história do prêmio). Já levou o DGA, o que é sempre um termômetro confiável, e deve deixar seu ex-marido James Cameron vendo extraterrestres azuis na noite da premiação. Eu até torço por Quentin Tarantino, mesmo que Bastardos inglórios não seja o filme que lhe mereça render o Oscar.

ATOR
Jeff Bridges é uma das barbadas do ano. O único risco é o "fator Mickey Rourke" ocorrer novamente.

ATRIZ
Aqui também não tem jeito: Sandra Bullock já deve até ter ensaiado o discurso de agradecimento. Ela é o tipo de atriz carismática, que até funciona como chamariz de bilheteria, mas que nunca se espera que ganhe prêmio algum dia. Mas a Academia quer premiá-la há algum tempo, em reconhecimento por sua carreira. Verdade que está bem em Um sonho possível, mas, a meu ver, a grande atuação entre as indicadas é a de Gabourey Sidibe. Também seria legal ver Meryl Streep levar mais um Oscar para casa (ela tem dois, mas não ganha desde 1983, embora tenha sido nomeada com freqüência nos últimos anos e agora chegue à sua 16ª. indicação, um recorde que dificilmente será batido ou mesmo igualado). Enfim, Sandra é a Julia Roberts da vez.


ATOR COADJUVANTE
Christoph Waltz. E ponto final.

ATRIZ COADJUVANTE.
Mo’Nique, assustadora como a mãe desnaturada de Preciosa. No fim das contas, deve ser o único prêmio concedido ao filme. Porém, com extrema justiça.

FILME ESTRANGEIRO
Ganhador da Palma de Ouro, o estupendo A fita branca (Alemanha) elevará enfim o nome de Michael Haneke ao patamar dos grandes realizadores. A curiosidade é a presença, entre os indicados, de outro vencedor (este de Berlim), o peruano A teta assustada. Foi o único filme produzido naquele país no ano passado. Enquanto isso, o Brasil não consegue sequer escolher um filme decente para disputar uma vaga na categoria. Até quando vão continuar insistindo com a temática da violência urbana? Não temos mais nada para mostrar?

FILME DE ANIMAÇÃO
Up – altas aventuras é vitória garantida.

ROTEIRO ORIGINAL
Por já ter vencido o WGA, Guerra ao terror leva nessa categoria. Insisto: apenas porque os americanos estão cobrindo de loas este filme. Minha torcida é por Bastardos inglórios. Mas a Academia esqueceu-se de 500 dias com ela, o melhor roteiro de 2009.

ROTEIRO ADAPTADO
Amor sem escalas, também repetindo o Globo de Ouro.

DIREÇÃO DE ARTE
Primeiro dos outros prêmios técnicos que caberão a Avatar. Merecido, porque a concepção visual de Pandora é mesmo impressionante. Minha torcida é por O mundo imaginário do Dr. Parnassus, outro delírio cenográfico assinado por Terry Gilliam.

FOTOGRAFIA
Também aposto em Avatar, embora Guerra ao terror possa surpreender. Eu gostaria que ganhasse A fita branca, com seu esplêndido preto e branco.

FIGURINOS
Parece óbvio que Coco antes de Chanel seja o vitorioso nesta categoria. Porém, A jovem Vitória, o filme de época da vez, não deve ser descartado.

MAQUIAGEM
Para muitos o melhor filme de 2009, Star Trek acabou relegado apenas às categorias técnicas. E deve ganhar nesta aqui, favorecido pela estranha ausência de Avatar.

TRILHA SONORA
Outro prêmio para Up – altas aventuras. Na maior prova do prestígio alcançado por Guerra ao terror, o filme conseguiu a proeza de ser indicado na categoria sem ter trilha sonora!!!!

CANÇÃO
Basta uma audição para perceber que "Almost there" (de A princesa e o sapo) tem cara de Oscar. Mas o prêmio ficaria em boas mãos se caísse para "The weary kind", um solo poderoso e muito melancólico, que cresce absurdamente no filme Coração louco. Já "Take it all" (de Nine) peca por ser algo inconclusa.

MONTAGEM
Fico com Guerra ao terror.

EFEITOS ESPECIAIS
Alguma dúvida sobre a vitória de Avatar? Estranho a ausência de 2012, que tinha justamente nos efeitos especiais o grande trunfo de sua narrativa frouxa.

SOM
Mais um para Guerra ao terror.

EFEITOS SONOROS
Mais um para Avatar.

DOCUMENTÁRIO
The cove, sobre a matança de golfinhos, dará o toque ecologicamente correto da noite.

DOCUMENTÁRIO CURTO
Aqui começa o festival de chutes absolutos, já que pouco ou nada se sabe a respeito dos indicados desta e das categorias seguintes. Meu voto é para China’s unnatural disaster: the tears of Sichuan province. Mas é puro palpite.

CURTA-METRAGEM
O indiano Kavi vai navegar nas águas da popularidade que seu país recebe desde o ano passado.

CURTA DE ANIMAÇÃO
O francês Logorama é uma obra-prima, mas não vai ganhar, em parte por expor ao ridículo um símbolo da cultura norte-americana (Ronald Mcdonald aparece como ladrão de banco!), mas principalmente porque terá a companhia de Wallace e Gromit – um caso de miolo e morte. A dupla de massinha da Aardman é adorada em Hollywood e nunca foi derrotada no Oscar – já ganhou outras três vezes na categoria e ainda em Filme de Animação. Praticamente imbatíveis.

Ano passado acertei 13 palpites; quantos serão este ano? Aguardemos as respostas. Em virtude da urgência dos comentários sobre a premiação, a atualização do blog, na próxima semana, será feita na terça-feira.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Oscar 2010 - III

(Continuação da postagem anterior) Tudo bem que Nine não chega aos pés de Chicago, o trabalho anterior de Rob Marshall que, em 2003, lhe rendeu seis Oscars, incluindo filme e direção. Mas também não é este desastre cataclísmico que a crítica especializada está deixando entrever. É verdade que tem muitos problemas, alguns bastante evidentes, o que talvez explique seu fracasso comercial aqui e lá fora. O maior deles, sem dúvida, é a escalação de Daniel Day-Lewis no papel de um italiano. Day-Lewis é um excelente ator, como já demonstrou em diversas ocasiões, inclusive quando arrebatou seu segundo Oscar, em 2008, por Sangue negro, mas é um tipo muito britânico, que não convence como um diretor italiano de sangue quente. Nem o sotaque ele consegue fazer direito! Assim, já fica difícil desde o começo identificarmos ali o que poderia ser a supressão momentânea da realidade, que rege o código do cinema: vemos um ator interpretando um personagem, e nada além disso. Outra provável explicação é a rejeição que grande parte do público de hoje tem por musicais, um gênero que respira por aparelhos há décadas e somente de vez em quando consegue inovar, reciclar-se, sem perder suas origens – foi assim com Moulin Rouge, o próprio Chicago, o espanhol 20 centímetros etc. O título não ajuda, porque não passa a idéia do que é o filme. Também a história já é conhecida: um grande mestre do cinema italiano, em crise pessoal, profissional e afetiva, tenta concluir seu novo projeto, o nono de sua carreira, enquanto repassa sua vida em meio a lembranças das várias mulheres com quem conviveu. Se a sinopse parece familiar, é mesmo: todos viram isso em Oito e meio de Fellini (o diretor interpretado por Day-Lewis se chama Guido Contini!). Na verdade, a base da história foi uma peça da Broadway, que adaptava para os palcos os anseios celebrados por Fellini nos anos 60. Ou seja, como definiu um crítico do jornal O Globo, "Nine é Fellini passado duas vezes no coador"! E todos sabemos os riscos que se corre ao se refazer um clássico do cinema.

Mas Nine é um bom filme, um pouco arrastado no começo, que vai ganhando em interesse do meio para o final, e mesmo quem gosta ou não conhece o original, desde que goste de musicais, poderá até se envolver e se deixar levar ao ritmo das canções. Há pelo menos três bem poderosas e que grudam na memória. Pela ordem de aparição na tela, "Be italian", cantada pela Fergie (ela mesma, do Black Eyed Peas), que faz a prostituta das lembranças infantis de Contini; "Cinema italiano", o mais frenético número do filme, defendido com energia contagiante por Kate Hudson (a canção foi indicada ao Globo de Ouro); e "Take it all" (esta indicada ao Oscar), quase ao final, em que Marion Cotillard dá mais um show de interpretação cantando (e mostrando também uma excelente forma física). Entre as outras figuras femininas do filme, todas com algum momento de canto, estão a sempre respeitável Judi Dench, Nicole Kidman (que aparece muito pouco e mal tem falas como a estrela temperamental) e Penélope Cruz, como a amante do diretor. Ela também foi nomeada ao Oscar, a meu ver injustamente, talvez porque esteja ainda na crista da onda em Hollywood, ainda por conta de seu prêmio por Vicky Cristina Barcelona (aliás, já repararam que agora ela só faz papel de amante?). A Academia esqueceu Marion Cotillard, perfeita como a esposa traída que sofre em silêncio até explodir em seu número de canto e dança (claro que é uma visão subjetiva, pois, como em Chicago, todas as coreografias só acontecem na mente do protagonista). É dela a grande atuação feminina em Nine. Há ainda rápidas aparições da mãe de Contini, vivida por Sophia Loren, no que são as imagens mais chocantes do filme. É triste ver aquela que já foi uma das mais lindas atrizes de todos os tempos bastante envelhecida, com maquiagem deficiente que nada esconde da passagem dos anos. Praticamente um desrespeito.

Além das duas indicações detalhadas acima, Nine concorre ainda em Direção de Arte e Figurinos. Ficou fora das categorias de Som e Efeitos Sonoros, tradicionais nichos dos filmes musicais, o que atesta o fracasso do projeto. Pelo visto, seu destino será mesmo restringir-se a um público bastante restrito. Nine não será desses musicais capazes de arrebanhar novos fãs para o gênero. (Continua)

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Oscar 2010 - II

(Continuação da postagem anterior) O meu favorito ao Oscar deste ano é Preciosa. Confesso que não levava muita fé neste filme produzido pela Oprah Winfrey, estrelado por negros e, supostamente, endereçado a um público restrito, que poderia se reconhecer e identificar na tela. Não nos esqueçamos que foi a mesma Oprah quem nos legou o discutível Bem-amada, execrado pela crítica. Mas o que vi na tela superou qualquer expectativa. É, disparado, o melhor filme entre os dez finalistas. Conta a história (que não é baseada em fatos reais, ao contrário do que se chegou a divulgar na imprensa) de Precious, uma garota obesa de 16 anos, que está grávida do padrasto, com quem já teve uma outra filha, que tem síndrome de Down, e sofre constantes maus-tratos da mãe, que a chama de “baleia”, “lixo” e outras agressões, somando-se às verbais, também as físicas. Sua vida é um inferno, mas ela prefere trilhar o caminho da esperança ao invés de sucumbir diante das dificuldades que se apresentam. Não por acaso, o filme ganhou o subtítulo brasileiro de “Uma história de esperança”. Não é uma obra feita para divertir, e quem for assisti-la apenas para fazer hora no cinema ou se distrair certamente ficará arrependido ou revoltado. Ao contrário, é um filme de forte impacto, difícil, por vezes quase insuportável de ver, barra-pesadíssima, que pode tender para a depressão, mas inevitavelmente provocará lágrimas. Nada prepara o espectador para o choque que se terá ao assisti-lo. Pode-se acusar o diretor Lee Daniels de manipular seus personagens, visando o efeito fácil, a catarse pública; ele o faz, porém, com extrema segurança. Além de contar com duas interpretações impressionantes. A comediante Mo’Nique, muito conhecida na televisão americana, desperta ódio e pena no espectador como a mãe. Deve faturar o Oscar de coadjuvante, repetindo o feito do Globo de Ouro. Seria um prêmio merecidíssimo. A protagonista é vivida por uma estreante de nome estranho e complicado, Gabourey Sidibe, que ainda encara o desafio de, aos 27 anos de idade, interpretar uma adolescente. Sua atuação é visceral, e deveria ser reconhecida com o Oscar de Atriz, outra das seis que o filme recebeu (mas alguém acredita que uma negra gorda e feia vai ganhar o prêmio? A América de Obama ainda não chegou a esse ponto de igualdade). Quase nos faz acreditar que sua Preciosa é de fato real. Embora sua composição não esteja assim tão longe da realidade. Quantas “Preciosas” existem espalhadas por aí, mesmo no Brasil, perambulando invisíveis suas existências sofridas e silenciosas? É uma realidade que as pessoas não fazem questão de conhecer nem de ver. Mesmo assim, é um raro caso de filme que nos leva a uma profunda reflexão sobre nossa própria condição humana. Obrigatório.

Este meu favoritismo por Preciosa ocupou o espaço que antes era de Amor sem escalas, comédia romântica sobre um executivo que viaja por todo o país demitindo pessoas de empresas em situação falimentar (o cargo não existe de verdade, é apenas uma invenção dramática surgida no romance original em que se baseia, de Walter Kim, publicado no Brasil pela Record). Metódico e extremamente cético quanto ao sucesso dos relacionamentos afetivos, vê sua estrutura ruir depois de conhecer uma executiva, papel de Vera Farmiga, outra indicada como coadjuvante, juntamente com sua colega de elenco Anna Kendrick. A abertura do filme é espetacular, com uma sobreposição de imagens aéreas de várias cidades norte-americanas. Quando lançado nos EUA, Amor sem escalas chegou a ser apontado como obra-prima, coisa que está longe de ser, mas é um filme bem agradável, confirmando o talento do diretor Jason Reitman, o mesmo de Obrigado por fumar e Juno.

Sobre Bastardos inglórios, já escrevi na época do Festival do Rio. Dos outros indicados à categoria principal, Up – altas aventuras é apenas o segundo desenho animado a concorrer ao prêmio máximo (o primeiro foi A bela e a fera, em 1992). Mesmo sendo um primor de realização, evidentemente não tem chances de ganhar, mas é o favorito ao Oscar de Animação. Sua presença na lista é uma espécie de pedido de desculpas da Academia, que não incluiu Wall-E entre os finalistas ao Oscar do ano passado, quando todos davam como certa sua presença, em que pese o fato de ele ter concorrido e vencido em sua categoria específica.

Dos outros quatro indicados, há pouco a dizer. Distrito 9 já pode se considerar vencedor: é o primeiro filme africano a concorrer ao Oscar principal, além de ser uma rara ficção-científica considerada elegível pela Academia. Já se vislumbra um futuro promissor para seu diretor, o sul-africano debutante Neil Blomkamp, bem como para seu protagonista, Sharlto Copley (prestem atenção que logo logo estará em Hollywood), talvez até mesmo estrelando uma provável refilmagem em terras ianques. Educação apenas ocupa a vaga do filme inglês do ano. Um sonho possível e Um homem sério parecem evocar mesmo a época em que ter muitos indicados era uma norma em Hollywood. Cada um recebeu apenas mais uma nomeação – o primeiro deve render à atriz Sandra Bullock seu primeiro Oscar. O segundo reafirma o prestígio dos irmãos Coen junto à Academia; fossem outros que assinassem a direção, o filme provavelmente passaria em branco. Mais uma vez, não entendo como um concorrente ao Oscar recebe menos indicações do que um outro filme, que fica de fora da lista final – no caso, o musical Nine, massacrado pela crítica, esquecido até no Globo de Ouro, e que, mesmo assim, defende quatro indicações. (Continua)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Oscar 2010 - I

Depois de quase 70 anos, a Academia dobrou o número de indicados ao Oscar de melhor filme. Na cerimônia de entrega do prêmio, a se realizar em 7 de março, dez produções concorrerão pela láurea máxima do cinema. A justificativa para a inflação de candidatos foi a alta qualidade do cinema produzido hoje em Hollywood. Mas basta uma rápida análise dos nomeados para constatar que não é bem assim. Na verdade, tal decisão parece estar muito mais atrelada às pressões dos grandes estúdios, que assim podem emplacar suas obras e faturar mais com o simples chamariz de “filme indicado ao Oscar”. A diferença entre o que se faz hoje e o que se fazia naquele tempo é tão grande quanto a distância que separa o mundo dos humanos de Pandora.

Entre o final da década de 30 e o começo da de 40, era comum que dez filmes disputassem o prêmio. Porém, naquela época sim, podíamos falar de alto nível das produções. Apenas para ficarmos naquele que é considerado por muitos como o ano mais fértil da história do cinema, veja alguns filmes indicados à categoria principal em 1940: E o vento levou..., O mágico de Oz, No tempo das diligências, Adeus Mr. Chips, Ninotchka... Por uma década, a Academia manteve o número de dez indicados, sempre confrontando obras como As vinhas da ira, Núpcias de escândalo, O grande ditador (1941), Cidadão Kane, Sargento York, Como era verde o meu vale (1943), Casablanca, Consciências mortas, Nosso barco, nossa alma (1944) – a partir de 1945, o número de indicados estabilizou-se em cinco.

A lista de nomeados este ano, contudo, pode ser vista como a mais eclética de todos os tempos. Há espaço para aventuras fantásticas, comédias de costumes, dramas humanistas, animações e até uma ficção científica sul-africana, caso inédito na história do prêmio. Todos os prognósticos apontam para a vitória do monumental Avatar, de James Cameron, o “rei do mundo” desde os tempos de Titanic, que, contudo, não conseguirá repetir os feitos alcançados com seu sucesso anterior, mesmo porque sua superprodução atual recebeu menos indicações – 9 contra 14 daquela. O filme já se consolidou como a maior bilheteria de todos os tempos, rendendo mais de 1,83 bilhão de dólares em todo o mundo, superando a marca anterior, que era de... Titanic. Chega respaldado também pelas inovações tecnológicas introduzidas pelo uso do 3D, que é um sistema antigo de projeção, mas que somente agora, no limiar de um novo século, ganha as ferramentas adequadas para se popularizar, embora o uso daqueles oclinhos seja incômodo pra caramba. O fato é que Avatar está muito longe de ser o grande filme apregoado por vários espectadores, certamente encantados pela ousadia visual, confundindo uma coisa com outra, esquecendo-se do roteiro esquemático, dos personagens rasos e sem sustentação dramática. Mas, além de deu poderio financeiro, o filme já chega como franco favorito também por ter arrebatado o Globo de Ouro, tradicional prévia do Oscar, e que quase sempre serve de termômetro para indicar o grande vencedor da estatueta dourada.

Na cola de Avatar, está Guerra ao terror, curiosamente dirigido por Kathryn Bigelow, ex-esposa de Cameron e apenas a quarta mulher nomeada ao Oscar da categoria. Suas chances de desbancar o ex-marido são grandes; já seu filme, lançado meio na encolha ano passado, colecionou elogios nos últimos tempos e pode surpreender na disputa. No Brasil, teve uma trajetória curiosa: foi lançado primeiro em DVD, porque sua distribuidora, a Imagem, simplesmente não acreditou em seu potencial de mercado. Bastou o burburinho na imprensa norte-americana, e as posteriores 9 indicações ao Oscar, contudo, para que ele ganhasse finalmente as salas exibidoras, nas quais estreou no último dia 5. (Continua)

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Coisas belas e sujas

Coisas belas e sujas não é uma obra-prima nem um filme que possa mudar sua vida, mas sem dúvida vai gerar muita discussão pela natureza do tema tratado.
O nigeriano Okwe (Chiwetel Ejiofor, bom paca) trabalha como recepcionista em um hotel de Londres. Ele está em situação ilegal no país, assim como sua namorada, a camareira turca Senay (a gracinha Audrey Tautou, de O fabuloso destino de Amelie Poulain). Um dia, Okwe descobre algo terrível em um dos quartos do hotel e percebe que algo de muito estranho está acontecendo por ali. Suas suspeitas indicam para Juan Sneaky (Sergi Lopez, de Uma relação pornográfica), o subgerente do hotel. Junto a Senay, e com a ajuda do porteiro, de uma prostituta e de um amigo que trabalha no necrotério da cidade, Okwe parte para desvendar o mistério e salvar sua vida e a de seus amigos.

Dirigido com segurança pelo inglês Stephen Frears (Ligações perigosas, Os imorais, Minha adorável lavanderia), o filme trata de um tema atual e polêmico: o comércio de órgãos humanos nas grandes cidades, realizado clandestinamente. Aliás, todas as ações dos personagens se dão no mesmo nível. Okwe e seus amigos parecem viver à sombra, agindo nos subterrâneos, fundindo-se à sua irregularidade; é como se habitassem um mundo à parte (suas situações de ilegalidade) dentro de um mundo à parte (o hotel, com sua divisão de classes, patrões e empregados). A realidade comentada pelo roteiro ganha em dramaticidade pelo apelo cruel que envolve a situação.

O roteiro não apela para a sanguinolência, embora haja cenas desagradáveis (como uma logo no começo, que deflagra toda a trama) e equilibra bem o suspense e o drama, com alguns momentos de bom humor para aliviar a tensão (o porteiro e a prostituta, interpretada por Sophie Okonedo, são muito engraçados). Uma grande cena é quando Okwe interpela Sneaky sobre as descobertas que fez e este lhe revela todo o esquema (e quando o título do filme é justificado).

O filme foi indicado ao Oscar de Roteiro Original em 2003 e passou voando pelo circuito carioca. Merece ser descoberto.