quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O porco e o sonho

Billi pig (2011)
Apesar dos avanços e melhorias perceptíveis na tela, em vários aspectos, o cinema brasileiro continua encontrando forte resistência interna. Há uma grande parte de público que torce o nariz para tudo o que se faz por aqui, insistindo na idéia, hoje furada, de que filme brasileiro só tem "sexo e mulher pelada", uma visão que se firmou por causa das produções eróticas dos anos 80. O engraçado é que essa mesma parte de público assiste e aplaude qualquer droga feita em Hollywood, só porque vem de fora, em vez de procurar mudar o ponto de vista sobre o cinema nacional.

Isso é muito triste, afinal, a produção audiovisual de um país ajuda a construir laços de identificação e reforçar a autoestima do povo quanto ao próprio país. Somos nós, nossos problemas e nossa realidade, que estamos na tela. Em parte, a culpa por esse distanciamento entre o público e o cinema é dos próprios produtores, que investem em filões temáticos de forte apelo e receita garantida, o que gera certa antipatia popular: o que antes era "filme de sexo e mulher pelada" passa a ser "filme de favela", "filme de tiro", "filme de cadeia", e atualmente o que está na moda, "filme de stand-up comedy", geralmente mais popular, estrelado por novos talentos do humor. É preciso formar um público acostumado com o cinema nacional, que goste do que vê e assista a nossas produções sem preconceito. Mas admito que esse trabalho fica bastante dificultado quando o cidadão se depara com uma coisa chamada Billi Pig, outra aberração cometida pelo diretor José Eduardo Belmonte, que não tem mais o que fazer para tentar salvar sua carreira.

Billi Pig é horrível. É caótico em todos os sentidos, a ponto de eu não saber, até agora, de que exatamente trata a história. Basicamente, é sobre uma moça que sonha em se tornar atriz (Grazi Massafera, em sua estréia no cinema, no que talvez seja a maior curiosidade e único motivo real para se ver a fita), que é casada com um barnabé preguiçoso e assexuado (sic) (quem faz o papel é Selton Mello, parecendo de má vontade e muito longe de seus melhores dias). Indecisa e sem saber o que fazer, ela passa horas conversando com seu porquinho de pelúcia, que às vezes ganha vida e lhe dá conselhos, definindo os rumos que ela deve tomar.

Nesse sentido, a semelhança com Um novo despertar é inevitável. E o ridículo de ambas as situações, também. Naquele filme, Mel Gibson vive um empresário cuja vida é salva depois que começa a ouvir a "voz" de uma marionete de castor, achada no lixo, que passa a lhe dar conselhos. A diferença é que lá a história se leva a sério, enquanto aqui é tudo uma comédia assumida (Um novo despertar também é, mas ninguém tem coragem de admitir), sem qualquer compromisso com a realidade ou com a lógica.

A menina e o porquinho.
Em torno do casal central, gravita um turbilhão de personagens, como um padre mulherengo, um policial militar, um grupo de traficantes pés de chinelo, um malandro. Todos muito mal desenhados e pessimamente desenvolvidos, que vão sendo jogados na tela sem qualquer preparação. O roteiro força uma série de circunstâncias para entrelaçar todos os núcleos, mas vê-se que há gente demais, coisa demais, para caber no filme, e o jeito é misturar tudo de qualquer jeito. O recurso do porco falante até diverte no começo - a melhor cena mostra Grazi e o bicho "conversando" na cama - , mas aos poucos é abandonado e esquecido. Ou seja, não rende o prometido, como de resto todo o filme resulta cansativo e aborrecido, também excessivamente longo, com quase duas horas de duração, que parecem intermináveis. O final na festa reunindo todo mundo evidencia a falta de melhores conclusões. É difícil esboçar sequer um sorriso. Belmonte deve ter ficado com a mesma impressão, e talvez por isso tenha inserido várias cenas que deram errado nos créditos finais, os famosos bloopers de DVD, já no desespero, para ver se o espectador ri um pouco. Mas nem isso funciona.

O filme é um desastre total. Indefensável. Belmonte assinaria coisa ainda pior no ano passado, O gorila, que permanece inédito em circuito, para o bem do cinema, e que continue assim. Diante de Billi pig, não tem desculpa: resta concordar quando falam mal do cinema brasileiro. Do porco à porcaria, a distância é bem curta. 

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

A censura matou o gato (e o rato)

Setenta anos de perseguição sem censura. Até agora.
Um lançamento em blu-ray, prometido pela Warner inicialmente para junho deste ano, mas adiado para 2014, está causando polêmica nos Estados Unidos e faz voltar à tona a discussão acerca dos limites da censura em nome do politicamente correto. A distribuidora anunciou a coletânea Tom e Jerry Golden Collection - volume two, que seria um presentão para os fãs da dupla, legítima representante da chamada Era de Ouro da animação em Hollywood. Porém, quando sites de comércio virtual divulgaram a relação de desenhos contidos na fita, o que chamou a atenção foram as ausências: dois episódios haviam sido sumariamente excluídos da coletânea por trazerem, segundo a distribuidora, cenas de intolerância racial e com excesso de violência na relação entre o gato e o rato.

Os desenhos já não são mais exibidos há anos nos canais de TV locais. É claro que no Brasil nunca houve qualquer restrição, porque lembro-me de assisti-los com freqüência quando criança. Não sei se pela época mais livre e permissiva daquele tempo, os bons e velhos anos 80, ou se pela minha natural ingenuidade infantil, jamais vi indícios de preconceito ou apologias contrárias à moral e aos bons costumes. Para mim, eram apenas desenhos animados, e é como continuo vendo-os ainda hoje, já adulto e, portanto, quando poderia identificar um discurso nazi-fascista dissimulado em meio às peripécias da dupla. 

Naturalmente, a proibição chamou a atenção para os desenhos, que, em condições normais, passariam despercebidos em meio a outros de alguma coletânea. Mesmo porque estão disponíveis na internet para quem quiser ver e tiver um pouco de paciência para procurá-los. Mas o leitor do CineComFritas que, como eu, ficou curioso para saber o que há de tão errado nos desenhos, não precisa perder tempo caçando ambos na rede: pode assisti-los diretamente aqui no blog.

O primeiro, Mouse cleaning, de 1948, foi vetado sob a alegação de promover conteúdo de sugestão racista, já que o gato aparece com o rosto pintado de preto, uma cena bem rápida, quase no final. Veja abaixo e tire suas conclusões.




Forçando demais a barra, e fazendo um esforço de associação de idéias e imagens, podemos perceber uma mensagem subjetiva: admite-se que os "negros" sejam enxotados de suas casas, ou de casas alheias, em nome de uma atmosfera de "limpeza" e ordem. Crianças entenderiam assim?

O outro desenho censurado foi Casanova cat, de 1951. Contra este, pesam mais argumentos, todos insustentáveis: excesso de violência (aqui há tanto quanto em qualquer outro desenho da dupla), racismo, incentivo ao tabagismo e não sei como também não o acusaram de apologia ao homossexualismo! Você pode ver - ou não - tudo isso no vídeo abaixo.



De novo é preciso forçar a barra e ver um resquício subliminar de racismo, com os "negros" servindo de instrumento de riso usado pelos "brancos". E de novo: alguma criança estabeleceria esse tipo de relação? Admito que só fiz essas interpretações porque fui direcionado a tanto. A maldade está, como sempre, nos olhos do adulto, que prefere o caminho fácil da censura ao diálogo aberto com os filhos, explicando que não existem diferenças entre as raças. 

Apesar da gritaria dos fãs, a Warner emitiu uma nota em que reafirma sua intenção de não voltar atrás na decisão do veto: "A empresa sentiu que certo conteúdo seria inapropriado para o público alvo (crianças) e por isso excluiu alguns trechos." Fãs escreverem em uma rede social revoltados com a censura, defendendo que não é possível corrigir erros do passado simplesmente ignorando-os, para fingir que nunca existiram. "É uma vergonha omitir peças históricas numa coleção", protestou um. A cultura de um tempo sempre se reflete nos elementos artísticos de sua época. Se ela traz resquícios de um pensamento que hoje seria moralmente condenável, é porque ele estava presente na sociedade de então. Querer passar a borracha em um passado que traz constrangimento aos nossos dias belicosos guiados pelo politicamente correto, em que até o humor é patrulhado para não ferir sensibilidades de algumas fatias da sociedade, é assumir a repressão orwelliana prevista em 1984, quando, sob as ordens do Grande Irmão, a história era constantemente apagada e reescrita, mantendo a fantasia de que tudo era perfeito e limpo.

A capa da coleção incompleta.
A questão da censura aos desenhos abrange aspectos muito maiores, que não cabem aqui, mas devem ser debatidos em todas as esferas sociais. Faz lembrar um episódio recente ocorrido ano passado, quando o Ministério da Educação e Cultura (MEC) vetou o livro Caçadas do Pedrinho, de Monteiro Lobato, por causa de uma passagem em que o autor, supostamente, comparava a personagem da Tia Nastácia a uma macaca. Ou seja, perdeu-se a oportunidade de dialogar sobre as implicações sociais de tal representação, e no que ela tem ou teria de preconceituosa, em prol de uma solução mais "fácil", porém igualmente condenável. 

A melhor resposta que o público pode dar a essa arbitrariedade, e, ao mesmo tempo, demonstrar seu descontentamento com a interferência de uma suposta "autoridade superior" que pode decidir o que deve ou não ser visto, é deixar de comprar a coletânea e fazê-la encalhar nas prateleiras. Será que a Warner recolherá o produto e o lançará completo, como se espera de uma peça de coleção?

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Uma paixão animal

Animalada - Uma relação diferente (2001)
Um homem se apaixona perdidamente por sua ovelha de estimação e passa a enfrentar o mundo para que ambos se mantenham juntos. Este é o absurdo ponto de partida de Animalada - Uma relação diferente, que pode ser considerada mais uma prova da vitalidade criativa do cinema argentino. Porém, a trama, escrita e dirigida por Sérgio Bizzio em 2001 e inédita no circuito comercial brasileiro, se equilibra mal entre a comédia e o drama, resultando muito aquém do que prometia a inusitada situação inicial.

Convenhamos que há temas delicados demais para serem ridicularizados. Doenças terminais, violência física ou sexual e pedofilia, por exemplo, jamais ou dificilmente se enquadrariam em qualquer tentativa de humor, por mais, hã, "bem-intencionado" que seja o autor de alguma idéia ousada a tal ponto. Certo, humor não se discute, mas há assuntos com os quais não se deve brincar, sob o risco de ferir sensibilidades do público ou desrespeitar certos dogmas sociais indiscutíveis. Uma história que passeia pela zoofilia precisa ser levada com cautela. E fazer humor com tal situação requer habilidade e soluções a um tempo criativas e satisfatórias. Nada disso vemos aqui. A idéia atrai sem dúvida pela estranheza; fosse um conto ou um romance, seria o tipo de texto que me chamaria a atenção.

Alberto (Carlos Roffé) vive na área rural de Córdoba em companhia da mulher, com quem está casado há 29 anos. Um dia, enquanto ambos estão jantando na cozinha, o olhar de Alberto se cruza acidentalmente com o de Fanny, sua ovelhinha de criação. Surge uma atração inexplicável, que leva Alberto a se encontrar com o animal horas depois, no estábulo. O desejo explode, a paixão se impõe e agora o fazendeiro precisa resguardar o objeto de sua afeição contra todos os perigos do mundo. Nem que para isso precise contrariar sua natureza pacífica e reservada, expondo o lado negro e desconhecido de sua personalidade.

O inusitado casal em momento carinhoso.
O que poderia ser uma comédia de absurdos descamba para um clima sombrio na medida em que a história avança. Primeiro, Alberto mata o capataz que ameaça violar a ovelha, uma cena digna dos melhores filmes trash; depois, quando a esposa flagra um encontro entre ele e Fanny e revela a verdade a um grupo de médicos, ele nada faz para impedir que ela seja internada em um manicômio, já que, obviamente, ninguém acredita na história. Outras mortes e intrigas familiares brindarão o espectador até o desfecho. O humor envolve boa parte da narrativa, embora de maneira um tanto tímida e forçada. A melhor cena acaba sendo a da "traição", quando Alberto encontra Fanny literalmente na cama com um carneiro!

Apesar do tema pesado, o diretor tem o bom senso de não mostrar cenas explícitas de sexo animal, tudo é sugerido por movimentos e posicionamento de câmera. A quase completa ausência de trilha sonora também confere um estranho tom documental à narrativa. Também não há nomes muito conhecidos no elenco. Roffé esteve em algumas produções conhecidas, como Uma noite com Sabrina Love (2000) e Valentín (2002). O diretor Sérgio Bizzio é um famoso roteirista da televisão local, já tendo assinado diversas séries. Esta foi sua estréia no cinema, onde voltou a se arriscar este ano, com Bomba.

No fim, a idéia de Animalada acaba sendo muito mais interessante que sua realização.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Obsessão lusitana rodrigueana

Odete (2005)
Embora dividam uma identidade lingüística similar, com pequenas variações de lado a lado, Brasil e Portugal não comungam da mesma intimidade audiovisual. Ao passo que as telenovelas brasileiras fazem muito sucesso nas terras d'além-mar, a ponto de influenciarem o falar do povo local (o que gerou controvérsia nos meios culturais há alguns anos), a produção portuguesa de filmes e programas de TV é praticamente desconhecida por aqui. Há exceções, claro, a maior atendendo pelo nome de Manoel de Oliveira, o diretor mais idoso ainda em atividade no mundo. Aos 103 anos, Oliveira continua trabalhando e produzindo em média um filme por ano, demonstrando um vigor invejável para alguém de idade tão provecta. Projetos seus ganharam as telas daqui, como Um filme falado (2002), Sempre bela (2006) e Singularidades de uma rapariga loira (2010), enquanto O estranho caso de Angélica (2008) é reprisado com freqüência na TV a cabo. Em tempos não muito distantes, a primazia de ser o embaixador do audiovisual lusitano em terras tupiniquins coube a João César Monteiro, cuja obra-prima A comédia de Deus (1995) ficou algum tempo em cartaz.

O nome da vez é João Pedro Rodrigues, considerado hoje o diretor mais importante da nova geração de realizadores portugueses, sempre marcando presença em festivais ao redor do mundo. Dele, o público cinéfilo já viu o polêmico O fantasma (1996), que trazia escancaradas duas vertentes de sua obra: a obsessão humana que nasce motivada pela solidão e a temática homossexual, quase sempre contemplando o espectador com generosas cenas de sexo, na maioria das vezes incômodas. Embora de carreira consistente, nada justificava uma retrospectiva de sua filmografia no último Festival do Rio, já que ainda não se observa em sua obra o que possa ser definido como um legado de reconhecido peso para a Sétima Arte. No entanto, a iniciativa foi uma excelente oportunidade para se conhecer um conjunto ignorado pelo circuito exibidor, além de trazer novamente ao evento um título exibido poucos anos antes, o hipnótico Odete (2005, exibido pela primeira vez com o apêndice "alucinada").

Embora centrado no personagem que lhe dá título, o filme abre com um beijo de despedida dos namorados Rui e Pedro, pouco antes de este morrer em um acidente de carro na noite lisboeta. Na cena seguinte, somos apresentados a Odete (interpretada por Ana Cristina de Oliveira, linda, mas um tanto magra), que trabalha como auxiliar em um supermercado. Nada em seu exterior preconiza, mas Odete é uma mulher doente, mentalmente instável. Ela quer ter um filho, casar e constituir família (seria o que hoje se poderia chamar de "mulher das antigas"?), mas seu namorado rejeita a idéia. Não suportando mais os insistentes apelos da moça, ele a abandona. Ela vaga solitária pela noite e, sem rumo, acaba indo parar no velório de Pedro. Assaltada pelo desequilíbrio, surrupia a aliança que o morto tem no dedo (em uma cena de improvável ousadia erótica) e passa a viver sob a fantasia de ser viúva dele, mesmo sem nunca o ter visto antes. Tentando preencher seu vazio, Odete inventa que está grávida de Pedro, chegando a visitar a mãe do rapaz, com quem cria certa empatia, mas a farsa é ameaçada quando Rui tenta afastar Odete de seu caminho, acusando-a de corromper a memória do amante. É do choque surgido do encontro entre esses dois seres despedaçados pelo abandono que se alimenta o roteiro, que vai se desenvolvendo de forma lenta e dolorosa.

Odete é movida por obsessões.
Percebe-se que tanto Odete quanto Rui são pessoas fracas, que não sabem lidar com a rejeição. A primeira se refugia em uma obsessão para não sucumbir à loucura completa; o segundo busca a autodestruição, primeiro praticando sexo de risco com parceiros eventuais que encontra na noite (há uma cena de felação em uma sauna que pode desagradar muitos espectadores), depois tentando se matar. No entanto, é dessa fraqueza que ambos retiram, paradoxalmente, a força mais autêntica para tentarem reordenar suas vidas. Odete em maior grau, a ponto de tomar uma decisão extrema, que não posso revelar por constituir o grande impacto da história, mas que ecoará na mente do cinéfilo mais tarimbado, evocando Hitchcock e, mais recentemente, Almodóvar. A reconstrução da identidade é o meio encontrado por ambos para garantir a seqüência da vida, ainda que tingida pelas tintas do absurdo: Odete se transfigura; Rui se reencontra; e Pedro se pereniza.

Recentemente, a distribuidora Silver Screen, um dos selos da Continental, lançou alguns clássicos portugueses dos anos 40 e 50, como Aldeia da roupa branca e A costa do Castelo, entre outros. Seria uma boa se continuasse no processo de nos apresentar o cinema lusitano, agora com títulos recentes, como este e outros trabalhos de Rodrigues e demais diretores daquele país que continuam ignorados por aqui. Mas há alternativas: vale procurar Aquele querido mês de agosto, road movie embalado por sucessos do cancioneiro brega, ou conferir, nos cinemas, Tabu, um dos mais aplaudidos do último Festival do Rio. 

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Eu era assim... fiquei assim

Uma das futilidades mais comentadas nas últimas semanas foi a decisão da atriz Marina Ruy Barbosa de não raspar suas madeixas ruivas, como exigia sua personagem na novela das 21h da TV Globo. Na trama, ela interpreta uma jovem que tem câncer e iniciaria o processo de quimioterapia, o que explicava tal sacrifício. Fontes ligadas à atriz dizem que ela teve crises histéricas de choro e insônia nos dias que antecederiam o corte. O episódio motivou debates no meio artístico sobre até que ponto um intérprete pode ou deve ir em nome da arte, deve ou não deve aceitar passar por mudanças corporais extremas para compor um personagem ou para se adequar a um papel, se assim lhe for determinado.

Ficou famosa a imagem de outra atriz, Carolina Dieckman, pelando sua vasta cabeleira na novela Laços de família, alguns anos atrás; foi um sacrifício feito em nome de seu trabalho e também de uma causa - na ocasião, o autor da trama, Manoel Carlos, quis sensibilizar a opinião pública para a importância de doação de medula óssea nos casos de tratamento contra a leucemia. Mas é claro que, para uma mulher, raspar a cabeça pode ser muito traumático, dadas as variáveis envolvidas no ato (a parte estética, a vaidade, o sex appeal etc.). E, como qualquer outra profissão, a de ator/atriz não está imune a riscos. Mas cabelo cresce novamente depois de rapado. No caso atual, pesaram certamente a pouca idade da atriz, sua inexperiência e até o fato de sua personagem ser secundária, o que não justificaria tal excesso. Mas não vou me alongar no mérito da questão.

Fiquei pensando em outros exemplos de astros e estrelas do cinema que aceitaram se submeter a mudanças radicais em seu visual pela necessidade de construção de um personagem. Em alguns casos, as transformações foram fruto de pesada e trabalhosa maquiagem, o que não diminui o sacrifício, se pensarmos nas horas em que ela demorava a ficar pronta e perfeita. Tudo pode ter sido sofrido, mas, de alguma forma, os que se dispuseram aos sacrifícios entraram para a história.

O TOURO INDOMÁVEL - O caso mais lembrado. Robert De Niro precisou engordar, emagrecer e novamente engordar 30 quilos para personificar a balança existencial vivida pelo boxeador Jake LaMotta, nesta que é apontada por muitos como a obra-prima de Martin Scorsese. A montanha russa da balança rendeu um Oscar para o ator e ajudou a mitificar o filme, eleito um dos dez melhores de todos os tempos em várias listas especializadas.

NÁUFRAGO - Parecido com O touro indomável. As filmagens tiveram de ser interrompidas durante um ano e meio para que Tom Hanks, no papel-título, emagrecesse também cerca de 30 quilos e conferisse veracidade ao personagem. Mas o esforço não sensibilizou a Academia, que em 2001 preferiu premiar Russel Crowe como Melhor Ator por Gladiador.

O DIÁRIO DE BRIDGET JONES - Engordar pode ser tão assustador para uma mulher quanto raspar suas melenas. Que o diga Renée Zellweger, até então uma coadjuvante sem muito brilho e que, graças aos muitos quilinhos a mais do papel, acabou alçada à condição de estrela. O sacrifício lhe rendeu uma indicação ao Oscar e a visibilidade necessária para se tornar uma estrela.

O OPERÁRIO - Christian Bale ganhou o Oscar em 2011, mas já merecia o prêmio desde 2004, quando interpretou um operário industrial assombrado por pesadelos que lhe tiravam o sono e a saúde, tanto mental quanto física. Seu emagrecimento na tela é assustadoramente real.   
QUERO SER JOHN MALKOVICH - Repare na esposa feiosa de John Cusack neste louco filme dirigido por Spike Jonze e diga se é possível enxergar Cameron Diaz ali. Um cuidadoso trabalho de maquiagem escondeu tão bem a atriz que muitos consideraram injustiça que o trabalho não tenha sido indicado ao Oscar da categoria.

O HOMEM ELEFANTE - Um dos filmes mais "normais" de David Lynch. A história real de John Merrick, que sofreu todos os preconceitos na Inglaterra Vitoriana por conta de sua deformidade facial. Como protagonista, John Hurt emociona debaixo da maquiagem, que levava quatro horas para ficar pronta, mas não foi premiada porque, na época, não existia o Oscar da categoria. Graças a este filme, ele passou a ser concedido a partir do ano seguinte. Mas a injustiça já estava feita.

DICK TRACY - Outro notável trabalho de caracterização. A aguardada (e, para muitos, frustrante) adaptação do famoso detetive dos quadrinhos criado por Chester Gould nos anos 30 conta com a participação de muita gente famosa irreconhecível graças à maquiagem, que, é claro, saiu vencedora do Oscar. Tente encontrar Dustin Hoffman e Al Pacino entre os vilões.

OLGA - O cinema brasileiro tem um bom exemplo de transformação radical requerida para a composição de personagem. No caso, a cabeça raspada da revolucionária Olga Benário rendeu elogios à coragem de Camila Morgado - mas o papel exigia, ora! O filme divide opiniões, mas todos reconhecem o bom trabalho da atriz. Em entrevista recente, Camila afirmou que não faria tal sacrifício novamente. 

AS BRANQUELAS - Outro prodígio da maquiagem, que conseguiu transformar os irmãos negros Marlon e Shawn Wayans nas duas patricinhas que o título indica. Mas o ótimo trabalho foi esquecido pela Academia, que sequer o indicou entre os finalistas da categoria.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Confissões de um seriemaníaco - VII

MUNDO AMISH - ROMPENDO AS REGRAS

Onde e quando: Discovery Travel & Living, quarta, 21h; quinta, 2h e 11h; domingo, 14h; quarta, 16h.
Elenco: Não profissionais (Abe, Jeremiah, Kate, Sabrina e Rebecca).
Sinopse: Quatro jovens amish e uma garota menonita saem de suas respectivas comunidades e vão para Nova York, conhecer e experimentar um mundo que lhes é estranho.


Comentários: Não costumo acompanhar reality shows, mas este me interessou por trazer um elemento de choque cultural que pareceu, no mínimo, diferente. Certamente vocês já devem ter ouvido falar dos amish, uma comunidade religiosa extremamente conservadora, originária da Alemanha, que emigrou para os Estados Unidos no século XVIII e se estabeleceu em algumas cidades do interior (aqui são Lancaster e Punxsutawney, ambas na Pensilvânia). Tornaram-se mais conhecidos graças ao filme A testemunha (1985), de Peter Weir, quase inteiramente rodado entre eles. Os amish mantêm um rígido código moral de usos e costumes, por exemplo: não dirigem carros, não usam eletricidade, não ouvem rádio, ou seja, vivem como quando se estabeleceram em solo norte-americano, sem conhecerem ou utilizarem as facilidades tecnológicas, como celular e internet, e outras não tão novas, como televisão ou geladeira! Logo no primeiro episódio, uma das garotas justifica o conservadorismo do grupo, explicando: "Essa é a maneira que nós temos de nos mantermos a salvo da maldade e da degradação do mundo." Já os menonitas, dissidentes dos amish na essência da comunidade, formam um grupo mais aberto, dirigem e consomem bebidas alcoólicas, mas também guardam características restritivas. O programa começa quando um grupo formado por dois casais amish e mais uma garota menonita rumam para Nova York, mesmo sabendo que ficarão discriminados em suas cidades. O choque já começa na chegada, quando pegam um táxi pela primeira vez, e continua quando saem para dar uma volta pela cidade, conhecem as lojas, compram óculos escuros em um camelô (a religião condena o uso, é um incentivo à vaidade), fazem compras em um mercado (o que, entre os amish, é atribuição exclusiva feminina). Claro que acabam sendo ridicularizados e chamados de pioneiros, e há momentos constrangedores, quando são fotografados pelos habitantes da metrópole, como se fossem atração de circo, o que mostra como o ser humano pode sempre ser deprimente. O interesse maior é ver como, independente da crença que professam e dos costumes que seguem, os jovens têm os mesmos sonhos, os mesmos anseios consumistas. Uma das meninas quer ser modelo; outra quer experimentar uma calça jeans; um dos rapazes faz planos de sair pela noite e paquerar garotas locais. Como em todo reality show, há aqueles momentos em que eles se confessam para a câmera, e é evidente que surgirão conflitos ao longo da série. Mas não há paredões, nem eliminação, nem a proposta é de que haja vencedores ou vencidos, e sim, justamente, que todos os participantes ganhem um enriquecimento cultural e pessoal ao fim da jornada. No fundo, é um divertimento familiar sadio e inofensivo.



Por que ver: Pelo aspecto documental da série, cujo foco é mostrar o choque cultural e passar informações sobre a comunidade amish, naturalmente muito fechada. Ou seja, raro caso de reality show que tem o que dizer e passar ao público.
Por que não ver: Só passa dublado (!) e os horários das reprises são ruins. Por ser um reality, só funciona se o espectador simpatizar com algum dos participantes, o que pode não ser muito fácil. E fãs desse tipo de programa vão estranhar a falta de conflitos mais intensos e podem rejeitá-lo inteiramente.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Irmãos coragem

Três irmãos de sangue (2005)
Em 1992, a chamada Geração Cara-Pintada tomou as ruas do país em uma série de manifestações populares, semelhantes às que se observam hoje. Conclamava-se pelo fim da corrupção que campeava no Governo Federal e visava especialmente o então presidente Fernando Collor de Mello. A profusão de protestos deu resultado e, em setembro daquele ano, Collor foi destituído da presidência por impeachment, caso inédito na história da República. Passados 21 anos, o clamor popular está de volta, agora pleiteando a melhoria dos serviços públicos e transparência nas esferas políticas.

Embora a essência da gritaria seja a mesma, é inegável que há diferenças, algumas brutais, em relação aos dois momentos. Naquela época não havia internet nem celular, ou seja, organizar manifestações e reunir um grande contingente de pessoas era bem mais complicado. Os estudantes se juntavam na base do boca a boca, "no braço", sem as facilidades tecnológicas desse começo de século XXI. Também não lembro se havia arruaceiros infiltrados ou bandeiras políticas tentando tirar uma casquinha da simpatia da causa. O maior diferencial, contudo, parece-me ser de liderança. Na época, ressaltou um jovem de 20 e poucos anos, Lindbergh Farias, presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), como a voz que se levantava pela justiça e a igualdade. Identificava-se com os protestantes, era carismático e representava o anseio por mudanças (depois, como todos sabem, se meteu na política, virou deputado, até ser acusado de praticar os mesmos golpes contra os quais lutava, ou seja, virou uma "laranja mecânica", mas não é assim com todo mundo?). Também muito se falou que os jovens foram fortemente influenciados pela minissérie Anos rebeldes, apresentada pela TV Globo, que mostrava a luta dos universitários contra a ditadura militar nos conturbados anos 60, entre uma paixonite e outra. 

Hoje, na vida pública nacional, não há nenhuma figura que transmita a imagem de retidão moral, de perseverança e honestidade necessárias para inflamar o povo a se espelhar nela. Ou, se há, ela se mantém na sombra, talvez temendo se comprometer com alguma causa, ainda que elogiável. Falta um exemplo. Nesse vácuo, resta resgatar figuras de vulto no cenário cultural brasileiro, que, mesmo não saindo empunhando faixas ou cartazes, deixaram um legado de combate que merece ser seguido. Como o dos três irmãos de sangue enfocados pelo documentário homônimo. O filme não é novo, foi lançado no Festival do Rio de 2006 e, embora muito bem-recebido pelo público, teve bilheteria abaixo do que deveria no circuito alternativo, fruto, certamente, do preconceito da platéia brasileira em assistir documentários. Mas merece ser conhecido, divulgado e recomendado.

Chico Mário, Henfil e Betinho: brasileiros exemplares.

O filme nem estava na minha programação inicial. Só entrou, de contrapeso, porque seria precedido do curta-metragem Encontro marcado com Fernando Sabino, que era meu grande interesse. Até pensei em voltar para casa depois, mas acabei ficando, o que configura um daqueles casos em que vemos algo sem muito interesse e terminamos agradavelmente surpreendidos. Três irmãos de sangue pode ser definido, sem erro, como um dos melhores documentários feitos no país nos últimos tempos. O título se refere ao sociólogo Betinho, ao cartunista Henfil e ao compositor Chico Mário, todos hemofílicos e que morreram de aids, vitimados por transfusões de sangue contaminado. Mas este fato que poderia servir de mote ao roteiro só é mencionado uma vez, em uma cena específica, e não é explorado, dispensando o sensacionalismo desnecessário. Mesmo porque o foco do filme é a vida e a obra dos três personagens, que foram, cada um em sua área de atuação, exemplos de brasileiros que nunca se omitiram diante das injustiças e, também dentro de suas especialidades, se empenharam por uma sociedade mais humana e igualitária. Além de serem igualmente geniais em suas respectivas habilidades.

Graúna: criação inesquecível.
O documentário é dividido em três partes: "Origem" (curiosidades da infância dos três, contadas pelas irmãs em depoimentos engraçados e onde há um momento de humor negro involuntário, quando visitam a casa funerária da família, ainda hoje em funcionamento), "Brasil" (a carreira deles em paralelo com a situação política nacional, inserindo suas realizações em um contexto histórico) e "Aids" (sobre os últimos dias de vida de cada um). Há inúmeros depoimentos e entrevistas de parentes, viúvas, filhos e netos, outros artistas (Aldir Blanc, Ziraldo, João Bosco), pessoas que conviveram com os irmãos, incluindo enfermeiros e fisioterapeutas, e muito material de arquivo – programas de televisão, entrevistas antigas, fotografias de família, registros em áudio de uma carta gravada por Betinho para a mãe quando estava no exílio etc. Se não traz nenhuma revelação bombástica nem joga luzes sobre qualquer fato desconhecido, o filme é direto ao ponto, não perde tempo com fofocas de bastidor (não se diz que Henfil era podólatra, por exemplo, que não serve aos propósitos do roteiro), bem conduzido, apesar da montagem meio caótica (mas que não chega a comprometer), sem nunca resvalar na pieguice que muitas vezes caracteriza esse tipo de trabalho.

Capa histórica feita por Siron Franco.
Claro que quem viveu o momento que o filme apresenta irá se identificar mais e poderá até chegar às lágrimas, sobretudo na cena mais emocionante, que mostra a volta de Betinho ao país em 1979, perdoado pela anistia, ainda no período da ditadura. Mas há muitas outras, que mereceram aplausos durante a projeção, como a entrevista que ele concede às emissoras de tevê durante o enterro de Henfil, criticando a falta de fiscalização nos bancos de sangue, num desabafo contra o descaso do poder público para com a população em geral. A cena final, embalada ao som de “Ressurreição”, música de Chico Mário, é belíssima e fecha com chave de ouro este bonito painel sobre algumas páginas de nossa história.

Enfim, o filme me pegou desprevenido e acabou se tornando uma ótima surpresa, confesso que não esperava muita coisa, cheguei mesmo a achar sua metragem de 103 minutos um pouco longa, mas vendo o filme achei até que foi curto, a vida dos três merecia um registro ainda mais abrangente. É desses documentários que dão vontade de assistir muitas outras vezes. Em um momento particularmente conturbado da vida brasileira, com tantas notícias diárias de escândalos políticos, falcatruas, roubalheiras de todo tipo, com tanto descaso e tantas mazelas institucionalizadas, e quando o povo parece começar a acordar para cobrar seus direitos, o filme chega a ser um bálsamo, um alento, para que ainda possamos acreditar em mudanças e para que nos lembremos de que enquanto existirem brasileiros como os três irmãos, ainda é possível manter acesa a chama de nossa indignação e da mudança. Obrigatório.