quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Séries Fritas - Adotada

Onde e quando: MTV, terça-feira, 21h30; quinta-feira, 22h; sábado, 16h e 21h30; domingo, 00h; e segunda-feira, 19h30.
Elenco: Maria Eugênia.
Sinopse: Maria Eugênia vive uma semana como filha adotiva em casas diferentes.


Comentários: No ano passado, a MTV produziu Papito in love, que era exibido à exaustão pela emissora e no qual o roqueiro Supla escolhia uma namorada entre diversas candidatas. A vencedora foi uma tal Maria Eugênia, ou Mareu, que aqui se apresenta como DJ e produtora de moda. Verdadeiro ou peça de marketing, o fato é que o namoro acabou logo, mas a moça tentou se dar uma sobrevida no meio artístico e criou esse programa para brilhar sozinha e explorar sua imagem até o bagaço. Os executivos do canal também devem ter visto potencial nela, porque encamparam a idéia. Portanto, este Adotada é um um spin-off de reality show, coisa que eu nunca tinha visto. O esquema funciona assim: a cada semana, Mareu vai morar como filha adotiva de alguma família, geralmente de classe média ou média alta, quase sempre em São Paulo ou cidades próximas do Grande ABC (mas também há episódios gravados no Rio de Janeiro, Espírito Santo e até na Bahia). Diz que nunca tem idéia do que vai acontecer, mas é claro que deve haver um roteiro pré-preparado para ser seguido por quem topa recebê-la. Durante sete dias, ela interage com os habitantes da casa, os membros da família, participa de seu cotidiano, até dá expediente no trabalho do pai, da mãe ou de algum dos filhos. Também os faz experimentar um pouco do seu mundo, levando-os para baladas, festas e agitos, dando dicas de moda etc. Embora seja simpática, brincalhona e não tenha problemas para se entrosar localmente  ao menos é a imagem que passa  , é claro que surgem desavenças, muitas causadas pela língua ferina da moça, que fala o que pensa e não se incomoda em chocar ou desafiar normas familiares estabelecidas. Em um dos episódios, por exemplo, ela bateu de frente com um pai cujo filho é homossexual e não respeita nem aceita a opção do rebento. Então, fingiu ser transexual (!) para que o chefe da família reavaliasse seus preconceitos. Na base da conversa, que eventualmente descamba para a discussão, mas felizmente sem baixaria nem violência, tenta mostrar a visão muitas vezes bastante conservadora (para não dizer preconceituosa mesmo) que cerca as pessoas e as contradições sociais que ainda persistem no seio da família tradicional brasileira. Como todo mundo sabe que tudo é gravado, não sei até que ponto vai a naturalidade das situações ou começa a encenação. Mas este é um problema inerente de todo reality show. A contrapartida vem no final. Mareu escreve um dossiê com as impressões que teve daquela família, expõe o que viu de bom e ruim e deixa dicas para melhorar a convivência entre todos.



Por que ver? Não deixa de ser uma opção diferente para quem gosta desse tipo de atração. E Maria Eugênia é boa de se pôr os olhos (descontada a magreza excessiva).
Por que não ver? É mero entretenimento, sem qualquer conteúdo. E é sempre constrangedor ver pessoas comuns se expondo na televisão, tudo em troca de alguns trocados.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Festival do Rio 2014 - Segunda semana

Vi 51 filmes no Festival deste ano, três a menos que ano passado. Mas a culpa foi da escalação dos horários, muito ruins para encaixar alguma coisa entre uma sessão e outra, e também da supressão das sessões ao meio-dia. Pela primeira vez desde 2002, saio do festival sem conferir a cotação máxima a um filme, o que pode significar duas coisas: ou o nível do cinema produzido hoje é mesmo pouco animador, ou estou me tornando extremamente exigente. 

A seguir, o que vi na segunda semana do Festival, entre os dias 2 e 8 de outubro.

ENCANTADOS ­- Mais uma imersão de Tizuka Yamasaki na Região Norte, agora contando uma aventura balizada pelos místicos caruanas de Belém. Produção cuidadosa, fotografia belíssima e elenco estelar (obviamente tem Dira Paes). Agradável de ver, mas o roteiro apressa algumas soluções. Carolina de Oliveira cada vez mais interessante, tanto no talento quanto na beleza. * * *

VIDA FÁCIL - Da mostra Clássicos Restaurados de Hitchcock, este foi o único que consegui encaixar na programação. É tão fraco quanto a maioria de seus títulos da fase inglesa, mas a sessão valeu pela experiência: um filme mudo acompanhado de música ao vivo. E, no fim das contas, foi o primeiro Hitch que vi na tela grande! * *

ONÍRICA - O diretor de O moinho e a cruz volta com um mais um filme de imagens impressionantes, de rara beleza, algumas beirando o surreal e muitas antológicas, como a cobra no supermercado e o baile de gala no meio da floresta. Porém, é um filme difícil, muito hermético e por vezes pretensioso, em especial nas citações literárias. * * *

10.000 KM - O título se refere à distância entre Barcelona e Los Angeles, cidades que abrigam o casal de namorados que formam as únicas pessoas em cena. Ele fica na Espanha, ela se muda para a América, a fim de desenvolver projetos profissionais. Não é fácil manter um relacionamento onde cada um mora em um canto, e falo por experiência própria. O filme retrata muito bem a situação, com todas as conseqüências que ela traz a reboque. Eu me identifiquei com o personagem, senti sua dor, entendi sua revolta. O roteiro também evita o final redentor. Enfim, a vida como ela é. * * *

O ARDOR (El ardor) - Tem um problema sério que é a alternância constante de gêneros ao longo da narrativa, só que sem coerência: começa como drama, vira aventura na selva, ambiente no qual se passa quase inteiramente, filme de suspense e termina como faroeste, com direito a duelo final e tudo. O personagem de GG Bernal é mal definido, parece ter poderes místicos mas isso não se explica. Alice Braga, coitada, só serve para cumprir cota de atriz porque não tem o que fazer. Um tanto violento em alguns momentos, também tem uma trilha sonora óbvia e irritante. * *

GONZÁLEZ - Pensei que este seria o contraponto perfeito à A Via-Crúcis (visto na primeira semana), ou seja, um filme movido pelo discurso ateu, pelo que se depreende da sinopse. Mas o roteiro sequer menciona a condição do protagonista, um pobre-diabo desempregado que vive na capital mexicana, sem perspectiva, e que aceita trabalhar com teleatendimento em uma igreja evangélica. Do meio para o final, ele enlouquece e o que era uma crítica às igrejas evangélicas vira história policial, tudo sem muita sustentação. Carlos Bardem (irmão mais velho de Javier) faz um pastor que finge ser brasileiro e fala em portunhol! * *

CARVÃO NEGRO - O grande vencedor do Festival de Berlim é uma reinvenção do gênero noir, sem nada de muito especial. Com uma premissa de filme de horror barato – pedaços de corpos são encontrados em uma carvoaria – , o filme tem ritmo um tanto arrastado, alternando cenas frias com outras explosivas, de forte tensão (o tiroteio no salão, logo no começo). O romance nunca se impõe, a trama investigativa parece dar voltas e a duração podia ter uns bons dez minutos a menos. O final também é anticlimático. A premiação em um dos festivais mais importantes do mundo mostra que o nível dos filmes de hoje não é mesmo dos melhores. * *

MASSAGEM CEGA - Dramas e alegrias de um grupo de cegos que trabalham como massagistas em uma clínica, em Nankin. Total falta de assunto encerada por quase duas horas sem que nada de interessante aconteça, embalada por diálogos por vezes de uma indigência constrangedora ("Você é mais linda que um cozido de porco"!). Salva-se o aspecto humano dos personagens. * *

AS HORAS MORTAS - Um delicado e sensível rito de passagem. Favorecido por uma coincidência climática, que provocou chuva durante quase todo o período da produção, ganhou uma interessante metáfora atmosférica: é triste e cinzento durante grande parte do tempo, mas ensolarado e esperançoso no final. * * *

ANNABELLE - A boneca de Invocação do mal ganhou vida própria, literalmente. Este filme é uma preqüência daquele e mostra a origem do brinquedo demoníaco. O outro é melhor, tem muito mais clima, mas este não é de todo ruim, embora prejudicado por sustos um tanto óbvios, trilha sonora redundante e um elenco pouco empenhado. Um pouco frustrante, mas diverte, desde que não se exija muito. Parece piada, mas a atriz principal é... Annabelle Wallis (da série The Tudors)! * *

O PORTAL DO PARAÍSO - Este é o famoso filme de Michael Cimino que levou à falência do estúdio United Artists, até hoje considerado o maior prejuízo da história do cinema, tendo custado US$ 40 milhões e rendido apenas US$ 1 milhão! Nunca o tinha visto e, talvez por descobri-lo só agora, na tela grande, não o achei tão ruim quanto sempre ouvi falar. Mas é fácil entender os motivos do fracasso. O primeiro, evidente, sua longuíssima duração de 220 minutos (quase quatro horas!), o que é um suicídio comercial e espanta as pessoas. Produzido no começo dos anos 80, ou seja, em plena Guerra Fria, ficou muito estranho para o público norte-americano aceitar a idéia de ter uma colônia de imigrantes russos estabelecida em seu território, servindo como elemento formador da identidade ianque, ainda que a presença deles ali possa ser lida como metáfora política: os "inimigos" estão entre nós e é preciso eliminá-los. Também demora a começar de fato, com um prólogo de 20 minutos em que há muita música e dança para introduzir os personagens. O maior equívoco, contudo, é a falta de foco do roteiro. Não há um conflito que se imponha de verdade, que mova a narrativa adiante ou que dê força às situações. A ação efetiva só ocorre a partir dos 40 minutos finais, e até é bem-conduzida, mas até chegar lá muita gente já desistiu e debandou (mas na sessão a que estive presente o público se manteve fiel o tempo todo). Até que ela chegue, há uma sucessão de cenas que não conferem unidade ao todo e soam dispersas, isoladas dentro de um conjunto lento e que não seduzem o espectador. Apesar dos defeitos explícitos, o filme foi indicado ao Oscar de Direção de Arte e tem na fotografia do grande Vilmos Zsigmond e na trilha sonora belíssima seus pontos altos. Mas há algo de muito errado com um faroeste cujos melhores momentos estão nas cenas musicais. * *

OBVIOUS CHILD ­- O texto parece ter sido escrito por um adolescente espinhento, que deve achar muito engraçado usar palavras chulas em situações cotidianas. Mas, a julgar pelas gargalhadas ouvidas durante a sessão, a platéia deve ter gostado bastante. * *

A FACE DE UM ANJO (The face of an angel) - Não funciona este jogo metalingüístico de Winterbottom, outro bom diretor que perdeu o viço. O roteiro, baseado em escandaloso caso jurídico real, parte de uma hipótese investigativa e não caminha para lugar nenhum. *

MEIA HORA E AS MANCHETES QUE VIRAM MANCHETE - O formato quadrado e antigo – só entrevistas sob um fundo branco – não chega a atrapalhar este divertido documentário sobre o jornal carioca, famoso por suas manchetes irônicas e engraçadinhas. Fundamental para estudantes de Comunicação, é uma boa aula sobre jornalismo popular. * * *

OLHOS DE LADRÃO - Embora seja baseado em fatos reais, o representante palestino a uma vaga ao Oscar de Filme Estrangeiro não tem uma trama atraente e mal trata da questão da identidade local (a guerra só aparece bem no começo). A menina é por demais antipática e a história se mantém fria do começo ao fim. * *

VOCÊ NÃO ME PEGA, PAPAI ­- Já começa de maneira estranha, com uma voz em off narrando uma espécie de poema ritualístico. Depois, a esquisitice se impõe, com personagens desajustados, uma trama familiar pessimamente explicada e uma opção narrativa inadequada, só com trilha sonora incidental. Vai piorando, ficando cada vez mais violento e desagradável, até um final inconcluso. Nem a tradução faz sentido, já que quer dizer exatamente o oposto do título original (Catch me daddy). Mais um descartável filminho independente inglês. * *

LAST HIJACK ­- Um assunto sério e atual (a pirataria na Somália) desenvolvido de forma um tanto preguiçosa. Os diretores centram a história em um nativo que planeja seu último ataque antes de mudar de vida. Não há dados nem informações relevantes a respeito da atividade; limita-se a revelar que a pirataria é a oportunidade que os meninos pobres de lá têm para ganharem dinheiro. Os ataques aos navios são reproduzidos em boas as seqüências de animação. * *

RECOMENDADO PELO ENRIQUE - Difícil saber qual era a idéia do casal de diretores ao realizar isso aqui. Um filme absolutamente inútil, que não apresenta qualquer conflito, não explica os personagens, nem sequer cria um clima, seja de comédia, de suspense ou qualquer outra coisa. Perda de tempo, de paciência e da grana de quem pagou.

POR CIMA DO SEU CADÁVER - O cultuado Takashi Miike leva seus exageros sanguinolentos para o universo do teatro. Um casal de atores interpreta os papéis principais em uma peça cujo texto guarda semelhanças com o atual momento que vivem. Tudo desemboca em uma terrível vingança. Bem no estilo do diretor; os fãs podem estranhar a princípio, mas vão gostar. * * *

VARA – UMA BÊNÇÃO - Mais um bom retrato da diferença de classes da sociedade indiana, temperado com religiosidade e danças folclóricas. Mas não é Bollywood. A história é também uma oportunidade de conferir um outro tipo de cinema feito naquele país. * * *

OS INIMIGOS DA DOR ­- As desventuras de um ator alemão perdido em Montevidéu. O choque cultural se limita às dificuldades idiomáticas entre os personagens. Os poucos diálogos reforçam o aspecto físico das situações, de onde o roteiro extrai graça. Tem potencial para uma continuação e até uma série de TV. Mas não é nada demais. * *

VULVA 3.0 - O documentário perde a chance de discutir aspectos históricos e sociais da exposição do órgão sexual feminino e se atém ao estético, debatendo questões relacionadas à sua anatomia ou apresentando casos de reconstrução. Frustrou muita gente, não que se esperasse erotismo, mas por se manter tímido na abordagem de um assunto polêmico. * *

REMAKE, REMIX, RIPOFF - Documentário sobre o cinema popular feito na Turquia, sobretudo entre os anos de 60 e 70, mas também são citadas produções mais recentes, dos anos 80. Diretores, atores e produtores famosos a nível local lembram daqueles tempos e contam detalhes curiosos e engraçados, como o uso de trilhas famosas de Hollywood em filmes turcos sem qualquer problema (e sem pagamento de direitos!) ou como os cineastas conseguiam ser criativos para rodar versões locais de sucessos norte-americanos. Bastante completo, examina também os motivos da derrocada dessa indústria. Divertido e fundamental para quem gosta de conhecer a cultura cinematográfica de outros países. * * * *

O PRESIDENTE - Makhmalbaf destila sua amargura contra o sistema que o exilou nessa farsa política sobre a queda de um ditador de uma república fictícia. Embora tenha ótimos momentos e uma cena final bela e simbólica, achei que o diretor foi muito direto em sua crítica, sem nenhuma sutileza. Há problemas: o menino trabalha bem, mas sua presença reforça uma certa pieguice que manipula as emoções da platéia; com quase duas horas de duração, carece de uma edição mais enxuta, que tornaria o ritmo mais ágil. E o roteiro não apresenta heróis com quem o espectador possa se identificar – o ditador é um tirano e o povo, justiceiro. * *

O DESAPARECIMENTO DE ELEANOR RIGBY – ELES (The disappearance of Eleanor Rigby: them) - Esta é a primeira parte de uma trilogia que contará a mesma história por três olhares diferentes, daí o "Eles" no título; os próximos serão "Ele" e "Ela". Jessica Chastain e James McAvoy caminham a passos largos para serem indicados ao Oscar por este drama romântico que foge ao convencional. Diálogos inteligentes e afiados, em especial nas cenas entre ela e Viola Davis. A vida real como ela é, sem soluções fáceis nem final redentor. * * *

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Festival do Rio 2014 - Primeira semana

Estou convencido de que o ano passado foi um ponto fora da rota na organização do Festival do Rio. Tudo o que serviria de parâmetro a partir de então foi esquecido, em parte, certamente, pela indefinição sobre o futuro do Grupo Estação: vai fechar?, não vai fechar? Como programar filmes para salas que não se sabia se estariam funcionando na época? E nós, que nada temos com isso, é que somos os grandes prejudicados. Nunca vi um evento cultural gerar mais estresse do que euforia no público. Isso não pode ser assim. O Festival é uma atração turística da cidade, precisa ser bem-tratado e organizado de forma profissional, senão quem vem de fora simplesmente não volta depois. É difícil entender isso?

Também os atrasos voltaram a acontecer, mesmo que pequenos, de cinco ou dez minutos, o que pode ser fatal para quem monta uma programação com horários próximos e cinemas nem tanto. No meio de tudo isso, há o cinema, claro. Eis o que vi na primeira semana, compreendida entre os dias 25 de setembro e 1º de outubro (alguns títulos foram traduzidos por conta própria; o título de exibição está entre parênteses):

MARÍA E O HOMEM ARANHA - Por trás da aparente aventurinha infantojuvenil, se revela um drama sério e trágico, mostrando uma realidade que raramente vemos no cinema argentino, a vida nas periferias (seria o "favela-movie" deles). O Homem Aranha é um menino que faz malabarismos no metrô de Buenos Aires. Tudo conduzido de forma sóbria, sem música, sem ação do poder paralelo e sem festa na laje. * * *

PESSOAS EM LUGARES ­- Tem a mesma estrutura narrativa de Vocês, os vivos e filmes similares, ou seja: várias esquetes, sem muita ligação entre si, compondo um mosaico da existência humana em situações diversas. Confesso que já estou me cansando desse tipo de filme. Este é ainda pior por nem ser engraçado como se pretendia. A melhor piada é a dos ladrões que arrumam a casa em vez de roubá-la! Um rosário de astros espanhóis em pequenas aparições (Carlos Areces, Antônio de La Torre, Maribel Verdu envelhecida mas ainda linda e muitos outros). *

O FUTURO - Logo no primeiro dia e já surge o candidato a pior filme do festival. Com tanto filme bom que ficou fora da seleção, o jeito foi arrumar qualquer coisa para oferecer ao público, que paga para ver uma joça como essa. A "história" se passa inteiramente durante uma festa, na época da Movida Madrilenha (começo dos anos 80), onde jovens dançam e se divertem, esperançosos do porvir. Os diálogos não dizem nada: tudo é comentado pelas letras das canções que tocam o tempo todo e reproduzem pensamentos de revolução e liberdade. Tem um simbolismo visual interessante (o buraco negro que cobre os personagens no final), mas é só. A idéia era ótima: opor a esperança da juventude espanhola naquele momento com a crise atual. Só que o diretor optou pela displicência e jogou fora o potencial do filme. Parece interminável, mesmo mal chegando a 70 minutos.

ASTERÓIDE - Uma mulher volta para a casa do irmão e tenta aparar arestas passadas. Um tema já visto à exaustão no cinema não ganha nada de original nesse drama mexicano frio e sem maiores destaques. Nem os aplausos protocolares foram ouvidos ao final da sessão, que foi apresentada pelo diretor. Este asteróide só fica orbitando e nunca chega a lugar algum. * *

MAPAS PARA AS ESTRELAS - Depois de Marcas da violência, David Cronemberg passou a ser finalmente visto como um cineasta sério e respeitado pela indústria. Um reconhecimento tardio e merecido. No entanto, de lá para cá, seus filmes vêm se tornando cada vez mais difíceis de ver. Se por um lado eles ganharam um capricho maior na produção e um refinamento na direção de arte, o que lhes garante qualidade superior, por outro, ficaram de uma lentidão narrativa tão excessiva que se tornaram entediantes. Seu último trabalho, Cosmópolis, chegava a ser penoso de assistir, mas pelo menos tinha a desculpa de se basear em livro igualmente chato, de Don de Lillo. Aqui, Cronemberg chega ao limite do enervante. É verdade que poucas vezes se viu na tela uma crítica tão ácida e devastadora à fábrica de sonhos que é Hollywood, embora o tema já tenha sido explorado outras vezes (O jogador, de Robert Altman; e, mais recentemente, Cidade dos sonhos, de David Lynch). Há também toneladas de referências e citações a outros filmes e brincadeiras cifradas que o cinéfilo mais atento e experimentado saberá identificar. O grande problema é que a história simplesmente não cativa o espectador, que se aborrece com o ritmo claudicante da narrativa e não consegue simpatizar com qualquer um dos personagens. A única centelha de energia do filme é Julianne Moore. Ensandecida, histérica, amarga, patética, despudorada, sempre na medida. É uma das grandes atuações femininas do ano (ganhou em Cannes) e pode finalmente lhe render o tão merecido Oscar. Aliás, o elenco principal tem bons nomes: John Cusack, Mia Wasikowska e dois queridinhos recentes do diretor, Sarah Gadon e Robert Pattinson, mais uma vez tentando se livrar do vampirinho que marcou sua carreira. O filme realmente não me agradou e me fez sentir saudade do Cronemberg dos velhos tempos. Se o preço do respeito é fazer trabalhos entediantes assim, melhor ser marginal. É bem mais divertido. * *

NOIVAS - Mulher se sente dividida entre manter o relacionamento com o companheiro, preso há seis anos, ou se entregar a um vizinho. Um retrato do sistema prisional georgiano, narrado de forma correta e enxuta, mas que termina de forma abrupta e inconclusa. * *

CORRENTE DO MAL ­- Terror à antiga, que investe no clima e na ambientação em detrimento dos recursos fáceis e descartáveis de hoje, como tripas à mostra ou torturas gratuitas. O roteiro, porém, erra ao não deixar claro que maldição é aquela que ronda os jovens do subúrbio. Espécie de homenagem involuntária ao gênero dos anos 80, mas com a moral inversa: aqui, o sexo não é a metáfora causadora das mortes, mas uma solução para evitá-las. Não há, contudo, cenas eróticas. * * *

SÓ DEUS SABE - Rotina de uma viciada sem-teto de Nova York. Baseado em livro escrito por Ariella Holmes, que interpreta o papel principal, cercada de um elenco inteiramente desconhecido, e que até se sai bem. E ela acaba sendo o maior entrave à credibilidade da história: é linda e "limpinha" demais para convencer como mendiga. A história também não desperta maior interesse. Salva-se a estética documental e propositalmente suja. * *

METAMORFOSES - Uma interessante recriação de lendas conhecidas da mitologia grega, transpostas para o dia de hoje e encenadas em ambientes bucólicos (matas, montanhas). É o filme menos gay de Honoré. Tem um visual bonito, explorando a beleza das locações, mas é um tanto arrastado. * *

PERDIDO EM KARASTAN - Menos engraçada do que promete a sinopse. Karastan é uma república fictícia que promove seu primeiro festival de cinema e homenageia um diretor medíocre e desconhecido. Razoável no contraste cultural, com situações que parecem incompletas e piadas fracas. Também se compromete com um crescendo de violência incompatível com a proposta. Teve um absurdo atraso de meia hora por causa de problemas técnicos! * *

A VIA-CRÚCIS (Stations of the cross) - O filme é dividido em 15 cenas curtas, cada uma com o nome de uma estação da Via-Crúcis. Nestes quadros, conta-se a história da jovem Maria, em luta para manter sua fé e seu ideal de perfeição religiosa nos dias de hoje. Um apavorante retrato da devoção cega, dos limites a que uma pessoa pode chegar em nome de sua fé. O diretor usa câmera estática (menos em dois momentos) e rigorosa direção de arte para criar um ambiente ao mesmo tempo opressivo e poético. Um belo filme, capaz de dialogar com públicos variados: desde os católicos mais fervorosos (que poderão chegar ao limite de suas emoções), até os ateus. O título original em alemão, Kreuzweg, significa calvário. * * * *

ELA PERDEU O CONTROLE ­- A premissa lembra As sessões, mas, ao contrário daquele, a terapeuta daqui não está interessada em questões sexuais, atendo-se aos aspectos emocionais de seus pacientes. A história se mantém em fogo brando, caminhando pelo terreno mais seguro da narrativa convencional. Em seu primeiro longa-metragem, a diretora e roteirista Anja Marquardt optou por uma timidez que não combina com a ousadia sugerida pela idéia. * *

DESLIGANDO CHARLEEN - É uma boa surpresa este filme alemão, que consegue a proeza de tratar de um assunto sério e difícil (o suicídio adolescente) com leveza e bom humor, sem pieguice nem sentimentalismo. Uma adorável galeria de personagens disfuncionais animada por diálogos sarcásticos e certeiros. Muito boa também a trilha sonora de rock local. * * * *

TIMBUKTU - Com um roteiro muito disperso, que pulveriza inúmeras situações sem resolver nenhuma delas a contento, este novo trabalho do respeitado Abderrahmane Sissako, um dos nomes mais importantes do cinema africano, parece uma colcha de retalhos que termina sem a costura final. A cena do futebol invisível é linda e repleta de simbolismo. * *

INCOMPREENDIDA - Asia Argento mostra descontrole em sua terceira experiência como diretora, além de ser menos exuberante visualmente. A história, sobre uma menina que se sente deslocada no seio familiar após o divórcio dos pais, soa gratuita e irritante. Não dá para simpatizar com ela nem com qualquer outro personagem. * *

ENTERRANDO A EX (Burying the ex) - Decepcionante retorno de Joe Dante ao gênero que lhe rendeu fama, a comédia de horror. Tem algumas boas piadinhas referenciais, mas os diálogos são duros e muito pouco engraçados. O diretor e o elenco devem ter se divertido, mas faltou compartilhar isso com o público. Destaque para a competente direção de arte. * *

O MUNDO DE KANAKO - Quase insuportável de ver, com montagem esquizofrênica e ritmo videoclipado, esta trama policial até tem uma história interessante, mas desenvolvida de forma inadequada. O diretor quer se mostrar moderno, mas só consegue irritar o espectador. Desperdício de uma boa idéia. * *

CORAÇÕES FAMINTOS - O prólogo no banheiro assusta, mas depois a história entra nos eixos. Adam Driver (da série cômica Girls) tem chance de mostrar seu talento dramático e forma um contraponto perfeito com Alba Rohrwacher como os pais de primeira viagem que divergem quanto à criação do filho. Ambos foram premiados em Veneza e estão muito bem, ela melhor, como a mãe enlouquecida. A narrativa vai se alternando de gênero, passando do drama ao suspense, sem desviar a atenção. * * *

WHIPLASH - EM BUSCA DA PERFEIÇÃO - Alguns intérpretes passam a carreira toda escondidos em papéis de coadjuvantes ou em séries de TV, sem muita visibilidade e sem explorar todo o potencial que, em algum momento, ou quando lhe é dada a devida oportunidade, vem a público. É o caso de J. K. Simmons, um veterano com mais de 140 créditos e que certamente você já deve ter visto em algum lugar. Ele é a alma deste filme e tem uma atuação assustadora como o rígido professor de uma banda formada por adolescentes, que não perdoa o mínimo deslize e os trata com disciplina militar, tudo para alcançar a perfeição exposta no título e ser sempre o melhor. Seguramente uma das grandes interpretações do ano, e que deve lhe render uma merecida indicação ao Oscar. Simmons duela em talento com Miles Teller, o aluno preferido e que sofre com os métodos de treinamento (este é menos conhecido, fez muita bobagem até agora, como Projeto X, Finalmente 18, mas deve mudar de nível). Aliás, o filme certamente estará entre os finalistas, é um espetáculo, vibrante e arrebatador, bastante aplaudido ao final da sessão. O diretor Demian Gazelle (que, vejam só, foi um dos roteiristas de O último exorcismo 2) amplia seu curta homônimo de 2013, também estrelado por Simmons, e mostra vigor na condução da história. * * * *

TOP GIRL - No começo, parece um episódio de O negócio temperado com pimenta forte (tem até reunião de funcionárias). Mas tem um foco próprio, mostrando a rotina e os problemas de uma dominatrix profissional. Gosto de histórias que sirvam para desmistificar o universo S&M, mostrando seus adeptos e praticantes como o que são: pessoas comuns, com família, que apenas optam por um estilo de vida diferenciado. O recorte é benfeito, o roteiro é sério e sem sensacionalismo, mas a narrativa perde força no fim. * * *

A MÁQUINA DE MATAR PESSOAS MÁS - Uma rara comédia dirigida por Rossellini, também por ser praticamente desconhecida do grande público. A cópia apresentada foi a versão restaurada e tinha boa imagem. Feliz combinação de farsa, fantasia, crítica social e religiosa. Boas risadas em trama rápida e movimentada. * * *

GAROTA EXEMPLAR - Competente adaptação do romance homônimo de Gillian Flynn, que também escreveu o roteiro, o que explica a fidelidade integral de diálogos e situações, bem como a direção apenas correta de David Fincher, sem invenções ou maior destaque. Quem leu o livro vai gostar, mas a vantagem aqui é para quem não conhece a história e vai se surpreender com as reviravoltas da trama. Deve ser lembrado em algumas categorias do Oscar. * * * 

SONHOS IMPERIAIS - A velha história do ex-presidiário que tenta se reinserir na sociedade e tem de lutar contra seu passado criminoso que bate à porta. Rotineiro do começo ao fim. A única novidade é que aqui o cidadão quer ser escritor. Alternativa digna, mas quem é que ganha alguma coisa sendo escritor? * *

DEUS LOCAL - Com muito clima e pouca coerência, esse novo filme do mesmo diretor de A casa é uma decepção. Tão escuro quanto seu trabalho anterior, oferece pouquíssimos sustos, mas a ambientação lúgubre até que é boa. * *

ÍDOLO - Apesar do formato convencional, o documentário presta uma linda homenagem e faz justiça ao grande Nílton Santos, o gênio da lateral-esquerda. O público ri com as histórias de bastidores e se emociona em várias cenas, como a que mostra o último encontro entre ele e sua esposa Célia, ambos já debilitados por sérios problemas de saúde. Muitas entrevistas e uma profusão de imagens históricas. Mas a torcida do Botafogo pode sentir raiva, já que hoje temos de aturar os "irmãos" César enlameando aquela camisa gloriosa. * * * *

BEM PERTO DE BUENOS AIRES - Versão argentina de O som ao redor. Narrativa alegórica sobre o medo (o título original é História do medo) e o choque de classes na sociedade portenha em tempos de crise. Perde força na comparação. O nosso é melhor, até por ser original. * *

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Pílulas do Festival do Rio 2014 - Pré-semana

Quando esta coluna estiver entrando no ar, o Festival do Rio já vai ter começado. Literalmente. Vários títulos em exibição estão disponíveis na rede há meses para quem quiser procurar. Já escrevi aqui o que penso a respeito do compartilhamento de arquivos pela internet, mas nunca é demais repetir. Uma coisa é baixar um filme que acabou de entrar em cartaz, é deixar de ir ao cinema para assisti-lo em casa. Outra bem diferente é ter acesso a um filme que nunca foi lançado por aqui e dificilmente será. Não se trata de justificar o condenável, mas de reconhecer a importância desse tipo de prática.

Acaba sendo uma vantagem, já que abre mais o leque de filmes vistos ao longo do evento. Além disso, com tantas falhas de organização, tanto descaso com quem gasta dinheiro comprando os passaportes (todo ano dá algum problema), não deixa de ser uma pequena "vingança". Afinal, se eles não se importam em oferecer um serviço decente, também não devem reclamar se optarmos por vermos os filmes de outra forma. 

Abaixo, o que já vi antes de o festival começar.

O CIÚME - Garrel filma a mesma história de amor de sempre, cozinhada em banho-maria por personagens frágeis, que se escoram uns nos outros para disfarçar seu vazio interior. Mais do mesmo. Nem a fotografia em preto e branco tem algum destaque. Mas é bastante curto e, se não empolga, também não chega a aborrecer. * *

SÉTIMO - Exercício de suspense que funciona na maior parte do tempo, mostrando a busca desesperada de um pai pelos filhos que desaparecem enquanto descem as escadas do prédio onde moram. O roteiro se prolonga um pouco além do necessário e apresenta uma explicação meio frouxa para a motivação do caso. Ricardo Darín está bem, mas nada de excepcional. Osvaldo Santoro, que faz Rosales, é a cara do técnico espanhol Vicente Del Bosque! * *

GOD HELP THE GIRL - Garota escocesa tenta superar seu desequilíbrio emocional escrevendo músicas, artifício que a faz ter nova perspectiva de vida. Conhece um casal e tentam formar uma banda. A dura realidade em que ela vive tem seus momentos de escapismo nos números musicais, quase uma homenagem/referência aos anos dourados do gênero. O problema é que o roteiro não tira o pé do concreto, não cria delírios audiovisuais que permitam também ao espectador experimentar aquele alívio fantasista tão comum a esse tipo de filme. Culpa, talvez, da pouca experiência do diretor, Stuart Murdoch, líder do grupo Belle & Sebastian, em sua estréia como realizador (não é por acaso que há tantas músicas da banda na trilha sonora). Essa indefinição narrativa compromete uma história que tem qualidades: locações fotogênicas, figurinos inspirados, diálogos inusitados, alguns beirando o nonsense. Mas Murdoch mostra certa criatividade na condução da história. As canções são muito agradáveis, embora nenhuma seja memorável. Emily Browning (Beleza adormecida), em mais uma tentativa de  mostrar versatilidade, se sai melhor cantando do que atuando. * *

MATAR UM HOMEM - Revoltado com a leniência judicial, um pacato cidadão caça o arruaceiro que ameaça sua família. Quase uma versão chilena de Desejo de matar, com a sempre questionável defesa da justiça pelas próprias mãos como única ferramenta de equilíbrio social e solução para a criminalidade urbana. Também notei ecos do mais recente (e igualmente latino) Depois de Lúcia, exibido há dois anos. Seco e direto, com boa atuação de Daniel Candía, cujo protagonista vai se brutalizando aos poucos por força das necessidades. Baseado em fatos reais, o que torna tudo mais assustador. * * *

JORNADA AO OESTE - Poema visual assinado por Tsai Ming Liang, que nunca foi um diretor fácil e aqui testa todos os limites da platéia. O close inicial em um Denis Lavant estático, por exemplo, dura quase sete minutos. Como o público do cinema vai reagir a isso? Em ritmo lento e com imagens contemplativas, opondo os aspectos espiritual e físico do mundo atual, convida o espectador a refletir sobre a condição humana na sociedade contemporânea. Belo e com simbolismos visuais poderosos. Mas tem pinta de ser o maior espantalho do festival. * * *

BELLE E SEBASTIEN - Belle é uma cadela vira-lata adotada pelo menino Sebastien. A ação transcorre nos Alpes franceses em julho de 1943, época da II Guerra Mundial e do avanço nazista na região. Mais um produto do subgênero "menino-e-bichinho", tem locações deslumbrantes, mas um roteiro que não consegue definir seu público: é aborrecido para os adultos e um tanto pesado para as crianças. Bonita a canção-tema e boa presença do veterano Tchéky Karyo, como o avô. * *

IDA - Mais uma pequena surpresa vinda da Polônia, país cuja filmografia recente tem se mostrado muito interessante e que merece atenção. Com um rigor narrativo absurdo, apresenta um bom debate entre fé e vida mundana, mas oferece algumas propostas visuais estranhas, com personagens escondidos na parte inferior da tela ou cortados da cena. * * *

FRANK - Jovem consegue vaga de tecladista em uma banda obscura, cujo líder usa uma cabeça falsa (!), a qual nunca tira (!!). Humor absurdo e boas piadas que satirizam o universo musical, com o misterioso Frank (defendido por Michael Fassbender) sintetizando todas as excentricidades comuns aos astros do pop e rock. Mas o roteiro tem contornos sombrios e, por vezes, perturbadores. Quem superar a estranheza da situação central vai se divertir. * * * 

COLD IN JULY (que antipatia desses títulos não traduzidos!) - Apesar de o roteiro seguir fielmente a cartilha de um bom policial, com minúcias investigativas, reviravoltas e pistas falsas, a história nunca chega a envolver o espectador. Também prejudicado por um final fraco. A sina de Michael C. Hall (o eterno Dexter) parece que é mesmo matar! * *

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

O cinema uniu dois corações

Sombras elétricas (2004)
O Festival do Rio começa no próximo dia 24 e segue até 8 de outubro. Como nos dois últimos anos, o CineComFritas fará uma cobertura especial do evento e publicarei aqui breves resenhas críticas dos filmes a que eu assistir. Este ano o calendário do festival teve de ser ajustado às novas datas comerciais das salas de cinema do país, ou seja, começa em uma quinta-feira (quarta-feira para os convidados; o filme de abertura é O sal da terra, documentário de Wim Wenders sobre o fotógrafo Sebastião Salgado) e termina em uma quarta-feira, para que as distribuidoras mantenham inalterado seu cronograma de lançamentos.

Este será meu décimo terceiro Festival do Rio. Ao longo de todos esses anos, já vi muita coisa boa, muita coisa ruim; já vi filmes que depois se consagraram no circuito, outros que foram massacrados pela crítica quando de sua estréia. Mas o grande barato do festival é mesmo a chance de descobrir tanto novos diretores quanto algum filme que, por motivos diversos, termina restrito ao evento e nunca é lançado no país, posteriormente. Todo mundo que freqüenta o festival tem uma história dessa para contar, de uma pérola peneirada em meio à vasta programação. Comigo já aconteceu algumas vezes. E como os títulos em questão permanecem inéditos por aqui, tenho o prazer cinéfilo de dizer: "Eu estava lá. Eu vi".

Uma dessas descobertas se deu em 2007. Naquele ano, a China foi homenageada com duas mostras: uma de clássicos, outra de produções mais recentes. Desta segunda, escolhi ver um filme chamado Sombras elétricas. Foi talvez a maior jóia que já vi em qualquer edição do festival até hoje. Uma pequena obra sensível e que consegue o máximo com seus poucos recursos cênicos. Foi a estréia da diretora Jiang Xiao, que depois só rodou mais uma fita, Pk.com.cn (também nunca lançado aqui). A história é sobre um jovem que trabalha como entregador de água e é apaixonado por filmes. Um dia, ele sofre um acidente com sua bicicleta e ainda leva uma tijolada de uma desconhecida que passava pelo local. Depois de liberado pelos médicos, ele recebe a incumbência de cuidar dos peixinhos da garota e descobre um pequeno cinema na casa dela, com tela, assentos e paredes decoradas com fotos de estrelas da sétima arte. E também uma espécie de diário, em que descobre que suas vidas estão ligadas desde a infância.

Sentimentos unidos por uma paixão.
A partir daí, é preparar o espírito e se deixar embarcar nessa viagem mágica que constrói, com evidentes ecos de Cinema Paradiso, uma história muito humana, delicada, engraçada, que, embora vá comover a todos, tem um apelo especial para quem é cinéfilo. Basta dizer que o cinema funciona como pano de fundo para todos os acontecimentos da vida dos dois personagens. É como uma força viva, que atua da forma mais inesperada no destino das pessoas e influi nas escolhas que fazemos. São exibidos rápidos trechos de produções antigas (a maior parte da ação se passa nos anos 60, época da Revolução Cultural Chinesa), que conferem à narrativa um encanto a mais. 

Dentre eles, dois destaques: um filme albanês, Vitória sobre a morte, e outro oriental, Guerrilheiros da ferrovia, que mostra um espetacular choque de trens, ainda impressionante nos dias de hoje. Alguns espectadores podem se emocionar e até chegar às lágrimas, mas é um choro gostoso, de lavar a alma. Um filme belíssimo, que merecia entrar em circuito ou, no mínimo, sair em DVD. Infelizmente, nunca mais deu as caras por aqui. Curiosidade metalingüística involuntária: um dos filmes exibidos dentro de Sombras elétricas é Anjo das ruas, que também foi apresentado naquela edição, na outra mostra, a de clássicos, e igualmente desconhecido por aqui (e que eu também vi).

Qual será a grande descoberta do festival este ano? Saberemos nas próximas três colunas especiais.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Reflexos da inocência

O menino no espelho (2013)
Este era o filme brasileiro mais aguardado por mim este ano. Mesmo assim, fui ver O menino no espelho já temendo um desastre. Não é difícil adaptar Fernando Sabino, mas quando a gente gosta muito de um autor ou de uma obra, fica por natural excessivamente crítico em relação a qualquer adaptação que se faça. E tive uma surpresa.

O filme me agradou bastante, em que pese algumas liberdades narrativas tomadas pelo diretor Guilherme Fiúza Zenha (o último nome deve ter sido assumido para diferenciar do jornalista homônimo), mineiro como Fernando. Ele não levou o livro ao pé da letra, mas soube extrair a essência da história e criou uma obra capaz de dialogar com o texto, de certa forma ampliando o universo imaginado pelo escritor.

O romance é uma recriação ficcional da infância do autor, vivida na então pequena Belo Horizonte do começo dos anos 30. Nele, Sabino relembra fatos verdadeiros de seus tempos de menino, mas temperados com fartas doses de fantasia e imaginação, concedendo-lhes uma certa aura de aventura tão típica do universo infantil. O roteiro, escrito em parceria por Zenha, Cristiano Abud e André Carreira, abandona a estrutura episódica do texto e prefere apostar em uma narrativa mais linear. Funciona, embora o filme deixe no fim a impressão de estar algo incompleto, de que alguma coisa ficou de fora ou terminou sem solução.

Maluquinho é o outro! Favor não confundir.
Um dos grandes acertos do projeto foi a escalação de Lino Facioli no papel principal. Talentoso, o menino atua de forma bastante espontânea, interpretando uma criança de verdade, não um pequeno adulto como costumamos ver no cinema recente. Ele foi descoberto na série Game of Thrones, na qual interpreta o papel de Robin Arryn; tem alguns curtas em seu ainda pequeno currículo e esta é sua estréia em uma produção nacional, com grande potencial de fazer uma bela carreira, tanto aqui quanto lá fora mora em Londres há dez anos (está com 14). Aliás, todo o elenco infantil é muito bom, conseguindo uma química fundamental para que a história não só caminhe bem, mas também agrade ao público adulto, que se diverte com as estripulias da turminha sem se cansar ou se aborrecer.

Já o elenco adulto parece estar apenas enchendo cota, porque tem muito pouco a fazer. Mateus Solano e Regiane Alves são os pais do menino e em nada interferem no andamento, mal ocupam espaço na tela. Ele ainda tem algumas cenas em que transmite sua autoridade paterna em discursos moralizantes, mas Regiane, coitada, mal tem falas, um desperdício! Ricardo Blat é o oficial Pepe Vieira, chefe do núcleo local dos integralistas o roteiro cria boas piadas com o movimento, que infelizmente passarão despercebidas por grande parte do público, afinal, quem hoje se lembra ou sabe o que foi o Integralismo?

Quem não sonharia com uma prima assim?
Boa presença também de Laura Neiva, a prima adolescente que chega de São Paulo para passar uns dias com os tios. É ela quem inicia Fernando na arte do cinema, primeiro burlando a vigilância para assistirem a O anjo azul, que era proibido para crianças, e depois levando-o para ver Maridinho de luxo, ótima e esquecida comédia nacional dirigida por Luiz de Barros. Também é dela a cena mais bonita do filme. Depois de verem o clássico drama de Sternberg, ela aparece em um sonho do menino imitando Marlene Dietrich, uma visão equilibrada entre a poesia de uma admiração inocente e os primeiros impulsos sexuais.

Faço ressalvas quanto ao som. Deficiente, muito baixo, praticamente inaudível em algumas cenas, prejudicando a audição dos diálogos. Felizmente, o filme não precisa de muita conversa para ser compreendido em sua totalidade, e nenhum segredo fundamental se perde nessas horas. Essa falha é compensada pela boa recriação de época (locações em Cataguases, que ainda conserva traços urbanísticos próximos à BH dos anos 30), com destaque também para a cenografia de todos os ambientes.

Normalmente sou chato para adaptações literárias; esta, porém, credito como uma das melhores. Ao contrário de O grande mentecapto, O menino no espelho faz justiça à obra original e promove mudanças que a valorizam, em vez de subtrair sua força essencial. Um belo tributo à memória de Fernando Sabino.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Séries Fritas – Arrow

ARROW
Onde e quando: Warner, segunda-feira e terça-feira, 22h25; sábado, 11h50; domingo, 12h (a confirmar; o canal muda a programação a seu bel-prazer).
Elenco: Stephen Amell, Katie Cassidy, David Ramsey, Willa Holland, Colton Raynes, Emily Bett Rickards, Paul Blackthorne.
Sinopse: O Arqueiro Verde é a identidade secreta do milionário Oliver Queen, que combate o crime nas noites de Sterling City.


Comentários: Não é só no cinema que os super-heróis fazem sucesso. Prova disso é esta segunda temporada desse personagem surgido nas páginas da DC Comics nos anos 40 e que entre nós ficou conhecido como Arqueiro Verde. Não sou grande conhecedor do universo dos quadrinhos, mas, até onde sei, nunca foi dos mais populares. Foi, portanto, uma aposta arriscada de Greg Berlanti, diretor de Juntos pelo acaso e produtor de Lanterna Verde, de levá-lo para a TV, mas funcionou tanto que uma terceira leva de episódios já foi confirmada. Achei a primeira temporada apenas regular, presa a um esquematismo incômodo, com pouca variação nos roteiros. Mas isso talvez fosse necessário para dar ao público a chance de conhecer o herói e suas motivações. Sua origem é explicada logo no início. O milionário Oliver Queen sai para passear de iate com sua amante, Sara Lance, mas sofrem um acidente; ela é dada como morta e ele acaba em uma ilha (sempre tem uma ilha!), na qual passa cinco anos prisioneiro. Consegue fugir e assume a identidade secreta do Arqueiro Verde, ou Capuz, ou, como passa a ser chamado nessa segunda temporada, Vigilante. Toca seus negócios durante o dia e, à noite, combate o crime na cidade, seguindo uma lista de inimigos deixada pelo falecido pai. Nessa nova temporada, a estrutura narrativa da série ganha dinamismo e abre outras alternativas para o herói, bem como desenvolve melhor o universo em que ele orbita. Se na primeira temporada cada história era fechada em si mesma, sempre de uma forma monocórdia o tripé crime-perseguição-resolução , agora surgem vilões mais elaborados, ao mesmo tempo em que a vida pessoal de Queen ganha contornos mais dramáticos. Primeiro, tem de lidar com o julgamento da mãe (prefiro não revelar detalhes); depois, tenta se reaproximar de sua ex-namorada, a jornalista Laurel, irmã de Sara, enquanto se sente atraído por sua ajudante nerd, Felicity, uma das poucas pessoas que conhecem sua identidade secreta a outra é Diggle, segurança da família, agora promovido a seu braço-direito. Os ajustes feitos para essa segunda temporada melhoraram bastante o clima geral. Os roteiros são mais estruturados, apoiando a ação em motivações consistentes, abrindo espaço para algumas doses de romance e humor. Gosto das nuances esverdeadas da fotografia noturna, conferindo uma identidade visual própria à série. Não dá para dizer que é exatamente uma revelação, porque já conta pouco mais de 30 créditos na carreira, a maioria na TV (esteve em Hung e Private practice), mas Amell encarna o Arqueiro com talento e vibração, candidatando-se a futuro astro de fitas de aventura. Curiosidade: uma nova série do herói The Flash foi originada a partir de um dos episódios dessa segunda temporada.


Por que ver? É uma ótima escolha para fãs de filmes de super-heróis, mantém o interesse o tempo todo e agrada nas cenas de ação. Bom elenco e ganchos bem-bolados.
Por que não ver? Quem não viu a primeira temporada pode não se interessar. Os episódios inéditos só passam dublados e as reprises, quando acontecem, são poucas e em horários ruins.