quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Os melhores de 2009

Vou abrir os trabalhos de 2010 da mesma forma como encerrei os de 2009: com uma lista. Numa época em que é comum pipocarem listas de melhores e piores, imagina se eu ia ficar de fora! Assim, relacionei os dez melhores filmes que vi no recém-encerrado ano. Não estranhem a presença de alguns títulos antigos na relação abaixo. Sempre seleciono o que assisti de melhor, independente de ser em cinema, DVD, televisão, mostra ou festival. Como sigo à risca a regra do cinéfilo – “filme novo é todo aquele que você ainda não viu”, o que engloba, portanto, produções de anos passados –, incluo tudo o que me agradou. Apenas, para manter um mínimo de critério, deixo de fora séries de televisão, ainda que alguma tenha me surpreendido mais do que muitos filmes.

Os dez melhores de 2009 para mim:

1- Somos todos diferentes
2- 500 dias com ela
3- O curioso caso de Benjamin Button
4- Anticristo
5- Simonal – ninguém sabe o duro que dei
6- Deixa ela entrar
7- A hora do show
8- Ganga bruta
9- O lutador
10- Um filme de ovos
Animação espanhola cheia de graça e humor, com história criativa sobre um ovo que tenta fugir de seu destino – a panela – e acaba liderando uma revolução entre seus pares. Vale conhecer.

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Escolher o pior é tão difícil quanto selecionar o melhor. E como toda moeda tem dois lados, não poderia me furtar a eleger os dez piores filmes que vi em 2009. Abaixo, as obras-primas da ruindade.

1- Amargo
2- O porão
Produção amadora que parece ter sido rodada por um grupo de amigos para baratear os custos. Cenografia paupérrima, muito sangue, elenco péssimo.
3- Eu sei quem me matou
Fundo do poço e fim de carreira para Lindsay Lohan. Não há retorno possível depois de trabalhar num lixo desses.
4- Perseguição assassina
Uma brincadeira de mau gosto com os filmes de psicopatas e o governo Reagan. Só mais um filmeco de sangueira explícita sem maiores recomendações.
5- Espertalhões
6- Memória de vôo
Documentário europeu sobre a criação de pombos-correio, treinados para competições esportivas continentais. Pelo tema, já se tem uma idéia de como o filme é vibrante.
7- As ruínas
8- Conceição – autor bom é autor morto
9- Samba-canção
Comédia mineira que tenta satirizar as dificuldades de se fazer cinema no país, mas sem qualquer qualidade. A julgar por esta fita, realmente não vale a pena financiar certas produções.
10- Gloss
Outra comedinha boba, sobre uma jovem russa que sonha ser modelo, cai na estrada e conhece figuras estranhas. É difícil dar um sorriso com essa história tão equivocada.

E quais serão as obras-primas, boas ou ruins, que o ano novo me reserva? Daqui a 52 semanas conto a vocês.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Os melhores filmes nacionais da década

Quem acompanha este espaço já percebeu que eu adoro uma lista. Não resisto mesmo! Seja para me servir de referência ou para comparar com minhas próprias preferências em determinado assunto. E o Segundo Caderno do jornal O Globo me forneceu mais munição no último domingo (13/12), ao publicar uma lista com os dez melhores filmes brasileiros da década que vem chegando ao fim. O júri foi formado por críticos de cinema e jornalistas da área cultural, entre eles Artur Dapieve, Marcelo Janot e Rodrigo Fonseca. O resultado final foi um interessante painel que resume bem o que de melhor se fez no Brasil nessa primeira dezena de anos do novo século.

O primeiro colocado, claro, foi Cidade de Deus (2002), que abriu as portas de uma carreira internacional para Fernando Meirelles e se tornou o filme brasileiro mais visto e comentado no exterior desde Pixote – a lei do mais fraco (1981). Entre os outros nove classificados, três são documentários: Edifício Master (2001), de Eduardo Coutinho, que terminou em segundo, Ônibus 174 (2001), de José Padilha, que fecha a lista, e ainda Serras de desordem (2003), de Andrea Tonacci, que, embora seja essencialmente documental, insere trechos ficcionais interpretados pelos próprios personagens da história que narra, a devastação de uma tribo indígena e a busca pelas origens do único sobrevivente. É também o único filme da dezena que não existe em DVD (alô, distribuidoras!), mas é exibido com freqüência na TV Brasil. Completam a relação de melhores da década: Tropa de elite (2007), também de Padilha – o único diretor a emplacar dois filmes na seleção – ; O invasor (2003), de Beto Brant; Cinema, aspirinas e urubus (2005), de Marcelo Gomes; Estômago (2007), de Marcos Jorge; O cheiro do ralo (2006), de Heitor Dhalia; e Lavoura arcaica (2001), de Luiz Fernando Carvalho.

Bem eclético, como se vê. Além destes, outros 42 filmes brasileiros lançados entre 2000 e 2009 foram lembrados, e o que me chama a atenção aqui é a ausência de alguns títulos que muitos dariam como certos em qualquer listagem do tipo. Por exemplo: Cidade baixa (2005), de Sérgio Machado, festivamente saudado quando de seu lançamento, vencedor do Troféu Redentor do Festival do Rio, eleito um dos dez melhores filmes daquele ano, foi apenas mencionado, terminando fora da seleção final. Será que não era tão bom assim? O mesmo aconteceu com Linha de passe (2007), de Walter Salles e Daniela Thomas, quase uma unanimidade entre os críticos, que, no entanto, preferiram “esquecer” a obra que ganhou prêmio de interpretação em Cannes (Melhor Atriz para Sandra Corveloni). Mais impressionante foi o esquecimento total relegado a O ano em que meus pais saíram de férias, que sequer foi citado! O grande vencedor do Grande Prêmio Brasil de Cinema não foi lembrado por nenhum dos jurados, provando que, quem sabe, não devia mesmo ser tão genial assim (e não é mesmo, trata-se de um filme bonito e sensível, mas longe de ser a obra-prima que muitos apregoaram na ocasião). Em compensação, houve quem votasse em Crime delicado, também de Beto Brant ,do qual, particularmente, tenho horror, não só pela proposta estética radical – e, a meu ver, errada – , mas sobretudo por desvirtuar completamente o romance original de Sérgio Sant’Anna. Lembraram também de obras bobinhas, como Houve uma vez dois verões e O homem que copiava, que, incensados à época do lançamento, não resistiram ao tempo, da mesma forma como não resistem a um revisão.

Não sei se Cidade de Deus é mesmo o melhor filme brasileiro da década. Não vou me animar a fazer uma lista semelhante. Em primeiro lugar, acho que ela está bem elaborada, bem representativa do que de melhor se fez no cinema nacional nesses dez anos. Em segundo lugar, as mudanças ocasionais seriam poucas. Eu tiraria Cinema, aspirinas e urubus (não gosto, acho um filme superestimado) e Lavoura arcaica (um filme belíssimo esteticamente, mas que se perde em seus excessos). No lugar, incluiria talvez O céu de Suely (terminou apenas entre os outros mais lembrados) e Simonal – ninguém sabe o duro que dei, uma verdadeira aula de documentário, e que também foi esquecido pelos votantes, não aparece nem entre os 50 melhores! Mas listas estão longe de serem perfeitas e, no final, servem para isso mesmo: gerar discussão. Ficou também uma curiosidade: muitos filmes de caráter mais popular, que contaram com grande divulgação na mídia, acabaram esquecidos e sequer foram citados pelos jurados. Casos de 2 filhos de Francisco, Meu nome não é Johnny, Os desafinados, Batismo de sangue e Cazuza - o tempo não pára, em que pese a inegável qualidade de alguns deles. Será que, daqui a dez anos, alguém vai se lembrar de Lula, o filho do Brasil?

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Com a proximidade das festas de final de ano, e a certeza de que grande parte das pessoas está com a cabeça nos panetones (não aqueles de Brasília) e nos foguetórios que anunciam o raiar de um novo ano, este blog dá um descanso, agradecendo a todos que o prestigiaram e por aqui passaram desde abril. Obrigado aos, creio, fiéis seguidores e eventuais leitores pela companhia. Volto no dia 6 de janeiro. Boas festas a todos!

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Clube dos pervertidos

John Waters é um dos raros cineastas que têm a coragem de criticar abertamente a hipocrisia e a falsa moralidade que encapam a sociedade norte-americana. E, a julgar por seus trabalhos, a cidade de Baltimore (onde se passam todas as suas histórias) é um antro de esquisitice e devassidão, habitada por um bando de tarados e desajustados. É a impressão que passa a quem assiste a Clube dos pervertidos, última e destruidora incursão do papa do cinema trash-alternativo, praticamente recuperando o fôlego do "bom e velho John" que não se via há muitos anos.
O diretor tem em seu currículo algumas das comédias mais insanas do cinema norte-americano, destacando-se entre elas o inqualificável Pink flamingos (1972). No entanto, desde que concebeu Mamãe é de morte (1993), parecia haver se rendido afinal ao sistema de Hollywood, abandonando seus roteiros ferinos e transgressores em nome da “decência” da indústria. Mesmo comportado, porém, ainda era possível identificar ali alguns traços contestadores típicos que fizeram sua fama. Seu filme seguinte, O preço da fama, mantinha o discurso timidamente atrevido, mas já não funcionou bem. A história parecia travada e pouco ou nada ali fazia lembrar o estilo agressivo do diretor. Será que um dos cineastas mais ousados e originais surgidos na América estaria afinal dominado pelo gosto médio dos grandes estúdios, caminhando a passos largos para a vala comum dos diretores certinhos e comerciais que tanto abundam por aí? Pois é, parecia. Com Clube dos pervertidos, no entanto, ele mostra que está mais vivo do que nunca.
Sylvia (Tracey Ullman) é uma quarentona sexualmente reprimida que vive com seu marido bem mais jovem e assanhadinho (Chris Isaak). Sua filha, Caprice (Selma Blair), que cumpre prisão domiciliar por crime contra a moral pública, é dançarina de um bar local e objeto de desejo de todos os homens da cidade por causa de seus seios gigantescos (exageradamente aumentados com silicone). Um dia, Sylvia sofre um acidente e bate com a cabeça, sendo socorrida por Ray Ray (Johnny Knoxville, o imbecil da série Jackass), um terapeuta sexual especializado em curar a frieza e a impotência das pessoas (sic). Com a transformação, Sylvia se torna uma ninfomaníaca e passa a querer transar com todos os homens que encontra, de todas as maneiras possíveis e imagináveis. Sua mãe, presidente da Liga Local Pela Decência e Bons Costumes, não se conforma com a situação e leva à filha para uma clínica de recuperação. A partir deste momento, a cidade se divide numa cruzada entre os puritanos, liderados pela velha que se escandaliza com tudo, e os liberais, representados por Ray Ray, que tem em Sylvia sua melhor publicidade.
O filme transpira a sexo por todos os poros, não livrando sequer os troncos das árvores da cidade, com seus nós desenhados de forma sugestiva nas cascas. Quando os personagens não estão fazendo sexo, estão falando em transar, e não há um único momento em que não haja uma cena envolvendo algum grau de perversão. Os puritanos “recuperados” por Ray Ray são todos carregados de taras e fetiches bizarros: um executivo que curte infantilismo, um casal que gosta de vomitar um no outro para obter prazer, um homem cujo maior prazer é defecar sem soltar descarga (e por isso é conhecido como “Bosta na privada”!) e por aí vai. Os mais engraçados, no entanto, são os amantes homossexuais que se tratam pelo apelido de “Ursos” (grandes, gordos e peludos) e formam uma grande família onde o sexo é a regra básica de convivência.
O filme é curto, mas tem um ritmo frenético, as piadas não param um minuto sequer. O humor não advém apenas das situações exageradas, mas sobretudo dos diálogos, carregados de termos chulos e grosseiros, que ficam engraçados pelo grau intrínseco de crítica que trazem em si. Afinal, Waters não tem papas na língua. Fala mesmo, deixa claras suas opções, ousa jogar na cara da conservadora e careta sociedade norte-americana o absurdo de sua falsa moral, onde guerra e violência são vistos como soluções e “afirmações” de virilidade, mas um debate acerca da sexualidade ainda é tabu e causa mal-estar. Também neste sentido, o filme diverte e pode até provocar discussões. Eu gostei muito, há tempos não assistia a uma comédia tão anárquica e corajosa. A ingênua trilha sonora tenta remeter aos filmes familiares e adocicados dos anos 50, sugerindo um clima de inocência que o filme se encarrega o tempo todo de desmentir. O elenco ainda traz as participações obrigatórias de vários nomes que já viraram figurinhas carimbadas nos filmes de Waters, entre elas a lendária Patty Hearst.
Um aviso: não é filme para todos os públicos. Quem conhece o diretor ou já teve algum contato inicial com sua obra saberá o que esperar deste aqui e vai se divertir bastante. Entretanto, quem procura um cartão de visitas de Waters deve começar por seus filmes mais acessíveis ou experimentar o anterior, Cecil bem demente. Espectadores mais sensíveis devem evitá-lo, e especialmente as mulheres podem considerá-lo ofensivo. Pena que a edição em DVD não traga qualquer extra além de trailers da distribuidora. Mas vale a locação. Arrisque-se e bom divertimento.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Sessão médica

Em virtude de uma cirurgia a que precisei ser submetido na semana passada, e cumprindo rigorosamente as ordens médicas que me prescreveram dez dias de repouso intenso, não postarei a coluna hoje. Contamos com vossa compreensão. Na semana que vem, retomamos com nossa programação normal.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Toma que o filho é teu!

Nunca antes nesse país houve um rebuliço tão grande envolvendo uma obra de ficção. A polêmica era inevitável, mas veio muito antes do esperado. Lula, o filho do Brasil só entra em cartaz em janeiro (ou mais brevemente, em uma barraquinha de camelô perto de você), mas já é alvo de críticas que extrapolam o aspecto meramente artístico da obra. Desde sua primeira exibição pública, na abertura do Festival de Brasília, na semana passada, em uma sessão superlotada e concorridíssima, o filme produzido por Luiz Carlos Barreto suscitou uma avalanche de comentários de quem o viu. E nem todos ligados diretamente às suas qualidades.

Envolto em polêmicas, o filme dirigido por Fábio Barreto (o mesmo de O quatrilho) chega sob a égide da suspeição. Seu lançamento em ano eleitoral é visto como uma disfarçada manobra para favorecer a possível candidata do partido de Lula à sua sucessão na presidência, a exma.Dilma Rousseff. Mesmo considerando o intervalo de mais de nove meses entre um evento e outro (as eleições ocorrem apenas em outubro do ano que vem), a força de um produto que narra a trajetória de vida de uma personalidade política já sedimentada por entre grande parte da população (aquela que recebe as bolsas-qualquer-coisa do governo federal?) não deixa de se constituir em uma formidável propaganda disfarçada. Essa constatação é tão mais conflitante se levarmos em conta o grande apelo popular do filme, moldado na mesma fôrma de outro sucesso de público, este mais recente, 2 filhos de Francisco. Pode-se argumentar que aquele filme não levou a um aumento da venda de CDs da dupla, não os tornou especialmente simpáticos a quem já não fosse fã antes e nem mesmo arregimentou novos admiradores depois que o filme ficou pronto. Mas não havia qualquer injunção política naquela produção. A grande questão que se ergue neste momento é: por que lançar em ano eleitoral um filme sobre a vida de um cidadão que ocupa a presidência da República, mesmo com todos os riscos implicados? Por que não segurar o produto por mais algum tempo, quando Lula já tiver deixado o cargo, conferindo-lhe – aí sim! – uma aura de tributo e homenagem não ao político que Lula ainda seria, mas ao cidadão brasileiro, cuja história de vida, por si só, já é forrada de um tom naturalmente épico?

Os jornalistas e críticos que assistiram ao filme também são unânimes em afirmar que, como cinema, Lula, o filho do Brasil perde muitos votos por sua opção narrativa. O que se vê na tela é mais uma tentativa de construção de um mito moderno do que uma biografia que abarca toda a trajetória política de Lula. Não existe um elemento que alinhave a história. As cenas parecem isoladas dentro de um conjunto, funcionando como breves esquetes episódicos da vida de Lula. Diretor e produtores confirmaram que a intenção era construir uma imagem mítica do homem, portanto, eliminaram várias passagens da vida do biografado. Evidentemente, aquelas menos edificantes e que certamente seriam mal vistas pela platéia que irá assistir ao filme. Qualquer fato desabonador da personalidade do personagem foi abolido ou cortado na versão oficial. Lula é apresentado como um herói, um homem de múltiplas qualidades, que nunca reclama, e, embora também nunca esmoreça diante dos percalços que a vida lhe impõe, consegue superar tudo com extrema facilidade. Quando sabemos que a coisa não é assim. A jornalista Isabela Boscov, da revista Veja, escreveu a melhor definição para a "saga" lulista: "A narração de Lula, o filho do Brasil é encadeada como a vida de Cristo, do nascimento na manjedoura à ressurreição gloriosa". O professor de Ética da Unicamp, Roberto Romano, declarou: "É uma imensa obra de bajulação ou de propaganda. Acho que as duas coisas".

Será que se Lula não fosse quem é, mas, ainda assim, tivesse certa relevância no panorama político nacional, haveria interesse em se fazer um filme sobre sua vida? Não vale dizer que sua história ganha relevo pela forma como ele conduziu sua vida, porque brasileiros que nascem pobres e alcançam postos de destaque na vida nacional existem aos montes. Eu poderia citar cinco ou seis de uma estirada, e isso não seria nem o começo. O que ocorre é que Lula saiu de uma quase indigência para o mais alto cargo de um país. Sua vida merecia um filme? Certamente. Há muitas lições a serem tiradas de sua luta? Obviamente que sim. Mas por que agora? Cheira a oportunismo, puro e simples, a mais espetacular jogada de marketing político já registrada nos anais da vida nacional. Filmes de propaganda de um governo são comuns em regimes totalitários, como a Rússia de Stalin, a Itália de Mussolini ou a Alemanha de Hitler. Como o Brasil não se enquadra nessa categoria, resta imaginar que Lula, o filho do Brasil ou é uma homenagem desenxabida ou uma estratégia eleitoral.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Salvem o cinema brasileiro!

Agora não tem mais jeito: Salve geral, de Sérgio Rezende, é o representante brasileiro na disputa por uma das cinco vagas finalistas ao Oscar de Filme Estrangeiro em 2010. Os indicados serão conhecidos em janeiro, um mês antes da premiação. Pelo terceiro ano consecutivo, a Ancine optou por uma produção que aborda o tema da violência urbana para representar o país no Oscar. Em 2007, o selecionado foi Tropa de elite, que ao menos carregava a láurea do Urso de Ouro do Festival de Berlim, mas isso de nada adiantou para a Academia no momento das nomeações, que não contemplaram a história do Capitão Nascimento. Ano passado, foi a vez de Última parada 174, de Bruno Barreto, que foi igualmente desprezado. Pelo visto, nossa Ancine não aprendeu nada com os erros anteriores. Será que o único modo de tentarmos abiscoitar aquele que é tido como o prêmio máximo do cinema é por meio de um filme que explore a violência urbana? Não é uma visão reducionista do cinema brasileiro?

É verdade que o ano não foi especialmente pródigo com o cinema nacional. Dos outros nove selecionados para disputar uma vaga, não havia nenhum que pudesse ser considerado efetivamente um grande filme. Feliz Natal, que marcou a estréia de Selton Mello na direção, talvez fosse a melhor escolha, por se tratar de um drama familiar humanista, gênero que sempre goza de muita simpatia entre os votantes. Além de conter qualidades estéticas que o credenciariam com autoridade para o prêmio. Saudado como uma obra-prima por um círculo restrito de críticos, o filme acabou se tornando mais conhecido por causa de uma cena de nudez da atriz Graziela Moretto, que teria desencadeado um amplo debate sobre a pertinência da nudez nos filmes brasileiros, proposto pelo namorado da atriz, Pedro Cardoso, que, bastante irritado, leu um manifesto a favor da moralidade e dos bons costumes na sétima arte. Mas, ao que parece, temas que abordem o universo familiar não são mesmo os preferidos da Ancine, que em anos anteriores já havia descartado O ano em que meus pais saíram de férias. Se nada mais der certo, de José Eduardo Belmonte, foi efusivamente saudado pela crítica, chegou amparado pela consagração do Troféu Redentor do Festival do Rio, mas não sensibilizou os diretores da agência. Besouro, de João Daniel Tikhomiroff, ainda em cartaz, poderia angariar um certo interesse da Academia pelo exotismo de seu tema – um capoeirista que se insurge contra as ordens tirânicas de um poderoso latifundiário, com elementos mágicos que o aproximam de O tigre e o dragão, outro filme estrangeiro que encantou a Academia – , mas não teve força necessária para conseguir ser indicado. O que leva a outra conclusão: para um filme ser indicado, não basta ser bom, é preciso que tenha um forte apelo popular e uma agressiva campanha de divulgação. O que a modéstia da produção de Besouro não cumpriu.

A festa de menina morta, mais uma estréia de ator na direção (aqui, Matheus Nachtergaele), pode ser visto como experimental demais para agradar ao gosto conservador dos velhinhos votantes. Além de possuir uma narrativa complexa, hermética (mas que diabos, não se pode ousar nada? Temos sempre de fazer o mesmo tipo de filme quadrado?). Jean Charles é um drama pontual sobre o brasileiro assassinado no metrô de Londres, e só mesmo nos sonhos mais ingênuos para acreditar que a história possa sensibilizar alguém no exterior – e daí que mataram um brasileiro, "cidadão de segunda classe, terceiro-mundista"? Só tem apelo para nós; o resto do mundo quer mais que nos danemos. Talvez fosse o título menos recomendado para disputar algum prêmio que não o de direitos humanos. O contador de histórias teria boas chances, trata de uma história real de superação. Budapeste foi mal de público, mas não vejo por que tenha sido preterido: é uma competente adaptação de um livro difícil. Também não vejo grandes qualidades em O menino da porteira, certamente só incluído na relação por absoluta falta de opções. O último dos dez pré-selecionados foi Síndrome Pinocchio – refluxo, um desconhecido filme de Brasília, sem maiores referências.

Parece que a herança deixada por Cidade de Deus ainda vai levar muitos anos até ser totalmente dilapidada. A fórmula de sucesso do cinema brasileiro é seguir a tendência. Enquanto histórias sobre a violência urbana estiverem no centro da questão, acho difícil que a maré mude. Uma pena, porque há muitos bons títulos nacionais que fogem a esse assunto e que poderiam perfeitamente representar o nosso cinema lá fora. Não é à toa que, em festivais paralelos realizados em vários cantos do mundo, a platéia se surpreende com a diversidade do cinema brasileiro. Provavelmente ela também já aprendeu a interligar que o cinema brasileiro caminha a passos estreitos com os temas de violência. Está na hora de repensarmos esse quadro.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Um lobisomem na Amazônia

Finalmente entrou em cartaz na última sexta-feira este que nem pode ser considerado o novo trabalho do cultuado Ivan Cardoso, porque demorou tanto para ser lançado que o diretor já realizou outro filme depois, O sarcófago macabro, concebido como o piloto de uma série de televisão que não vingou, porque nenhuma emissora se interessou pelo projeto (nem o Canal Brasil!). Mas o destino óbvio deste é o DVD. Enquanto isso, os espectadores podem conferir esta desvairada aventura que permanecia inédita nos cinemas até então.

Quem conhece ou já viu qualquer coisa do Ivan Cardoso sabe perfeitamente o que irá encontrar no cinema. O diretor é o único representante do gênero terrir em terras nacionais, e não tem intenção de mudar nada em sua forma de fazer cinema. Suas piadas e seus exageros vêm de longa data, desde O segredo da múmia (1982), passando por As sete vampiras (1986), quase um clássico em sua carreira, até aquela que considero sua obra-prima, O escorpião escarlate (1992), um filme hoje esquecido, mas que marcou época sobretudo pela agressiva campanha de marketing – na ocasião, alguém vestido como o personagem-título aparecia em diversos locais de aglomerações, convidando as pessoas a prestigiarem a história nos cinemas. O que não quer dizer que eu ache este um filme perfeito, longe disso. Na verdade, nem sou especial admirador da obra de Ivan. Acho seus filmes extremamente lentos, prejudicados pela montagem que lhes destrói o ritmo e trava a fluência narrativa. As interpretações são propositadamente caricatas, exageradas, como uma grande brincadeira, todo mundo se divertindo (mas o espectador pode não concordar com isso). Neste sentido, a exceção fica por conta de Herson Capri, o herói Anjo de O escorpião escarlate, onde ele se leva a sério e interpreta de verdade, ou seja, uma aberração para os padrões cardosianos de atuação. Também não me agradam os roteiros dos filmes, geralmente frouxos, com situações que nunca chegam a se completar satisfatoriamente. É o caso de uma idéia ser melhor apresentada do que desenvolvida. Mas assistir a um filme de Ivan Cardoso é, antes de tudo, um grande barato. E foi com este espírito que assisti a este lobisomem quando ele foi exibido pela primeira vez, dentro do Festival do Rio de 2005 – sim, o projeto ficou quatro anos engavetado até que uma distribuidora se dispusesse a lançá-lo em circuito.

Quem me convenceu a ir foi meu saudoso amigo Alan, cinéfilo de carteirinha, que era, ele sim, fã confesso do Ivan. Foi uma animada e histórica sessão à meia-noite no Odeon. O diretor precisou se associar a Diler Trindade, o mais requisitado produtor do cinema brasileiro da atualidade, para finalizar, em oito meses, um projeto iniciado há oito anos. Evidentemente não foi apenas esse o motivo da parceria. Diler produz filmes voltados para o grande público, para o consumo rápido das massas, não importando exatamente a qualidade artística do produto (são de sua cepa os últimos filmes da Xuxa e de Renato Aragão). E esta nova empreitada do mestre do terrir nacional se presta exatamente a isso, conforme ele mesmo resumiu na apresentação: “Cinema é diversão”. O filme segue a mesma linha dos demais produzidos por Diler, voltados ao público jovem, basicamente adolescente, que irá curtir esta fita recheada de nomes famosos, como Evandro Mesquita, Bruno de Lucca, Tony Tornado, não faltando, é claro, as gostosonas da vez, Danielle Winits e Karina Bacchi, que estão ali para gritar, mostrar os corpos (há rápidas e discretas cenas de nudez) e eventualmente demonstrar um certo esforço interpretativo. Outro destaque feminino é a presença de Djin Sganzerla, filha do falecido Rogério Sganzerla, um dos grandes diretores do cinema underground nacional. Ou seja, o elenco feminino, por si só, já justifica o ingresso e vale uma boa olhada. Há até uma aparição surpresa de Sidney Magal, que aparece cantando no papel de um deus inca (!!!), o que comprova que nada é para ser levado a sério. O melhor do filme são as inúmeras referências a diversos clássicos do terror e suspense, como Psicose (uma piada logo no início), O monstro da Lagoa Negra, A bruxa de Blair, A ilha do Dr. Moreau – este, aliás, serve como mote para o filme, imaginando que o enlouquecido doutor fugiu de sua ilha e se exilou na Amazônia brasileira, onde continuou suas experiências científicas – e evidentemente O lobisomem. O papel principal é interpretado pelo veterano roteirista e diretor espanhol Paul Naschy, com um visual parecido com o Dr. Xavier de X-Men (mais uma referência). Ele é o único que parece conferir seriedade ao seu papel, ao passo que Nuno Leal Maia está impagável como um dos investigadores; são dele os melhores diálogos e as cenas mais engraçadas. No entanto, o filme padece dos mesmos defeitos das outras fitas de Ivan Cardoso: o roteiro fragmentado, picotando a ação, muito palavrório explicativo. Estes defeitos são tão exagerados quanto as boas intenções, a ponto de fazer com que a duração do filme pareça maior do que os 75 minutos. De qualquer maneira, é um filme espirituoso, debochado, perfeito para uma sessão pipoca. O público entendeu o espírito e aplaudiu freneticamente ao final.

A sessão foi amplamente divulgada como um evento especial do festival, e houve um momento de interatividade que se tornou clássico, inesquecível para quem testemunhou, entrando para o folclore da mostra. No meio da projeção, a platéia foi surpreendida pela aparição de um lobisomem “de verdade”, que atacou uma espectadora. Outra brincadeira dentro do espírito de gozação e galhofa típicos do cinema de Ivan Cardoso. É claro que essa brincadeira não irá se repetir agora, com o filme em cartaz. Uma pena.