segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Festival do Rio - um passaporte na mão e muita coisa na cabeça

Ao que parece, os bons ventos da modernidade, enfim, sopraram na direção do Festival do Rio. Como se atendessem a antigos pedidos do público, a comissão organizadora resolveu liberar para venda, na internet, os primeiros lotes de passaportes, de 20 e 50 ingressos, na semana passada. Em três dias, já estava tudo esgotado. Eu corri para garantir o meu, de 20 passes, como sempre (mas continuo achando que um passaporte de 30 filmes seria o ideal). E, ao contrário de todos os anos anteriores, dessa vez a venda de ingressos foi antecipada em um dia e começou hoje.

A velha fila, elemento indispensável de todo Festival do Rio, estava lá, formada, quando cheguei na central de ingressos, por volta das 9h30, meia hora antes da abertura. Pela senha que consegui, havia 16 pessoas na minha frente. Normal, tranqüilo. Achei o movimento bem mais fraco que de costume, em anos anteriores aquilo fervilhava, chegava mesmo a ser difícil caminhar pelo hall do Espaço de Cinema (onde funciona a central). Dessa vez, não houve atropelos. Mas confusão, sim: logo se formaram dois grupos distintos, o das pessoas que apenas foram retirar o passaporte, já tendo pago com antecedência pela internet, e o dos compradores de momento, que deixaram para adquirir suas entradas na hora, seguindo o esquema tradicional. Como organizar duas filas? E quem teria prioridade? Quem foi comprar ou quem foi apenas retirar? Para complicar mais um pouco, o sistema estava absurdamente lento, e logo veio a ordem: ainda não seria possível comprar os filmes, mesmo com o passaporte em mãos. No final das contas, em menos de uma hora, saí com meu passaporte em mãos (e este ano ainda fizeram um mimo, ele já veio com um cordão para os cinéfilos pendurarem no pescoço), mas sem os filmes. Como tinha uma consulta médica para dali a pouco, saí já imaginando que na volta, à tarde, teria de encarar uma fila quilométrica e mais confusão para conseguir os ingressos para os filmes pretendidos.

E mais uma vez veio a surpresa: voltei às 12h45 e continuava tudo tranqüilo. Fui encaminhado a um guichê espercífico para a troca de ingressos para os portadores do passaporte e finalizei a operação. Dos 20 filmes a que tenho direito, já consegui a metade, mantendo a média de todos os anos (ainda havia muitos filmes não liberados). Pelo menos consegui para dois que aguardo com mais expectativa: Somos todos diferentes (que será exibido em sessão matinal, às 9h!) e Bastardos inglórios, que, confesso, entrou de última hora na minha programação (eu não estava conseguindo encaixá-lo em nenhum horário), só depois que refiz todos os horários do último dia. Foi bom. Valeu. Agora é aguardar a liberação dos outros filmes da lista.

Ah, outra velha conhecida do Festival do Rio também marcou presença nesse primeiro dia: a chuva. Ainda bem que fui prevenido. Afinal, Festival do Rio sem chuva perde metade da graça.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O Festival do Rio vem aí...

Cinéfilos a postos! O Festival do Rio começa no próximo dia 24 (para convidados; para o grande público, a partir do dia 25) e, até seu encerramento, em 8 de outubro, irá mobilizar corações e mentes da comunidade cinéfila da cidade. Serão cerca de 350 títulos em exibição, de todos os gêneros, divididos em várias mostras, algumas homenagens e retrospectivas, espalhados por mais de 15 salas do Centro e da Zona Sul (um aspecto que particularmente me incomoda na organização do evento é essa restrição geográfica, que, muitas vezes, confere ao festival um caráter de gueto. Será que não existe um único cinema na Zona Norte em condições de receber o festival? Não existe público cinéfilo naquela região? E mesmo se forem poucos os que moram lá, por que têm de se deslocar para outras áreas da cidade? Uma explicação é que o Grupo Estação, que organiza a maratona, não possui salas na Zona Norte, o que naturalmente já dificulta a programação por lá. Exceção feita, talvez, ao Ponto Cine, em Guadalupe, que foi sede nos dois últimos anos, mas ainda é pouco).

Muitos filmes já foram confirmados pela organização e a programação deve ser divulgada até o final desta semana. O cardápio de 2009 é suculento, reunindo os novos trabalhos de Almodóvar, Resnais, Tarantino, Ang Lee e outros (mas, até agora, não há confirmação do novo Woody Allen, Tudo pode dar certo). Além de vários outros menos conhecidos, que, no fim das contas, são o grande atrativo de um festival de cinema. Perdido entre tantas opções, pode estar aquele filme inesquecível, aquela pérola que você só viu ali e poderá contar aos amigos nas edições seguintes. Todo mundo que freqüenta o festival tem uma história dessas. Lembro-me de um filme chinês que assisti há dois anos, chamado Sombras elétricas, uma pequena obra-prima tendo o cinema como elemento de interseção na vida de duas famílias. Nunca foi lançado no Brasil nem saiu em DVD, mas ficou na memória. Candidatos a novos queridinhos do público não faltam. É só garimpar.

De minha parte, há alguns títulos imprescindíveis. Já citei Bastardos inglórios, o novo do Tarantino, um drama de guerra estrelado por Brad Pitt. Também Os abraços partidos, que marca a volta de Almodóvar ao festival após um hiato de cinco anos (seu último filme, Volver, passou aqui em 2004; aliás, Almodóvar é o típico caso de diretor que foi descoberto pelo público em um Festival do Rio, há mais de 20 anos e, desde então, só tem feito engrossar seu séquito de admiradores). O sempre polêmico austríaco Michael Haneke comparece com A fita branca, grande vencedor da Palma de Ouro (e será que veremos também Líbano, que acabou de ser premiado em Veneza?). Há ainda 12 homens e uma sentença, de Nikita Mikhalkov (indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro em 2008), Distantes nós vamos (Sam Mendes), o aguardado Aconteceu em Woodstock, tributo de Ang Lee aos quarenta anos do festival de música mais famoso de todos os tempos (e que será o filme de abertura), A batalha dos 3 reinos (John Woo), Eu te amo, Nova York (nos mesmos moldes de Paris, te amo, de 2007, e que marca a estréia da atriz Natalie Portman como diretora em um dos episódios). Todos incluídos no Panorama, a mostra principal. Mas é claro que há muito mais a se ver.

Um dos imperdíveis do festival é o filme indiano Como estrelas no céu, já sugerido pelo companheiro Ibirá Machado aqui no blog (no texto “Introdução ao cinema indiano II”, de julho), que teve o título modificado (vai ser exibido como Somos todos diferentes), e infelizmente programado para a mostra Geração, voltada a crianças e adolescentes (ou seja, bagunça no cinema). Mas é obrigatório. Na mesma mostra, o finlandês O lar das borboletas escuras merece uma conferida. Nunca vi nenhum filme da Geração por ter a quase certeza de me aborrecer com a platéia, mas acho que, este ano, finalmente vou encarar.

Outra atração é a mostra Imagens da Turquia, com seis produções recentes daquele país, que já nos legou 3 macacos, ainda em cartaz. Uma novidade deste ano é a mostra dedicada a filmes que tenham o meio ambiente como temática. E haverá ainda uma homenagem à atriz francesa Isabelle Huppert, incluindo 8 mulheres (François Ozon) e Mulheres diabólicas (Claude Chabrol).

Minha primeira participação no Festival do Rio ocorreu em 2002. Naquele ano, vi apenas 8 filmes, só para testar o esquema e me ambientar com o evento. De lá para cá, tornei-me rato de festival. Já no segundo ano, minha cota pulou para 20 filmes. Parece impossível, mas há quem assista a mais de 100 filmes nas duas semanas de maratona. Nunca cheguei nem perto disso (meu recorde foi ano passado: 40 filmes), mas também nunca me importei. No final, sempre fica aquela sensação de que poderia ter visto mais. Aí, é preparar o espírito para o festival do ano que vem e tentar se organizar melhor...

Durante o festival, tentarei atualizar este espaço pelo menos duas vezes por semana, com críticas, impressões, comentários, enfim, tentando “dar o recado” ainda em cima do lance. As atualizações das quartas-feiras estão mantidas, mas outras poderão acontecer a qualquer momento. E que venha o Festival do Rio!

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

20 centímetros

O gênero musical respira por aparelhos há várias décadas. Passada sua época áurea, na Hollywood dos anos 40 e 50 (e um pouco dos 60), pouco se fez depois que tenha alcançado algum destaque – Jesus Cristo superstar, All that jazz, Hair, e, mais recentemente, Moulin rouge e Chicago. Fora dos EUA, surgem exemplares esporádicos. Este 20 centímetros é um bom exemplo e prova que os musicais ainda têm seu espaço na cinematografia atual, ainda que produzidos por um viés bem distinto daquele dos grandes sucessos de outrora. Não há mais o universo edulcorado e fantasista em que eles foram originalmente concebidos, mesmo porque sua necessidade escapista – o gênero foi o sustento da indústria durante as Guerras Mundiais – perdeu o sentido. Os musicais de hoje acompanham o ritmo da vida nas grandes cidades, retratam em suas tramas problemas modernos e, em alguns casos, inimagináveis há cerca de 40 anos.

Aqui, acompanhamos a história de Adolfo, um travesti que usa o codinome de Marieta e é interpretado pela atriz Mónica Cervera (que fez depois Crime ferpeito). Seu grande sonho é se tornar uma mulher de verdade, mas para isso tem de se livrar de seu pênis, que tem exatamente a dimensão sugerida pelo título. A história é das mais bizarras que se pode ver, passada num universo quase surreal, com personagens que parecem saídos de algum filme de Pedro Almodóvar – parece que o cinema espanhol de hoje deve a ele algum tipo de tributo, pois é enorme sua influência sobre os jovens realizadores. Marieta, que sofre de narcolepsia, mora num condomínio habitado por outros travestis, a maioria já idosa, que vira e mexe discutem pela janela da área interna. Divide o apartamento com um anão cujo sonho é ser violoncelista, e toma conta do filho de uma amiga, uma gorda que se envolve em negócios escusos para conseguir dinheiro. É ela quem aconselha Marieta a se operar no Brasil, pois "lá (aqui) estão os melhores cirurgiões", além de tecer outros elogios ao país: "O Brasil tem homens maravilhosos, de paus enormes, e em grande quantidade, são quatro ou cinco para cada mulher" (mas quando ela diz, momentos antes, que no Brasil se trabalha muito, por isso o país prospera, a audiência explodiu em risos!). A situação ameaça se complicar quando Marieta se apaixona por um carregador do mercadinho local, que não só corresponde aos sentimentos, como ainda pede para ser enrabado pela "namorada" durante as transas! Por aí se percebe o grau de subversão a todas as normas do gênero.

Mas, apesar de tantas ousadias, o filme reza pela cartilha dos musicais, ou seja, tudo é levado em muito alto astral, com bom humor e no fim todos os problemas são resolvidos. Entre as seqüências de canto e dança, a melhor é a que reúne os três casais ao som de "True blue", da Madonna, e a mais inusitada, a passada em um cemitério, com um bando de zumbis travestis, parodiando o "Thriller" de Michael Jackson. Quem se choca com essas coisas deve evitar o filme; já quem não liga para certos códigos de moral ou conduta irá se divertir muito. Curiosidade: antes dos créditos de abertura, surge uma mensagem na tela solicitando que os espectadores não gravem nem copiem o filme ou partes dele, informando que tal prática constitui crime de pirataria.

O filme chegou a ser anunciado no circuito após sua exibição no Festival do Rio de 2005, mas terminou simplesmente sendo engavetado, e sequer saiu em DVD. Ou seja, ficou como uma dessas pérolas descobertas no evento. Mas, como o grupo Estação costuma surpreender seus espectadores, tirando do fundo do baú títulos considerados esquecidos, ainda resta uma esperança de vê-lo em alguma sala.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

À prova de morte - o filme esquecido de Tarantino

Nova produção dirigida por Quentin Tarantino, Bastardos inglórios é um dos títulos mais aguardados do próximo Festival do Rio. O filme, que deverá encerrar o evento, no dia 8 de outubro, já vem sendo apontado como favorito à disputa do Oscar 2010. Com estréia prevista para o circuito ainda este ano, deve chegar às telas antes de seu trabalho anterior, rodado há quatro anos e que nunca foi lançado sequer em DVD por aqui. Pois é, existe um Tarantino inédito no Brasil, que só foi exibido no festival de dois anos atrás: À prova de morte.

Em 2005, os amigos Quentin Tarantino e Robert Rodríguez se uniram para realizar um projeto chamado Grindhouse, uma homenagem aos antigos cinemas-poeira dos anos 50, assim denominados, e que eram especializados em sessões duplas de filmes baratos de sexo e violência, muito populares em sua época. Originalmente, a idéia era um filme único em duas partes (esta é a segunda; a primeira, Planeta terror, saiu nos cinemas e em DVD duplo distribuído pela Europa. Embora esta seja a segunda parte, foi exibida antes no festival porque a outra não havia sido liberada a tempo. Coisas do festival) divididas por trailers de outros filmes trash (todos fictícios) e totalizando quatro horas de duração. Só que o projeto foi muito mal de crítica lá fora e a distribuidora desistiu de lançá-lo no mercado externo como planejado. Assim, acabamos perdendo o grande charme da idéia, que era exatamente brincar com aquele tipo de programa, já que não tivemos acesso ao pacote completo – em um dos falsos trailers, Willen Dafoe aparecia interpretando um vampiro! Só restou o desfecho da idéia original – antes da abertura, o filme é anunciado como “Nossa próxima atração”. Mesmo assim, dá para curtir esta fita que presta uma carinhosa reverência ao cinema.

Tarantino preferiu rodar um road-movie de suspense nos moldes do que virou moda nos anos 70, copiando o mesmo tipo de letreiro, cortes e closes, e inclusive utilizando os mesmos defeitos técnicos da época, com imagem riscada, fotografia escura (de sua própria autoria), falhas de imagem por causa da troca de rolos etc. Sua história é contada em duas épocas. Na primeira, um psicopata (interpretado por Kurt Russell) persegue e mata quatro amigas que viajavam para a casa de veraneio de uma delas (o estranho título é porque o carro usado pelo assassino é descrito por ele como indestrutível, portanto, à prova de morte – não é “a prova da morte”, como ouvi um mauricinho na fila da sessão explicar para sua namorada, na certeza de um abafo de cultura e intelectualidade). Na segunda, que se passa 14 meses depois, a trama é repetida, mas com outro desfecho. A primeira parte é superior, com o diretor escancarando sua pedofilia (a primeira imagem mostra um par de pezinhos femininos estendidos sobre o painel do carro) e brindando a platéia com uma generosa coleção de diálogos inspiradíssimos. A segunda parte, por outro lado, é menos feliz, uma vez que as conversas se tornam excessivas e derrubam o ritmo do filme, que só é recuperado na alucinante perseguição final. Tudo embalado por uma contagiante trilha sonora, como sempre uma atração à parte nos filmes dele. A dança de Rose McGowan (que faz a protagonista de Planeta terror) é extremamente sensual e me fez imaginar se Tarantino também cultiva alguma espécie de onfalolatria (atenção: a palavra não existe nos dicionários, mas pode ser formada pela justaposição do radical grego onfalus mais o sufixo "latria", o que se traduz por “adorador de umbigos”). Há também incontáveis referências ao próprio cinema, desde os cartazes de filmes antigos pregados nas paredes do bar onde se passa a maior parte da ação na primeira parte até citações literais de antigas séries de TV, não faltando brincadeiras com sucessos mais recentes (Maria Antonieta, Todo mundo em pânico 4). Tudo bem ao estilo do diretor. Um filme divertido, mas que poderia dispor de um ritmo mais ágil. É justamente seu palavrório que trava a ação na segunda parte, que é finalizada ao som da contagiante “Chick habit”, de April March.

Fui conferir o filme em um domingo à noite no Roxy, um cinema em que o público tradicionalmente não costuma embarcar na onda do festival. Estava lotado e a platéia aplaudiu muito ao final da sessão. Nos créditos finais, levei um susto ao ver que a atriz que interpreta a desbocada e excitante Julia Jungle se chamava Sidney Poitier!!!!!!! Confesso que pensei tratar-se de uma gozação tarantinesca, travestindo um ícone dos anos 70, camuflando-o de forma irreconhecível debaixo de quilos de maquiagem e efeitos de CGI (o que também me irritou profundamente, será que passei o filme inteiro suspirando por uma estrela que nem estrela mesmo é?). Mas, para meu alívio, era apenas a filha do famoso ator, creditada com o nome do pai. Mais uma referência do diretor aos anos 70.

Fico na torcida para que, com a iminente chegada de Bastardos inglórios ao circuito, enfim, a Europa tire este aqui do inexplicável limbo a que o condenou e o torne disponível, ao menos em DVD.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

O medo do goleiro diante do pênalti

Muitos anos antes de se tornar o cronista estrangeiro das neuroses internas que corroem a sociedade norte-americana atual, vitimada pela paranóia do terrorismo, o alemão Win Wenders concebeu um interessante estudo sobre os efeitos do medo no ser humano, ao levar para as telas o romance homônimo de Peter Handke, O medo do goleiro diante do pênalti. Descartando as implicações políticas de suas produções mais recentes, o diretor conseguiu ser universal sem precisar se afastar de sua aldeia.

Joseph Bloch é goleiro de um pequeno time da segunda divisão. Durante uma partida, ele discute com o árbitro por conta de uma falta mal marcada e é substituído pelo treinador. Suspenso pela diretoria do clube, resolve passar seus dias perambulando pela cidade. Vai ao cinema (assistir Faixa vermelha 7000, de Howard Hawks) e acaba se envolvendo com a bilheteira, Glória. Mesmo não sendo convidado, passa a noite na casa dela. Na manhã seguinte, sem motivo aparente, ele a estrangula, mas o fato parece não significar muita coisa para o goleiro, que continua vivendo como se nada tivesse acontecido. Acompanhando a repercussão do crime pelos jornais, ele se muda para a pensão de uma amiga e fica apenas à espera de ser encontrado pela polícia. Cada vez mais consciente de seu destino, deixa aflorar seu sentimento de culpa por meio de tiques e uma hiperatividade latente que, no entanto, não o leva a lugar algum. Seu nervosismo é fruto da certeza de que seus dias de liberdade estão contados: ser descoberto é apenas uma questão de tempo.

O filme parece muito simples na forma, mas deve ser visto com atenção pelo espectador, pois todo o seu sentido está implícito, subliminar. Wenders constrói quase uma fábula sobre o desconcerto de um homem comum acossado pela culpa e a certeza de uma falta cometida. A metáfora do goleiro como ser isolado, solitário, funciona de maneira óbvia. Ele simboliza uma espécie de flaneur fatalista, agindo como um fantasma urbano, evocando O estrangeiro, de Albert Camus. O tema da solidão humana já aparecia com força na obra do diretor, e seria ainda mais intenso em seus trabalhos posteriores, como Paris, Texas (1984), Asas do desejo (1987) e mesmo o recente Estrela solitária (2004). Bloch não tenta fugir em momento algum: sabe que não tem para onde ir, e que todas as fugas possíveis são inúteis. Está inexoravelmente preso à sua existência medíocre – o filme é todo centrado em cima de personagens os quais se convencionou chamar de losers (perdedores) do sonho americano. Este aspecto do filme pode desagradar muitos espectadores, bem como a lentidão da narrativa, evidenciando a imobilidade da situação e antecipando o destino do protagonista. Esse clima de desesperança é realçado pela trilha sonora, uma batida monocórdia, repetitiva, transmitindo a idéia de que nada sai do lugar.

Outro aspecto que pode causar estranheza é o nonsense de alguns diálogos, que, mesmo assim, conseguem ser brilhantes em alguns momentos, especialmente quando criticam a falta de comunicabilidade entre as pessoas – outro assunto recorrente na filmografia do diretor. Ninguém está interessado em entender ou ser entendido: as pessoas apenas vivem, vez por outra esbarrando em problemas externos, sem que, contudo, se sintam atingidas por eles.

É um dos bons trabalhos de Win Wenders que merece ser conhecido. Infelizmente, foi esquecido pela coleção dedicada ao diretor, lançada pela Europa, e, portanto, somente pode ser visto em VHS.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Esqueceram de nós

(Continuação da postagem anterior) Foi com incontido entusiasmo que fiquei sabendo da notícia, veiculada em um dos grupos de discussão do Yahoo do qual faço parte. Os filmes de John Cassavetes finalmente serão lançados em DVD no Brasil. A iniciativa pertence à distribuidora Cinemax, que digitalizou cinco títulos daquele que é considerado o pai do cinema independente norte-americano: Sombras (1959), Faces (1968), Uma mulher sob influência (1974), A morte de um apostador chinês (1976) e Noite de estréia (1977). Pode ser apenas o começo para que, posteriormente, toda a obra de Cassavetes aporte por aqui. Até então, ela permanecia quase inédita em terras nacionais, à exceção de Glória (1980) e Amantes (1984), mas ambos disponíveis apenas em VHS.

Com o lançamento, a Cinemax se alinha a outras distribuidoras especializadas em resgatar filmes e diretores clássicos, antigos ou alternativos, todas merecedoras de aplausos pela proposta, como a Continental (apesar da origem sempre duvidosa de seus masteres), Silver Screen, Aurora, Versátil, Cult & Classic e a pequena Lume Filmes, que recentemente pôs no mercado uma coletânea de filmes marginais brasileiros, com destaque para o libertário Sem essa aranha, de Rogério Sganzerla. No entanto, chega a ser curioso que, embora alguns títulos antigos estejam aos poucos chegando às lojas e locadoras, outros, a maioria recente, continuem sendo desprezados no formato. Abaixo, selecionei 15 filmes (a ordem não segue qualquer lógica) que permanecem inéditos em DVD no Brasil, mesmo sendo todos bastante conhecidos.

Pânico
Considerado o mais inovador filme de horror dos anos 90, a primeira parte da trilogia concebida por Kevin Williamson (numa época em que elas não eram tão freqüentes) foi esnobada pelas distribuidoras, que só lançaram suas duas continuações em DVD. Alguém explica o esquecimento? Que tal uma caixa com os três filmes da série e mais um disco de extras?

Um drink no inferno
Na mesma situação do anterior. A alucinante aventura vampírica dirigida por Robert Rodríguez e estrelada por Quentin Tarantino, Harvey Keitel e Juliette Lewis nunca saiu em DVD, mas suas duas seqüências inferiores, sim.

Nashville
De Robert Altman, existe em DVD De corpo e alma, um dos piores momentos do mestre. Mas esta obra-prima, irônico e crítico painel sobre o universo da country music, não foi lançada nem em VHS. Mas tem a cara da Versátil. Indicado a quatro Oscars, incluindo Melhor Filme, ganhou o de Melhor Canção.

Descontruindo Harry
Apontado como o melhor trabalho de Woody Allen nos anos 90, síntese de toda sua carreira até então, com a já antológica piada do homem que literalmente fica fora de foco. Da mesma época, também de Allen, permanecem inéditos em DVD ainda Maridos e esposas, Neblina e sombras e Um misterioso assassinato em Manhattan.

Ondas do destino
Primeiro filme da bela e talentosa Emily Watson, pelo qual foi indicada ao Oscar, esta produção típica do Dogma 99 assinada por Lars Von Trier ainda não foi descoberta pelas distribuidoras. Outro com a cara da Versátil.

Drugstore cowboy
Um dos mais realistas e contundentes dramas sobre o universo junkie, que consolidou o estrelato de Matt Dillon e revelou a bela loirinha Heather Graham, foi rodado há exatos 20 anos. Por enquanto, só em VHS.

No mundo de 2020
Quase um clássico da ficção científica, este filme que marcou os anos 70 conta com ótima atuação de Charlton Heston como um investigador que descobre uma verdade sinistra num futuro sombrio da humanidade. Último trabalho de Edward G. Robinson.

Aniversário macabro
Nas prateleiras abarrotadas de filmecos de pseudo-horror, com sangueira e tortura gratuitas, ainda não há espaço para este segundo trabalho do mestre no gênero Wes Craven, inspirado em A fonte da donzela, de Bergman.

Zona de conflito
O ator Tim Roth mostra vigor em sua estréia na direção com este drama sobre a desestruturação familiar a partir de uma terrível descoberta feita pelo filho caçula. Traz a cena de sexo mais triste e deprimente da história.

Cabra marcado para morrer
Todos os documentários de Eduardo Coutinho estão disponíveis em DVD. Menos este, rodado em 1984 e que é apontado como uma verdadeira aula do gênero. Mais uma evidência da falta de memória para com o cinema nacional.

O colecionador
Polêmico e escandaloso quando de seu lançamento, nos anos 60, acabou esquecido pelo tempo e pelas distribuidoras. Adaptado de famoso romance de John Fowles, rendeu uma indicação ao Oscar para Samantha Eggar.

Pixote – a lei do mais fraco
Considerado o melhor e mais importante filme brasileiro dos anos 80, abriu as portas de Hollywood para Hector Babenco e Sônia Braga e pôs a nu a condição dos menores de rua no país. Não há justificativa para seu esquecimento em DVD.

A hora do show
Último grande filme de Spike Lee, que depois se perdeu em projetos equivocados e mais comerciais. Chega a incomodar com a contundência do discurso e a força das imagens de brinquedos de conotação racista nos créditos finais. Só existe em DVD na região 1.

Taken
Minissérie produzida por Spielberg que acompanha cinco décadas da vida de duas famílias cujos destinos são afetados pelos acontecimentos de Roswell. Já exibida duas vezes na Bandeirantes.

Cabaret
Um dos maiores vencedores do Oscar, com oito estatuetas (mas não a de Melhor Filme), o musical político de Bob Fosse também só existe em DVD na região 1.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Murilo Salles e os filmes esquecidos

Murilo Salles é um dos principais diretores brasileiros. Seus filmes foram premiados em festivais nacionais e internacionais. Seu último trabalho foi efusivamente saudado pela crítica e apontado como o melhor lançamento do ano passado. Nada disso, porém, sensibilizou qualquer distribuidora na hora de lançar sua obra em DVD. Inconformado com o pouco caso, resolveu bancar do próprio bolso a digitalização de alguns de seus filmes, contando apenas com o apoio da Riofilme para posterior distribuição. O resultado é a Coleção Cineastas Riofilme, que chega às prateleiras e lojas reunindo quatro títulos de Salles: Nunca fomos tão felizes (1984), Faca de dois gumes (1989), Como nascem os anjos (1996) e Nome próprio (2008), o único do lote a receber extras, com meia hora de cenas excluídas da montagem final – porque faltou grana para enriquecer de bônus os outros volumes da série, conforme explicou o diretor em entrevistas.

O ostracismo a que as distribuidoras condenaram Murilo Salles é um exemplo emblemático da tradicional falta de memória da sociedade brasileira em diversos campos. Na cultura, o problema é ainda maior. Pergunte às novas gerações se elas sabem quem foi Grande Otelo, Oscarito, Mazzaropi, Eliana – não a dos dedinhos da TV, mas a atriz da Atlântida, responsável por grandes bilheterias do cinema nacional. E estou me referindo apenas aos nomes mais conhecidos de uma época de ouro do cinema brasileiro. O que parece não ser suficiente para conferir-lhes a dimensão merecida. Procure nos sites de comércio eletrônico: você vai encontrar coleções de DVDs dedicadas a Sean Connery, Denzel Washington, Bruce Willis, Mickey Rourke – mas nenhuma coletânea de Grande Otelo, por exemplo. Sem desmerecer o trabalho e a importância desses atores no panorama do cinema norte-americano, claro, mas por que supervalorizar tanto artistas estrangeiros em detrimento de nossos próprios astros? Claro, há exceções. Existem disponíveis caixas com obras de Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, José Mojica Marins, sendo esta última considerada a melhor coletânea de um diretor nacional já lançada até hoje, graças ao primoroso trabalho de pesquisa e restauração dos filmes selecionados. Mesmo assim, é pouco perto do que deveria haver.

Chega a ser absurdo que um diretor como Humberto Mauro não tenha quase nada em DVD! Um dos pioneiros da aventura cinematográfica no Brasil permanece quase inédito no formato. As exceções ficam por conta de O descobrimento do Brasil, primeiro grande épico do cinema nacional, e uma coletânea de 11 curtas-metragens, reunidos em um único disco, ambos lançados pela Funarte em 2001, e que inclui o clássico A velha a fiar, também disponível no Youtube. Os dois títulos, porém, estão esgotados há anos e só podem ser encontrados para locação. De todo o modo, é pouco. Que tal restaurarem Ganga bruta, um dos maiores filmes brasileiros de todos os tempos? Existe uma cópia em VHS (da Sagres), bem como alguns outros filmes do diretor (Lábios sem beijos, Brasa dormida). Por que não se realiza um trabalho de remasterização para o formato de DVD?

Este esquecimento a que as distribuidoras relegam alguns diretores não atinge apenas os profissionais brasileiros. Em nível internacional, o país também anda mal servido nas locadoras. Somente agora, por exemplo, a obra de John Cassavetes está sendo lançada em DVD, pela Cinemax. É uma iniciativa muito bem-vinda, que permitirá ao cinéfilo brasileiro a oportunidade de conhecer o estilo daquele que é considerado o pai do cinema independente norte-americano. Mas ainda há um longo caminho a percorrer no trabalho de resgate de filmes e cineastas. (Continua na próxima postagem)