quarta-feira, 24 de junho de 2009

Refilmagens: quem precisa delas?

Refilmagens, de maneira geral, podem ser enquadradas em duas categorias: as que não devem ser feitas e as que não precisam ser feitas. No primeiro caso, temos os clássicos do cinema, produções cultuadas pelos cinéfilos e que, por suas próprias qualidades, dispensam versões modernizadas. Casos de Cantando na chuva (musicais estão fora de moda, e, além disso, não há, hoje, nenhum ator-cantor-dançarino como Gene Kelly, que sustente um papel daquele tipo – e, por favor, não me venham com Zac Efrom!), Casablanca (há alguns anos, houve uma ameaça de refilmagem, com Ben Affleck e Jennifer Lopez nos papéis que foram de Humphrey Bogart e Ingrid Bergman!!!! – mas felizmente os autores da idéia recuperaram a sanidade antes de cometerem tamanho desatino), Cidadão Kane (qualquer comparação seria desfavorável à nova versão, por mais que tivesse qualidades – se tivesse), e mesmo produções mais recentes, como E.T. – o extraterrestre (Spielberg nunca consentiu, no que fez muito bem). Já na segunda categoria, temos casos de filmes que ganharam novas versões, mas perdem de goleada se comparados com o original. Aqui entra o Psicose de Gus Van Sant, que nem chega a ser tão mal produzido, mas é uma refilmagem absolutamente desnecessária. As novas gerações, que não conhecem Hitchcock, podem até se divertir, mas os que conhecem a história original, de 1960, dificilmente verão com simpatia esse exercício de direção feito sem propósito e sem motivo.

Mesmo fazendo certas ressalvas às refilmagens, é impossível não assisti-las, seja para tão somente criticar ou para estabelecer inevitáveis comparações com o original. Em alguns casos, é por meio das refilmagens que ficamos sabendo da existência de uma primeira versão – pouca gente sabe, mas o Ben Hur recordista de Oscars em 1960 é a nova versão de uma história já levada às telas nos anos 20, dirigida por Fred Niblo, e com o mítico Ramon Novarro dando vida ao mesmo personagem que Charlton Heston encarnaria quase quatro décadas depois. O próprio Hitchcock realizou uma refilmagem de si mesmo, com O homem que sabia demais, rodado originalmente por ele ainda em sua fase inglesa (1934) e posteriormente refeito em terras norte-americanas (1956). Muitos anos depois, o austríaco Michael Haneke usou do mesmo expediente.

Em 1997, Haneke chamou a atenção da comunidade cinéfila em todo o mundo com um assombroso filme de suspense, que, no Brasil, recebeu um título desagradável, Violência gratuita. Efusivamente saudado pela crítica, Haneke prosseguiu sua carreira na Europa, onde rodou outros projetos igualmente elogiados (Código desconhecido, A professora de piano, Caché). Não gostei de nenhum deles, à exceção deste último, realmente brilhante, com direito a uma das cenas mais perturbadoras do cinema recente. Convidado a trabalhar em Hollywood, Haneke, em vez de se arriscar em novos projetos, resolveu pisar em um terreno já conhecido. Assim, fez uma refilmagem praticamente quadro a quadro de seu filme de estréia. A pergunta que fica é: havia necessidade de se refazer a odisséia de brutalidade a que um casal, agora formado por Naomi Watts e Tim Roth, fica exposto?

O filme não é ruim. Tem suspense e tensão na medida certa, um roteiro enxuto, que não perde tempo com explicações (e nem precisa), cenografia despojada e absurdamente contrastante (ambientes perfeitamente imaculados que são, aos poucos, tingidos pelas cores da violência) e ausência de trilha sonora, marca do diretor, a não ser nos créditos iniciais e finais. A abertura, inclusive, faz lembrar um produto típico dos anos 70, com letras grandes ocupando a tela enquanto a família feliz ruma para sua casa de campo, evocando aqueles filmes de terror rural tão em voga na época. E Michael Pitt assustador como um dos psicopatas. Ou seja, tem qualidades. Só não sei se deveria ter vindo a lume. Confesso não ter mais paciência nem estômago para filmes que celebram a violência, ainda mais de forma tão cruel quanto este. E será que Haneke não poderia demonstrar sua suposta genialidade em terra ianque rodando uma idéia original? Isso veremos com o tempo. Por enquanto, ele só conseguiu preencher mais um espaço na imensa seara da falta de criatividade que assola Hollywood, que precisa requentar idéias para fazer a indústria seguir adiante.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Docs nacionais

Simonal – ninguém sabe o duro que dei

Este é considerado o melhor documentário brasileiro do ano e um dos melhores de todos os tempos. As novas gerações podem não saber quem foi ou desconhecer a obra de Wilson Simonal, mas quem viveu nos anos 60 irá se recordar com entusiasmo do suingue do cantor, do domínio que mantinha sobre a audiência de seus shows, sempre em apresentações contagiantes. Mas a festa acabou no dia em que o artista, por pura inocência, se disse protegido pelos militares, isso num tempo em que a ditadura ocupava os principais cargos de poder no país. Não é difícil entender a derrocada de sua carreira a partir de então. Muito bem editado, o filme reúne depoimentos de amigos, colegas de palco, gente que viveu no período e testemunhou a febre Simonal – Miéle, Chico Anísio, Nélson Motta, a crítica teatral Bárbara Heliodora (para quem a mãe de Simonal trabalhou como doméstica), entre outros. Pelé conta a história mais divertida, de quando o cantor treinou com a Seleção Brasileira nos preparativos da Copa de 1970 e achava que seria escalado no time principal! O documentário, produzido e dirigido por Calvito Leal, Micael Langer e Cláudio Manuel, não se presta apenas a ser uma festiva lembrança audiovisual de um artista: joga luzes sobre o caso e provoca um debate sobre o poder da imprensa na construção e demolição de mitos e personagens. Para quem não viveu naquele tempo e desconhecia quase que inteiramente a história e a carreira de Simonal, como eu, o filme cumpre o dever de toda boa produção do gênero: informa e leva à reflexão. Mas, no final, a dúvida que se impõe é porque ninguém defendeu Simonal naquela época, se todos sabiam que ele era inocente, se era tão bem-visto pelos colegas de profissão. Porque ninguém queria se comprometer? Ninguém queria ficar marcado também? Assim, o roteiro sai do plano meramente ilustrativo de um período e da vida particular de um artista e ganha uma discussão mais ampla, sobre a necessidade humana de se adequar a certas situações, mesmo que isso leve a conseqüências arrasadoras. E aqui não se trata de ficção.

Panair do Brasil

Filme sobre a maior companhia aérea brasileira, que operou soberana pelos céus de todo o mundo entre 1930 e 1965. Perseguida pelos militares, a Panair, um dos raros orgulhos brasileiros que alcançaram renome internacional, teve sua falência decretada por força de acordos políticos escusos, nunca satisfatoriamente explicados – caso único de empresa condenada à bancarrota mesmo estando com todas as suas contas em dia e seu patrimônio em constante crescimento. Há rápidos depoimentos de artistas que viajavam pela companhia e relembram com bastante saudade daqueles tempos, alguns curiosos, como o de Milton Nascimento, que conta que foi a bordo de um avião da Panair que tomou sua primeira garrafa de Coca-Cola, um dos luxos da época. Norma Bengell e o compositor Fernando Brandt também dão declarações, bem como alguns políticos. Mas a maior parte dos entrevistados é formada por ex-funcionários da empresa, antigos comandantes, aeromoças, gente ligada à Panair, que ainda hoje, mais de 40 anos após a suspensão (eles preferem usar este termo) dos serviços da companhia, ainda se reúne regularmente, formando uma grande família. Todos contam, com nítida emoção e boa dose de inconformismo, o que mudou em suas vidas após o golpe que os desempregou. A montagem esperta valoriza os depoimentos, sempre ilustrados por imagens de arquivo. Dois momentos particularmente emocionantes: a narração do poema Leilão do ar, de Carlos Drummond de Andrade, e Elis Regina interpretando “Conversando no bar”, em cuja letra Milton e Brandt prestam uma homenagem à Panair. Um dos bons documentários da nova safra, tem forte apelo nostálgico que tocará mais aos que viverem aquela época. Narração de Paulo Betti. Lançado em circuito pequeno, não foi descoberto pelo público nos cinemas.

Papão de 54

Registra um feito histórico no futebol do Rio Grande do Sul: o título invicto conquistado pelo hoje extinto Grêmio Recreativo Renner, naquele ano, superando os poderosos Grêmio e Internacional – este, derrotado em seus domínios, na época o Estádio dos Eucaliptos, por 1x3. Foi o único título conquistado pelo alvirrubro, formado por funcionários de uma fábrica de tecidos, que, por decisão empresarial, teve suas atividades encerradas apenas cinco anos depois. Narrado e apresentado pelo jornalista Ruy Carlos Osterman, o filme reúne muitos depoimentos de ex-jogadores, todos exaltando o espírito de equipe que servia como incentivo natural para as vitórias, um tipo de identificação entre jogadores e clube que hoje não existe mais. A maior curiosidade dentre os entrevistados é a presença de Breno Mello, que só alcançou grande brilho mesmo fora das quatro linhas: foi ele o protagonista de Orfeu negro, de Marcel Camus, Oscar de Filme Estrangeiro (eu sei que a expressão é errada, mas não consigo utilizar a outra com que a categoria é descrita por alguns críticos) em 1960, e que atuava pelo Fluminense na época das filmagens.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Serpico

Um jovem ingressa na academia de polícia e logo se depara com a corrupção existente no meio. Idealista, tenta combatê-la, mas passa a sofrer pressões de vários lados, até sofrer uma tentativa de assassinato. Não se trata da continuação de Tropa de elite nem é a sinopse de qualquer filme recente, mas de uma produção de 1973, Serpico, dirigida por Sidney Lumet e estrelada por Al Pacino. Mais de trinta anos depois, vemos que a situação descrita não só permanece nos dias de hoje, mas também ganhou contornos irrefreáveis.
O tema, claro, nada tem de novo nem de inventivo. Orson Welles já tratava do assunto nos anos 50, quando realizou o excepcional A marca da maldade. E o cinema sempre se ocupou dele ao longo dos anos. Então, este seria apenas mais um filme a abordar o assunto, não fosse o vigor de Lumet na condução da história e a entrega de Al Pacino no papel do incorruptível Frankie Serpico, um descendente de italianos que acredita na justiça e na função social da corporação que passa a integrar. Só que em pouco tempo ele descobre que as coisas não funcionam como se vislumbra. O meio policial é sujo, com dinheiro podre correndo nas delegacias, ligações escusas envolvendo delegados e traficantes, segredos que não devem ser revelados. A justiça plena é um objetivo impossível de alcançar.
Serpico é uma exceção entre seus colegas de farda, até pelo fato de agir à paisana quase na maior parte da história. É culto, estuda espanhol e gosta de literatura. Em momento algum abandona suas convicções, mesmo cercado de indiferença por todos os lados. Mantém-se firme aos seus princípios, ainda que sua dedicação ao trabalho honesto o conduza a um labirinto de armadilhas, gerando a antipatia dos colegas que, teoricamente, deveriam apoiá-lo em sua empreitada no combate ao crime. É o único que consegue ser autêntico em um universo onde todos fingem ser uma coisa, mas são outra. Em parte, por conveniência, como nos distritos policiais, em que é convencido por outros policiais a renunciar às apreensões efetuadas para creditar-lhes o sucesso na operação. Em parte, por incapacidade. Na engraçada seqüência da festa onde acompanha a namorada e conhece os amigos dela, todos se apresentam como representantes de uma elite intelectual – poetas, cineastas, artistas de modo geral – embora se virem profissionalmente em atividades modestas e longe da sugestão do sucesso pretendido. O contraste entre Serpico e o mundo que o cerca fica evidente. Ele é uma excrescência, um raio de solidez em um universo corrompido de ilusões e frustrações. Jamais se deixará abater.
A fotografia em tons sujos ajuda a realçar o clima sombrio e violento, contrastado e amenizado pela bela música de Mikis Theodorakis. O roteiro, de Waldo Salt e Norman Wexler, adapta com competência o romance homônimo escrito por Peter Maas, por sua vez inspirado em personagem real.
O filme rendeu a Al Pacino sua primeira indicação ao Oscar de melhor ator (recebera uma no ano anterior, como coadjuvante, por O poderoso chefão, mas perdeu em ambas as ocasiões). Merecia maior reconhecimento da Academia. E também das distribuidoras nacionais: com tanto lixo sendo lançado regularmente nas locadoras, este clássico permanece inédito em DVD por aqui, embora já exista na região 1. O jeito é se contentar com a versão em VHS ou torcer por uma reprise na TV a cabo.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

XXY

Rivalidades à parte, não há como negar que o cinema argentino, há muito tempo, vem produzindo filmes de alta qualidade, pelo menos em relação aos títulos que são lançados por aqui. E não são apenas nomes como Daniel Burmán ou Adolfo Aristarain que fazem o sucesso das películas portenhas mundo afora. A diretora Lucia Puenzo nos mostra, com este XXY, que é possível contar uma história difícil sem resvalar na grosseria.

Alex tem 15 anos e a cabeça cheia de todos os problemas e questionamentos típicos de sua idade. A eles, acresça-se outro ainda mais complicado: por ter nascido com características sexuais masculinas e femininas, não sabe em qual gênero se encaixa. Em uma tentativa de proteger a filha dos comentários maldosos e da curiosidade alheia, seus pais, Kraken e Suli, se mudam para uma região isolada na fronteira uruguaia. A situação começa a se complicar com a chegada de um casal amigo da família. O pai visitante, um médico especialista em cirurgia estética, se interessa pelo caso e se oferece para realizar a operação. Mas Kraken e Suli, movidos por uma crença religiosa, estão decididos: acreditam que aquela é a vontade de Deus e, portanto, qualquer intervenção no corpo de Alex será uma violência contra os desígnios divinos. Enquanto sua vida não se define, Alex começa a experimentar outra sensação conflituosa: um misto de afeição e rejeição pelo filho do médico, um rapaz de 16 anos. O menino desconhece toda a situação, e a cena em que Alex revela a ele sua condição é das mais tocantes do cinema recente. Logo terá lugar um profundo jogo de descobertas e identidades.

Toda a realização é admirável. Um tema polêmico como o hermafroditismo, que poderia terminar em um dramalhão insuportável e melodramático, é tratado com seriedade. O roteiro, delicado e preciso, evita o sensacionalismo e mostra todos os personagens com respeito e humanidade. A fotografia em tons frios faz paralelo ao ambiente gélido em que se desenvolve a história e realça a melancolia da narrativa. A força do filme é também garantida pela segurança do elenco. Ricardo Darín, contido e eficiente como o pai de Alex, mostra por que é um dos melhores intérpretes da atualidade (se trabalhasse em Hollywood, já teria recebido várias indicações ao Oscar). Ele é bem coadjuvado por Valéria Bertucelli (outra atriz que vem fazendo um filme após o outro e dificilmente erra a medida) como a mãe. Mas a alma de XXY é Inés Efrom, que conduz com perfeição o complicado papel central. Um desafio duplo, já que a atriz, de 23 anos, interpreta uma jovem adolescente e consegue passar toda a gama de sentimentos e incertezas de sua personagem. Ela já é apontada como a nova estrela do cinema argentino e vem aparecendo com freqüência em outros projetos.

O filme ganhou o Grande Prêmio da Semana da Crítica no Festival de Cannes em 2007, Goya de Filme Estrangeiro em Língua Hispânica, foi muito bem recebido no Festival do Rio do mesmo ano (onde foi exibido, equivocadamente, na Mostra Gay!) e teve uma boa passagem pelo circuito alternativo da cidade. Vale uma conferida atenta. Infelizmente, sai em DVD por uma distribuidora que, embora ofereça títulos bem atraentes, peca pelas edições modestas, trazendo apenas trailer como extra.

XXY (idem)
Drama
Argentina, 2007, 86 minutos.
Direção: Lucia Puenzo
Elenco: Inés Efrom, Ricardo Darín, Valéria Bertucelli, Germán Palácios, Martín Piroyanski, Carolina Pelleritti, Guillermo Angelelli.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Existenz

Antes de se tornar o diretor reconhecidamente sério dos dias de hoje, graças aos aclamados Marcas da violência e Senhores do crime, o canadense David Cronemberg era visto apenas como um mestre do bizarro. Com efeito, seus filmes pregressos não negam esse rótulo (Calafrios, Videodrome – a síndrome do vídeo, A mosca, Gêmeos, mórbida semelhança). No entanto, é injusto reconhecer suas qualidades apenas por conta de suas obras que podem ser consideradas mais normais, o que parece ser mesmo a sina imposta pela Academia para determinar o grau de aceitação ou seriedade conferido a um filme. Quem acompanha a carreira do diretor e gosta de seu trabalho já havia percebido isso há muito tempo.

Existenz é uma prova da criatividade ilimitada e do estilo muito particular de Cronemberg. Todos os seus fetiches estão lá: o gosto pelo estranho, a atração pelo lado mais sombrio da natureza humana, a deformação moral, tudo embalado por uma fotografia sufocante. O título se refere a um jogo de realidade virtual e a grafia original, oficial, é eXiStenZ, assim mesmo, com alternância entre maiúsculas e minúsculas, mas me recuso a adotá-la, porque não há sentido algum, é apenas uma extravagância gráfica concebida pelo diretor, sem maiores conseqüências na narrativa. A Ensiqlopedia do Qorpo Santo, ao menos, se prestava a um projeto estético bem definido.

O tal jogo do título é uma criação de uma jovem projetista de computadores (Jennifer Jason Leigh), que está em uma espécie de convenção para demonstrá-lo, mas, antes que o possa fazer, é alvo de uma tentativa de assassinato cometida por um assistente que chegou atrasado à exibição. Para alvejá-la, ele utiliza uma estranha arma, semelhante a um revólver, mas que atira dentes humanos (!). É salva pelo segurança do recinto (Jude Law, num papel bastante incomum em sua carreira). Fugindo por uma estrada, vão parar em um lugarejo na área rural, onde continuam sofrendo ataques e ameaças diversas, incluindo a de um psicótico frentista que lhes concede abrigo (mais um papel de desequilibrado para Willen Dafoe, que morre logo). A partir daí, ambos passam a ser perseguidos por organizações diversas, cada qual com um interesse específico no jogo. Mais não dá para contar para não estragar o suspense e as surpresas do roteiro. O filme segue num ritmo alucinante até um dos finais mais surpreendentes e imprevisíveis dos últimos tempos, algo que Shyamalan ainda insiste em fazer, mas sem mais a mesma competência.

Se há uma falha no roteiro de Existenz é a mudança brusca de atividade desempenhada pelos protagonistas, que passam muito rapidamente, e sem maiores explicações, de fugitivos a empregados de um restaurante chinês. Também acho de profundo mau gosto o desenho do comando do jogo, que lembra um feto humano estilizado (e que se move, o que reforça a impressão), e cujo cabo de conexão nada mais é do que um cordão umbilical. Esta estilização tem a ver com o propósito do jogo, mas é uma visão incômoda. Aliás, não faltam cenas desagradáveis no filme, como o canal de conexão do jogo, no corpo dos jogadores, e, principalmente, o prato servido a Jude Law no tal restaurante (é preciso ter estômago de aço para suportar a cena), como é de costume na obra de Cronemberg. Só que tudo está ali por uma razão, e este termina sendo o grande mérito do diretor: exibir cenas repelentes amparadas em uma necessidade cênica de reforçar as intenções da narrativa. O choque se faz pelo inusitado, não pelo gratuito.

Mais estranho do que a proposta do jogo é saber que o filme nunca foi lançado comercialmente no Brasil. Por aqui, só passou em festivais ou na TV a cabo. Permanece inédito mesmo em DVD. Quem sabe se, com a gradual penetração e popularização do Blu-Ray, as distribuidoras não se animam a resgatar este e outros títulos para que fiquem disponíveis ao grande público.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

O Vigilante Rodoviário

Exibida pela TV Tupi no começo dos anos 60, a série O Vigilante Rodoviário entrou para a história da televisão brasileira. Marco de toda uma geração, que vibrava com as aventuras do patrulheiro Carlos e seu fiel ajudante, o cachorro Lobo, o seriado foi um projeto criado e levado adiante pelo diretor Ary Fernandes, cujo objetivo declarado era dar vida ao primeiro herói genuinamente brasileiro. O sucesso alcançado pela série comprova o acerto de sua intenção. Teve uma duração relativamente longa, com 39 episódios. Todos estão sendo reapresentados pelo Canal Brasil, desde o dia 9 de março, às segundas-feiras, 20h30, com reprises às terças, 16h, e aos domingos, 11h.

Mesmo quem não viveu naquela época já leu ou ouviu falar sobre as aventuras do vigilante Carlos, um patrulheiro rodoviário que agia na Rodovia Anhagüera, em São Paulo, a bordo de uma Harley Davidson 1952 ou de um Simca Chambord 1959, acompanhado por seu cão Lobo (que também serviu de inspiração para muitos donos de cães batizarem seus animais). Juntos, combatiam ilegalidades diversas e auxiliavam na resolução de crimes. Mas não há violência explícita nem tiroteios, para não assustar o público-alvo da série, mais voltada a crianças e adolescentes. A origem de Lobo é explicada em um episódio. A aura de heroísmo conferida ao vigilante contribuiu para que muitos meninos se interessassem em seguir a carreira policial, incluindo o próprio protagonista, o ator Carlos Miranda, que, com o final da série, foi aprovado em um concurso para a Polícia Rodoviária Federal, no único caso conhecido de ator que virou o personagem que interpretava. Depois da série, ainda fez tímida carreira no cinema, sem maior destaque.

A estrutura da série é bastante simples e pode ser resumida a três atos. O primeiro define a ação e introduz os personagens do universo marginal: golpistas, ladrões de obras de arte e arte sacra, fugitivos da polícia etc. O segundo mostra o empenho do vigilante Carlos e seus amigos de corporação na captura dos meliantes. O terceiro é a conclusão, sempre óbvia, com o bem vencendo o mal e os mocinhos exibindo seus sorrisos de satisfação pelo dever cumprido. Posteriormente, o encerramento passou a ser feito com uma mensagem moralizante dita pelo patrulheiro, conclamando os motoristas a seguirem as regras de trânsito e direção segura, combatendo assim os acidentes nas estradas.

Infelizmente, a série não resistiu à passagem do tempo e envelheceu bastante em muitos aspectos. Hoje, só mesmo com o olhar romântico do saudosismo ou com uma boa dose de curiosidade é possível assistir às aventuras do vigilante Carlos sem se importar com a inocência das situações. A começar pela má qualidade da cópia em alguns episódios, cheios de riscos e manchas, e com o som inaudível. Os roteiros se esforçam, mas não conseguem fugir do esquematismo maniqueísta comum a esse tipo de produção. As cenas de luta que empolgavam a garotada na época hoje não convencem. Mas nada disso tira o mérito da produção, que ocupa um lugar de destaque no coração de todos os que viveram aqueles tempos. E, que mais não fosse, é sempre importante manter viva a memória cultural de nosso país.

Em 1978, houve uma tentativa de revitalizar o seriado e um novo episódio piloto foi produzido por Fernandes, desta vez com Antônio Fonzar no papel do vigilante Carlos e com três cães se revezando como Lobo (originalmente era apenas um, que obedecia aos comandos de um treinador). Mas o projeto não foi adiante e resumiu-se a este único novo episódio.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

O homem duplo

O nome de Philip K. Dick está para a literatura de ficção científica tal qual o de Dashiel Hammett para a policial. Um mestre no gênero, inventivo, autor de fantasias futuristas complexas e inteligentes, sempre temperadas com boa dose de crítica política, um visionário. Muitas de suas histórias foram adaptadas para o cinema com grande sucesso: Blade Runner – o caçador de andróides, O vingador do futuro, Minority report – a nova lei, só para citar algumas. Todas, porém, produções francamente comerciais, agrupando os elementos típicos do cinema de pura fruição – elencos de grandes astros, efeitos especiais elaborados, produções cuidadosas. Este aqui é um pequeno filme que, mesmo trazendo a marca do mestre, fez carreira tímida nos cinemas, embora seja baseado em um de seus textos mais cultuados, e menos conhecidos, no Brasil: O homem duplo. O filme foi produzido pela Wip, o braço da Warner para projetos independentes, o que também causou restrições de exibição, limitando-o ao circuito alternativo.

A trama se passa em um futuro não determinado e acompanha o cotidiano do policial Fred, designado pelo departamento de polícia de Anahein para investigar um grupo de traficantes de uma poderosa droga sintética, a Substância D. Para isso, ele assume a identidade de um desses usuários, Robert “Bob” Arctor, e passa a conviver com outras pessoas envolvidas nesse universo de opressão e decadência. Por meio de câmeras filmadoras instaladas em sua casa, ele obtém as informações que podem levar ao chefe da quadrilha. Mas tudo se complica quando ele se reconhece em uma das imagens como sendo o homem que deveria investigar. Neste momento, a paranóia de Fred/Bob chega ao limite e ele se vê sem saída.

O diretor Richard Linklater é velho conhecido de boa parte do público cinéfilo. É ele o responsável pelo já clássico do romantismo dos anos 90, Antes do amanhecer, em que um jovem casal se encontrava por acaso durante uma viagem de trem pela Europa e trocava confidências, desenvolvendo uma relação ambígua. Dez anos depois, fez a continuação, Antes do pôr-do-sol, que não foi tão bem sucedida. Seus filmes são, geralmente, muito dialogados, o que pode aborrecer alguns, mas a sinceridade com que trata de certos temas agrada e provoca boas reflexões. Linklater já havia realizado uma experiência na animação em 2001, com Waking life. Ali, ele utilizou a técnica da rotoscopia (que é repetida neste aqui), em que primeiramente os atores são filmados em seus movimentos reais e depois é feito o processo de animação por cima das imagens. O visual parece estranho a princípio, sobretudo para quem está acostumado com as produções Disney/ Pixar, mas sempre fascinante. Esta é outra razão pela qual o filme não fez o sucesso que deveria ou poderia. Desenho animado para adultos é sempre uma coisa complicada, difícil de lançar nos cinemas, e que nunca encontrou seu público no Brasil, com exceção das animes. Fica melhor assim, em DVD, onde pode ser melhor aproveitado.

Embora bastante fiel ao romance original, mantendo as situações básicas e até mesmo os diálogos (nada é cortado ou acrescentado, apenas um detalhe foi invertido do final para o começo da história, o que, diga-se de passagem, elimina boa parte da surpresa), o filme sofre os mesmos problemas de toda adaptação de obra literária. O maior deles é a falta de clareza que fica diante de algumas cenas que passam voando (a mim, incomodou um pouco a velocidade da história, muita gente pode se perder, mal há tempo para se pensar no que aparece na tela). Por exemplo, a seqüência da bicicleta, que tem uma função bem específica no livro – mostrar a degeneração cognitiva provocada pelo uso das drogas – soa deslocada no filme, gratuita, mesmo porque não se conclui! O que confunde o espectador. Por outro lado, a decisão de realizar o filme em animação se justifica sobretudo pela solução encontrada para a representação do traje misturador (no filme, traje de transição), que os policiais usam para não serem identificados fora de seu ambiente de trabalho. Confesso que somente vendo o resultado na tela consegui entender perfeitamente como funcionava o mecanismo da roupa. É algo que, se feito com atores verdadeiros, dificilmente alcançaria o mesmo efeito, mesmo com tantas facilidades de computação e efeitos especiais avançados. Embora o final permaneça inalterado, seu impacto é maior no livro, mas pelo menos a nota do autor, que encerra o romance, foi mantida na tela, ainda que bastante reduzida.

A sugestão é que o espectador leia o livro antes, até para não se perder em determinados trechos do filme, e assim possa avaliar até que ponto a adaptação foi bem ou mal feita. Mas quem busca apenas um bom programa sem ter conhecimento do texto original também vai encontrar bons motivos para se divertir.

O HOMEM DUPLO (A scanner darkly)
Animação / Ficção científica
EUA, 2005, 100 minutos
Direção: Richard Linklater
Elenco: Keanu Reeves, Robert Downey Jr., Winona Ryder, Woody Harrelson, Rory Cochrane.

Para ler:
O homem duplo
Philip K. Dick
Editora Rocco
310 páginas
Preço médio: R$30