quinta-feira, 28 de março de 2013

No escurinho da Semana Santa


Antigamente, a Semana Santa era uma data que chamava ao recolhimento e à reflexão. Os cristãos aproveitavam a oportunidade para se encerrarem em retiros espirituais enquanto se mantinham longe dos diversos prazeres mundanos. É claro que a essência da Semana Santa se desvirtuou e hoje ela é apenas mais um feriadão que as pessoas aguardam com ansiedade para poderem desfrutar de quatro dias de sol, mar e chocolate. Mas há outra tradição relacionada à data que se mantém ao longo dos anos. Nessa época os canais de TV sempre exibem algum filme sobre a vida de Cristo ou que tenha alguma relação com as histórias bíblicas. As locadoras estão abarrotadas de ótimas opções, mas vale destacar algumas, para quem quiser curtir o feriado prestigiando a Sétima Arte, entre uma oração e um pedaço do ovo da Páscoa.

BEN HUR - Não trata diretamente da vida de Cristo, mas a Semana Santa é um período perfeito para conhecer ou rever este que é um dos grandes filmes de todos os tempos, clássico absoluto, detentor de 11 Oscars. Épico em todos os sentidos da palavra. A famosa seqüência da corrida de bigas envolveu mais de 8.000 figurantes e levou 94 dias para ser rodada. Hoje seria facilmente refeita em computador, o que torna o resultado visto aqui ainda mais impressionante.

A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO - Uma das obras-primas menos lembradas de Martin Scorsese, este filme ficou marcado pela polêmica à época de seu lançamento, no final da década de 80. Condenada pela Igreja Católica, que não gostou de ver as dúvidas existenciais de um Cristo inseguro de sua missão, a fita foi alvo de boicote em vários países ao redor do mundo, inclusive no Brasil, onde foram registrados piquetes nas portas dos cinemas que a exibiam. Mas o filme nada tem de blasfemo nem trata a figura de Cristo com o propalado desrespeito, ao contrário, é sempre reverente. Mas Scorsese colheu mais louros que espinhos, e por este trabalho recebeu sua segunda indicação ao Oscar.

A PAIXÃO DE CRISTO - Nunca se viu uma historia sobre Jesus contada com tanto sangue e violência quanto nessa igualmente polêmica (mas por outras razões) versão de Mel Gibson. O diretor se defendeu, alegando que estava sendo o mais fiel possível às escrituras, segundo as quais Cristo teria sofrido barbaridades de fato. Porem, o que se vê na tela é um exercício de sadomasoquismo exagerado e apelativo. Campeão mundial de críticas negativas, mesmo assim bateu recordes de bilheteria e foi agraciado com três indicações ao Oscar, uma delas inexplicável, para a maquiagem, que é visivelmente deficiente. Saiu depois em uma caprichada edição dupla em DVD.

JESUS DE MONTREAL - Um pouco diferente dos demais por não apresentar uma encenação tradicional da história de Cristo. Neste filme do futuramente premiado canadense Dennis Arcand (de As invasões bárbaras), uma trupe teatral encena a vida do Messias e passa a enfrentar sérios problemas quando o diretor surta. O terço final do filme, em que a trupe encena a vida de Cristo pelas ruas de Montreal, é um dos pontos altos da narrativa.

A MAIOR HISTÓRIA DE TODOS OS TEMPOS - Há pelo menos três filmes com o mesmo título ou subtítulo no mercado nacional. Este aqui é a superprodução dirigida por George Stevens em 1965, quando Hollywood se esmerava em produzir espetáculos visuais sérios, voltados a uma platéia mais adulta, sem as parafernálias técnicas que hoje entretém o público mas disfarçam a fragilidade de sua realização. Custou 20 milhões de dólares, uma quantia espantosa na época, e recebeu cinco indicações ao Oscar (mas perdeu em todas). No numeroso elenco, destaque para Max Von Sydow e Carroll Baker.

GOSPEL ROAD - A STORY OF JESUS - É no mínimo uma grande curiosidade ver essa versão da vida de Cristo narrada pelo cantor Johnny Cash, quando ele estava em sua "fase negra". Também produtor e roteirista, Cash vai contando passagens bem conhecidas da história bíblica, como o julgamento da adúltera, a tentação no deserto, as criancinhas, até chegar logicamente à crucificação. Ele alterna o texto declamado com algumas canções de inspiração religiosa, muitas de sua autoria, enquanto atores desconhecidos representam dramaticamente os momentos em questão. O próprio diretor do projeto, Robert Elfstrom, interpreta Jesus, e June Cash faz Maria Madalena - é dela, aliás, o melhor momento musical, entoando "Follow me". Filmado em locações autênticas em Israel, tem belas imagens, mas um hibridismo de gêneros que gera resultado insatisfatório: não conta uma história de forma tradicional, não funciona como documentário, nem é bem um musical. Mas é sempre respeitoso e reverente à figura de Cristo. Fãs de Cash e católicos fervorosos, porém, vão gostar bastante.

A VIDA DE BRIAN - Um dos grandes momentos do grupo Monty Python, embora não seja o meu favorito deles. Os três reis magos erram o caminho para a manjedoura e, sem querer, vão parar na casa de Brian, que nasce no mesmo dia e na mesma hora que Jesus Cristo. Ao longo da vida, ele será constantemente confundido com o Criador. Os cristãos mais radicais não gostam dessa versão bem-humorada e a acusam de ser blasfema, mas a verdade é que em momento algum a figura de Cristo é ridicularizada, muito ao contrário. A graça é justamente acompanhar as peripécias por que passa o pobre do Brian.

MARIA - Delírio de Abel Ferrara sobre uma atriz de televisão que interpreta o papel da Virgem Maria e passa a confundir ficção e realidade. Variação de um tema já explorado outras vezes, com resultado confuso, passou quase em branco nos cinemas e nem chegou a causar tanta polêmica. Mais uma boa presença de Juliette Binoche, conferindo dignidade ao papel título.

JE VOUS SALUE, MARIE - Essa provocação de Jean Luc Godard também foi proibida no Brasil por ordem expressa do então presidente José Sarney (que depois voltou atrás e retirou o veto). Como sempre, o diretor francês abusa de metáforas e simbologias para contar a história, em que Maria e José são trabalhadores comuns (ela jogadora de basquete, ele taxista) e cujo filho é uma criança comum, sem qualquer dom espiritual especial. A edição em DVD, curiosamente, não traz o curta-metragem que acompanhava o filme quando lançado em VHS.

O MANTO SAGRADO - Outra produção classe A, dos tempos em que Hollywood gastava mais dinheiro com idéias do que com efeitos especiais e tecnologia 3D. Uma visão diferente da vida de Cristo, a partir da história do Santo Sudário e sua guarda por um escravo romano até ser usado para cobrir o corpo do Salvador crucificado. Indicado a cinco Oscars, incluindo melhor filme, ganhou os de Figurinos e Direção de Arte.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Doce transgressão

Sweet movie (1974)
A primeira impressão é a que fica, diz a sabedoria popular. Isso vale também para o cinema. Quando descobri este Sweet movie, o efeito que teve sobre mim foi tão impactante que até hoje, cerca de 10 anos após tê-lo visto pela primeira e única vez, me lembro de quase todas as suas cenas, alguns diálogos e até algumas musiquinhas entoadas ao longo do filme. Uma impressão inicial que justificou as cinco estrelas que conferi a ele e que traduz muito bem a expressão "experiência cinematográfica” que uso de vez em quando. Posso dizer que ninguém sai ileso depois de assisti-lo, ainda que por duas vias clássicas: ou se ama, ou se odeia.

Dirigido em 1974 por Dusan Makavejev, que mais tarde faria Montenegro - pérolas e porcos, o filme é uma lenda. Anos antes de descobri-lo, lembro de ter lido uma nota rápida em um jornal a respeito do festival de escatologia e absurdos que permeiam a trama. Acontece que o filme nunca havia sido lançado no Brasil até então, o que só aguçou minha curiosidade. Em 2004, saiu em DVD, em uma edição bem limitada por uma distribuidora pequena e já falida, MovieStar, o que me tornou possível tomar conhecimento dessa obra tão controvertida. As polêmicas de fato fazem sentido. Ainda que se aproxime seu quadragésimo aniversário e o mundo tenha mudado bastante, o filme ainda choca, de verdade, embora há quem o ache datado.

O barco: delírio flutuante.
Simplificando ao máximo, a história se passa em 1984 e acompanha duas mulheres: uma jovem, eleita Miss Mundo, e a comandante de um navio de açúcar que atrai os homens com suas idéias revolucionárias e suas canções de guerra. As duas histórias se completam, mas não se cruzam; o conjunto de idéias expostas nos dois segmentos é que faz a unidade do filme. Bom, mas este é só um resumo altamente bem-comportado e que não indica nada. Fácil dizer que na época de seu lançamento, o filme era provavelmente a mais violenta mensagem libertária e anti-inconformista que o cinema já ousara propagar, e tenho para mim que ele manteve seu vigor mesmo após tantos anos. Makavejev, um dos grandes nomes do cinema eslavo, quebra todas as regras existentes, em todos os sentidos. A narrativa é fragmentada, mas bastante compreensível, alegórica, toda envolta em uma infinidade de metáforas e manifestações surreais, nas quais reside muito de sua força. Há basicamente três molas-mestras no filme: sexo, comida e poder. Estes três elementos estão intrinsecamente ligados, e é preciso compreender a profunda ligação existente entre eles, bem como seus significados em um contexto simbólico, para compreender as engrenagens da história. Há toda uma leitura psicanalítica por trás dos excessos. Nada é gratuito, ainda que por vezes as situações possam soar forçadas, sem sentido. Tudo tem uma explicação, camuflada em um complexo jogo de simbolismos e ironias.

O filme é tecnicamente irretocável, desde a inusitada trilha sonora (uma característica dos filmes eslavos, a música é sempre muito alegre, vibrante, dando apoio preciso às cenas) até os detalhes da decoração do navio comandado pela solitária guerrilheira. A criatividade de algumas soluções combina-se adequadamente com a poesia fatalista e melancólica de outras, como em dois momentos antológicos: a mulher embutida dentro da mala e a sedução das crianças pela guerrilheira ao som de música clássica. Cinema em estado puro. Apesar da genialidade de tais seqüências, elas terminam por se constituir em momentos isolados dentro do turbilhão de excessos sexuais e escatológicos que surgem na maior parte do tempo.

Esse delírio visual de Makavejev poderia ser classificado como um “pornô político-escatológico”. Há nudez total e frontal de atores e atrizes, freqüente e abundante. Mas vale o lembrete: o sexo apresentado é destituído de qualquer erotismo. Ao contrário. Não acho que seja fácil ficar excitado com o que se vê na tela, principalmente se levarmos em conta o que foi dito mais atrás, ou seja, a alegoria e o simbolismo das representações suplantam em profundidade as conotações eróticas que a história possa conter. O sexo é usado como arma poderosa no combate à uma sociedade capitalista e acomodada com situações estabelecidas e aceitas em nome de uma pretensa “normalidade” (repare na letra da segunda canção, que cita as alegrias da vida).

Sexo e chocolate: prazer de um e de outro.
Este combate alcança seu momento crucial na longa seqüência do jantar, cerca de 20 minutos ininterruptos, quase no fim do filme. Não dá para descrever para não diminuir o choque, mas, a menos que minha memória me traia, não lembro de ter visto nada parecido no cinema, descontando, obviamente, as bobagens sanguinolentas etiquetadas como "terror" de hoje em dia. Na verdade, encontro um paralelo semelhante no banquete de A comilança, do Marco Ferreri. Mas este aqui supera o delírio gastronômico daquele filme. É uma passagem especialmente perturbadora, insana, doentia, que pode levar os espectadores mais sensíveis a desligarem o aparelho. Não há concessão: ela incomoda, provoca, testa todos os nossos limites. Quem suportar, porém, compreenderá todas as questões propostas pelo filme e entenderá o motivo de tanta polêmica. Saberá também porque o filme virou objeto de culto para um certo tipo de platéia.

Apesar da ironia do título, o filme nada tem de doce ou agradável. E pode mesmo ser amargo ou difícil para muitos espectadores. No entanto, assisti-lo é, de fato, viver uma dessas experiências únicas que o cinema nos proporciona. Abra sua guarda e prove Sweet movie. Pode ser uma delícia.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Animais urbanos

A dama enjaulada (1964)

Eu tenho claustrofobia. Em sentido restrito, isso quer dizer que não uso elevadores. Abro exceção para o do prédio onde moro, creio que mais por hábito e, ironicamente, por ser daqueles antigos, de grade (o nome correto do sistema é porta pantográfica). Os elevadores modernos podem ser teoricamente mais seguros, mas não há quem me faça entrar naquelas caixas de aço, verdadeiras arapucas hermeticamente fechadas. Então, qualquer filme que use um elevador enguiçado como cenário já me causa arrepios antes mesmo de assisti-lo. Ainda que seja um doméstico, usado para locomoção interna. Pois é essa a idéia inicial de A dama enjaulada, um dos mais absorventes exercícios de suspense que já vi, e não exatamente pelo ponto de partida. Toda sua realização é notável.

A velha senhora Hillyard tem dificuldades para se locomover por conta de uma recente operação na bacia. Assim, é por meio de um pequeno elevador que sobe e desce as escadas de sua mansão. Em uma bela e quente manhã, o maquinário para de funcionar por conta de um curto-circuito. Ela aciona a campainha de alarme externo, mas só consegue chamar a atenção de um vagabundo que passa pela rua na hora. Ele descobre um mundo de riquezas, leva alguns objetos e retorna com a amiga prostituta. A ação da dupla é acompanhada por três delinqüentes, fugidos de um reformatório, que invadem  o local e promovem uma desconcertante espiral de torturas e violência. Primeiro enjaulada por entre as grades do elevador, e depois imobilizada pela altura, Mrs. Hillyard assiste a tudo angustiada pela inércia, sabendo que suas horas podem estar contadas.

Mrs. Hillyard (Olivia de Havilland): madame passarinho.
Há inúmeras qualidades no filme, a começar pelos ótimos créditos de abertura, que parecem ter sido inspirados por Saul Bass, dos clássicos de Hitchcock, justapondo-se a imagens de um exterior radiante de luz amparadas por uma trilha sonora climática. A direção de arte do veterano Hal Pereira (em dupla com Rudolph Sternard) faz da mansão quase um personagem à parte - na verdade, o único ambiente mais explorado é a sala, em que ocorre a maioria das ações. O roteiro é uma obra-prima de ousadia e foi escrito por Luther Davis (de O mercador de ilusões, 1947, com Clark Gable e Deborah Kerr, alguns episódios da série Combate), também produtor, que conjuga doses iguais de suspense e sátira social. A direção é de Walter Grauman, de larga experiência em telesséries (Os intocáveis, Steve Canyon, Barnaby Jones, mas que fez pouco cinema e nada notável na carreira, este foi seu ponto alto), que arranca desempenhos memoráveis de todo o elenco.

Mas o grande mérito da fita é mesmo seu roteiro, de uma crueldade extrema e muito rara de ver, e que permite duas leituras distintas, porém convergentes em sua complementaridade. A primeira é que se trata de uma metáfora sobre a falência do capitalismo, cujo sistema estrutural é literalmente invadido e "destruído" pelas classes menos favorecidas. Assim, a opulenta Mrs. Hillyard, enquanto assiste impotente à devastação de sua propriedade por um bando de arruaceiros, representa toda uma classe dominante, literalmente engaiolada e indefesa diante da revolta dos bárbaros historicamente subjugados. Outra leitura possível aproxima o roteiro da alegoria imaginada por George Orwell em A revolução dos bichos, sustentada pela idéia central daquela obra: "Alguns animais são mais iguais do que outros." É nesse sentido que, mesmo enjaulada, vendo do alto a dilapidação de seu império sem ter como impedir, Mrs. Hillyard grita para um dos invasores: "Seus monstros! Vocês são animais!" E, de fato, o comportamento descontrolado dos três infratores serve para aproximá-los o tempo todo da animalidade, desvirtuando quaisquer traços humanos que possam carregar. De sua gaiola improvisada, a rica senhora tenta se manter, literalmente, vários níveis acima da escória, dos "animais", sem perceber que, naquela situação, ela é tão animalizada quanto qualquer um deles. A diferença é que ela, civilizada, domesticada, está "na jaula",  enquanto os "selvagens" ficam soltos, depredando seu território. Alguns são mais iguais por pertenceram a uma casta economicamente mais bem-aventurada. E se os "animais" da casta inferior resolvem se rebelar? Haverá salvação?

James Caan (dir.): jovens, loucos e marginais.
Este aspecto da animalidade é sublinhado pela indiferença com o que o mundo exterior percebe as ações ocorridas na casa: há um drama se desenrolando, mas ninguém liga, todos só querem saber de pegar a estrada e aproveitar o feriado dourado pelo sol. Mesmo quando a ação escapa para o quintal da casa, à vista de todos, pouco há de humanidade em quem se dispõe a assistir a cena. No fundo, somos todos animais, apenas socializáveis por força das convenções, que nos iguala e nos amansa. Nesse ponto, há uma terceira camada de compreensão do roteiro. Onde está a violência maior: dentro da casa, por meio de invasões e ameaças, ou fora, no "mundo real", frio e indiferente ao drama de um semelhante, onde cada um só vê o nariz reluzindo no horizonte, chamando a uma boa preguiça? O mundo é um lugar violento. E essa violência vista e sentida todos os dias talvez seja muito maior do que a vivenciada por nós, individualmente.

A veterana Olivia de Havilland, já detentora de dois Oscars, empresta uma natural veracidade à dama enjaulada. Contrapõe-se a ela o estreante em cinema James Caan, até então ator de séries de TV, que faz misérias como o líder do bando de delinqüentes, em composição assustadora. Completam o elenco com ótimas atuações Jennifer Billingsley, o dominicano Rafael Campos (como os outros marginais), Jeff Corey (o vagabundo que acaba sendo o alvo preferido do trio) e outra veterana, Ann Sothern, como a prostituta gorda.

A edição lançada em DVD pela Paramount Collection é lamentável e não traz sequer o trailer original como extra.

quinta-feira, 7 de março de 2013

50 tons de leitura

Cinqüenta tons de cinza (Intrínseca)

No texto "Os tons do erotismo", publicado aqui no ano passado, escrevi sobre o fenômeno editorial da Trilogia Cinqüenta Tons baseado em informações publicadas na imprensa, já que eu ainda não havia lido nenhum dos livros em questão. Na ocasião, admiti que um dia, quando não tivesse nada muito urgente para ler, poderia me dedicar à leitura da obra, para fundear uma opinião avalizada. E agora, depois de ter devorado as quase 500 páginas de Cinqüenta tons de cinza (ganhei um exemplar de presente nesse começo de ano), sinto-me à vontade para escrever com conhecimento de causa sobre a obra que ainda vem causando frisson no mercado editorial brasileiro, rendeu capas de revistas importantes, virou debate em programas de televisão de baixo nível... Enfim, tornou-se impossível ficar indiferente a ela.

É fácil saber porque o livro causou tanto alvoroço nos círculos e mídias sociais. A imprensa teve um papel significativo nesse processo, uma vez que preferiu destacar com estardalhaço o aspecto sadomasoquista da história e simplesmente esqueceu de descrever o livro no que e como ele é em essência: um romance como qualquer outro, apenas pontuado por cenas e descrições sexuais pouco ortodoxas. Que, na verdade, são em número muito menor do que se alardeou, ocupando no total pouco mais de 30 páginas. O resto é falação, papo furado para encher lingüiça (com trema mesmo, já falei, esse Acordinho ridículo que vá pro saco, no meu blog não!). Se não empolga em momento algum, também não chega a aborrecer, mas é preciso ter em mente que se trata de literatura popular, e, portanto, sem preocupação com estilo ou alta qualidade de escrita. É livro que atiça a curiosidade, e nisso já cumpre um papel admirável, o de fazer com que as pessoas leiam!

Até quem não leu o livro sabe de que trata a história. A jovem virgem Anastasia Steele, de 20 anos, acabou de se formar em Letras quando é designada pela amiga Kate Kavanagh para entrevistar um empresário multimilionário, Christian Grey (o jogo de palavras do título é justamente usar o sobrenome do ricaço, Grey, que se pronuncia "grey", como "cinza", no original). Por um desses inexplicáveis mistérios da alma humana, os dois se encantam mutuamente, sem que haja qualquer motivo real para isso, mas somente algum tempo depois irão se dar conta. Então, Grey, que tem a seu favor as facilidades que só muito dinheiro pode garantir, passa a perseguir Anastasia de todas as formas, inclusive aparecendo na loja de materiais de construção em que ela trabalha para comprar acessórios que usará como brinquedos eróticos (sic). Grey é o sonho de toda mulher: jovem (tem menos de 30 anos), dono de um vasto império empresarial, lindo, perfeito. Mas tem um defeito que se revelará com o tempo: tem uma estranha preferência sexual. Gosta de jogos de dominação, o que já transparece em sua obsessão por controle. De repente, Anastasia se vê arremessada em uma encruzilhada emocional: ao mesmo tempo em que assume seus confusos sentimentos por Grey, tenta fugir do universo de perversão e sugerida violência que ele aprecia.

Leitoras da série: é preciso ler para criticar.
Como E. L. James é fã confessa da "saga" Crepúsculo, é fácil perceber características semelhantes entre os personagens daquela e desta série. Anastasia Steele é uma versão adulta de Isabella Swann: muito branca, desengonçada, insegura, e extremamente tímida; nesse particular, aliás, chega a irritar a quantidade de vezes em que ela "enrubesce" ao longo da narrativa. Se Grey lhe dá um sorriso, ela enrubesce; se ela pensa em um contato físico mais íntimo, enrubesce; se a amiga com quem divide alojamento lhe faz uma pergunta mais incisiva, enrubesce; se abre a janela e vê o sol nascendo, enrubesce... Enquanto isso, Christian Grey faz às vezes de Edward Cullen: está sempre perto de Anastasia, aparece quando ela menos imagina, e a única diferença para seu similar vampírico é que ele não só deseja ardentemente sua presa, mas também concretiza seus instintos reprodutivos. Nesse quadro, caberia ao pobre fotógrafo José, amigo de Anastasia, o ingrato papel relegado ao lobinho Jacob, aquele que deseja a heroína em segredo mas não tem chances.

O maior problema de Cinqüenta tons de cinza é a construção de uma atmosfera narrativa que seja minimamente verossímil para conquistar o leitor mais exigente. As limitações da autora estão escancaradas a cada página. Ela não sabe expandir a galeria de situações que poderia render tramas paralelas interessantes, como um suposto romance entre Kate e Elliot, o irmão de Grey, que é forçado e muito mal apresentado. O foco no casal central torna-se cansativo pela própria estrutura do romance: Anastasia se debate entre o desejo de ser possuída e o medo do novo mundo que lhe é apresentado por Grey; entre um e outro, ela se entrega até de forma passiva e fácil demais para uma mocinha que passa a imagem de ser a ingenuidade em pessoa (e sempre enrubescendo por tudo e por nada). Os capítulos se alternam entre a concretização dos desejos e a dúvida atroz que atormenta a cabecinha da heroína. E é claro que há um mistério no passado de Christian Grey, que será, deduz-se, melhor explorado nos volumes seguintes da série, mistério esse que pode explicar seu comportamento e suas preferências.

Curiosamente, os dois aspectos mais polêmicos do livro me pareceram muito barulho por nada. As feministas queriam o fígado da autora por reproduzir em Anastasia Steele um modelo de comportamento feminino ultrapassado e hoje considerado até ofensivo, o da mulher submissa que espera o seu príncipe encantado. Bom, devo ter lido outro livro, porque não foi isso o que eu vi. Ao contrário, de submissa Anastasia nada tem, é uma garota do seu tempo, antenada com o ritmo de vida das jovens de hoje. Recém-formada, busca emprego (e consegue, meio da noite para o dia, em uma das editoras mais importantes do país), tem um carro, quer ser independente, ou seja, mais atual impossível. E não se entrega logo aos caprichos de Christian Grey, resiste, apaixonada sim, mas não se curvando, deixando clara sua posição naquele teatrinho que ele quer armar. Onde está a mulher antiquada nisso? Talvez no fato de se apaixonar, já que hoje as mulheres miram tanto em uma carreira profissional que deixam os assuntos do coração de lado. E a abordagem do sadomasoquismo e do BDSM, apontados como escandalosa pela crítica, é absolutamente inicial, a autora nem chega a se aprofundar no assunto. Há, sim, o tal contrato de submissão que Grey entrega a Anastasia, com as regras que ela deve seguir para ser sua escrava oficial, ao qual ela se recusa, por considerar abusivo. Ela também se aborrece com o fato de Grey lhe pagar roupas, lhe presentear com itens caros  - primeiro um laptop de última geração, depois um carro novo último tipo. Ou seja, recusa ser o troféu de uma conquista, recusa ser a mocinha incapaz de se virar por conta própria. Onde está a submissão feminina?

Autora e obra: sucesso editorial.
Que E. L. James escreve má literatura é evidente, e essa discussão não cabe aqui. Porém, há inúmeros outros exemplos de autores ruins, que escrevem até pior do que ela, e que seguem vendendo barbaridades nas livrarias, sem que ninguém os ataque com a mesma violência. Por acaso Nicholas Sparks é um virtuoso do romance? Ou será que todos gostam de seus livros porque são sexualmente assépticos? Pode-se gostar ou não de determinado livro ou autor; porém, condenar uma obra e seu criador simplesmente por ir de encontro ao que se convencionou chamar de senso comum, "agredindo" a moral de um público médio escravizado e lobotomizado por BBBs, novelinhas e espetáculos de selvageria vendidos como esporte, é sintoma de um pensamento fascista. Achei fraco, mas a parabenizo pela ousadia de discutir fantasias que muitos leitores devem ter, mas não têm coragem de assumir em público. Condenar a autora é querer, de certa forma, manter intocados certos tabus sociais, é fugir do debate.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Oscar 2013 (final) e Framboesa de Ouro


Acertei o principal prognóstico do Oscar 2013: errei quase todos os palpites que dei. Foi disparado meu pior desempenho em todos os tempos, apenas 3 acertos (em 24 categorias!), um vexame que pode levar muitos leitores eventuais a acharem que o articulista não entende nada de cinema. Mas o desastre tem uma explicação: pus muito coração nos meus palpites, optei por marcar muito da minha torcida e deixei de lado o aspecto racional do jogo. E todo mundo sabe que em bolão (seja de cinema, seja de futebol) o que vale é a razão.

Mas foi mesmo um Oscar meio estranho. O filme vencedor não foi o mais premiado da noite (não é comum, embora venha se observando com freqüência nos últimos tempos), nem legou prêmio ao seu diretor (foi apenas a quarta vez que isso aconteceu), categoria técnica com empate (aí sim foi inédito, embora empates já tenham ocorrido nas categorias de interpretação, a última para Melhor Atriz em 1969). Outros ineditismos foram legais de ver. Daniel Day-Lewis tornou-se o primeiro ator a ganhar três vezes o Oscar na categoria principal (e se igualou em prêmios com Jack Nicholson, que ganhou uma vez como coadjuvante, e Walter Brennan, que só venceu como coadjuvante). E Tarantino finalmente levou sua segunda estatueta para casa, agora sem dividir os méritos com ninguém (ganhou por Pulp fiction - tempo de violência em 1996, em parceria com Roger Avary). Mais do que merecido. A ironia - e provavelmente vão querer me apedrejar pela opinião - é que ela veio justamente por seu filme mais fraco. Django livre é desnecessariamente longo, prejudicado por ter vários finais (a gente espera que acabe ali e continua), um ritmo claudicante no longo entrecho passado na mansão de Leonardo Di Caprio que derruba o filme, e violência excessiva, mesmo que ela seja comum nos filmes do diretor. Talvez seja o primeiro filme de Tarantino em que o excesso de sangue na tela me incomodou, não tinha aquela leveza e gaiatice de seus trabalhos anteriores e com as quais já nos acostumamos (aquela luta dos mandingos na sala do Di Caprio, o que é aquilo? E o ataque dos cachorros? Sinceramente, um pouco acima do que posso suportar, pela gratuidade). Mas ele merecia há tempos, agora é esperar que se consagre definitivamente como realizador e leve um Oscar de direção - e já abro a aposta, o próximo filme dele que for indicado sairá vencedor. Christoph Waltz "roubou" o Oscar de Coadjuvante de Tommy Lee Jones, mas qualquer um que levasse ali seria merecido. Duro de engolir foi mesmo Jennifer Lawrence ganhando um Oscar ainda precoce, a meu ver. Não está bem em O lado bom da vida, pode ser uma intérprete de futuro, mas ainda não convence. Futuro que parece ter chegado para Anne Hathaway, que, graças a uma única cena, engoliu suas concorrentes - mas ainda acho que foi mais uma decisão política do que por méritos, aliás,como há tantas no Oscar.

O grande derrotado da noite acabou sendo Lincoln, que só levou dois Oscars dos 12 a que concorria. E não é que Spielberg perdeu o que já parecia certo? Será que a Academia gosta tanto assim de As aventuras de Pi ou do Ang Lee? Acho o filme fraco e não lhe daria mais do que dois prêmios. E nunca vi um Oscar de Canção tão anunciado quanto foi o de Adele. Certo, ela teve a desculpa de se apresentar em uma homenagem aos 50 anos da franquia James Bond, mas ficou meio evidente que levaria o prêmio, não? O elenco de Os miseráveis defendeu com brilho a música concorrente, mas a apresentação acabou se perdendo em meio a outras dos musicais da última década. E por que não deixaram o Seth MacFarlane defender a sua?

No fim, a vitória de Argo acabou sendo justa. É um ótimo filme, tenso, bem montado - e a senha para saber que ele seria o premiado veio com os Oscars de Montagem e Roteiro Adaptado, raramente o vencedor deixa de sair vitorioso em uma dessas categorias. No entanto, pode ser que eu esteja errado, desconfio que ele se tornará um dos menos lembrados ganhadores de Oscar. Esperemos para ver.

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FRAMBOESA DE OURO

Na noite anterior ao Oscar, foram anunciados os vencedores do Framboesa de Ouro, que voltou a ser entregue em sua data habitual. Ano passado, a cerimônia só ocorreu em abril por uma jogada de marketing. Como era esperado, a turma da "saga" Crepúsculo embolsou a maioria dos prêmios, levando sete das 11 nomeações que recebera. Veja abaixo a relação completa dos vencedores.

FILME: Amanhecer - parte 2
DIRETOR: Bill Condon (Amanhecer - parte 2)
ATOR: Adam Sandler (Este é o meu garoto)
ATRIZ: Kristen Stewart (Amanhecer - parte 2 e Branca de Neve e o caçador)
ATOR COADJUVANTE: Taylor Lautner (Amanhecer - parte 2)
ATRIZ COADJUVANTE: Rihana (Battleship - a batalha dos mares)
DUPLA: Taylor Lautner e Mackenzie Foy (Amanhecer - parte 2)
CONJUNTO: Amanhecer - parte 2
ROTEIRO: Este é o meu garoto
REMAKE / SEQÜÊNCIA: Amanhecer - parte 2

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Oscar 2013 - Os vencedores


FILME: Argo (Argo)
DIRETOR: Ang Lee (As aventuras de Pi)
ATOR: Daniel Day-Lewis (Lincoln)
ATRIZ: Jennifer Lawrence (O lado bom da vida)
ATOR COADJUVANTE: Christoph Waltz (Django livre)
ATRIZ COADJUVANTE: Anne Hathaway (Os miseráveis)
ROTEIRO ORIGINAL: Quentin Tarantino (Django livre)
ROTEIRO ADAPTADO: Chris Terrio (Argo)
FILME ESTRANGEIRO: Amor (Amour) (Áustria)
FILME DE ANIMAÇÃO: Valente (Brave)
FOTOGRAFIA: As aventuras de Pi
DIREÇÃO DE ARTE: Lincoln
FIGURINOS: Anna Karenina
TRILHA SONORA: As aventuras de Pi
CANÇÃO: "Skyfall" (007 - Operação Skyfall)
MONTAGEM: Argo
MAQUIAGEM: Os miseráveis
EFEITOS ESPECIAIS: As aventuras de Pi
SOM: Os miseráveeis
EFEITOS SONOROS: A hora mais escura e 007 - Operação Skyfall
DOCUMENTÁRIO: Procurando Sugar Man (Searching for Sugar Man)
DOCUMENTÁRIO CURTO: Inocente
CURTA-METRAGEM: Curfew
CURTA DE ANIMAÇÃO: Paperman
Prêmio Jean Hersholt: Jeffrey Katzemberger
Honorários: Hal Needham; George Stevens Jr.; e D. A. Pennebaker.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Meus palpites para o Oscar 2013


Com a proximidade da entrega do Oscar, sempre surgem os bolões de amigos ou cinéfilos para ver quem acerta mais vencedores. Desconfio que no grupo de que participo vou terminar na rabeira porque este ano optei por palpites mais ousados, descartando em alguns casos as escolhas óbvias. A seguir, meus prognósticos (em negrito) e alguns comentários.

FILME
As recentes vitórias de Argo (Globo de Ouro, SAG, DGA e agora o Bafta) recolocaram o filme na trilha do favoritismo, que vinha sendo percorrida sem muitos sustos por Lincoln. No entanto, o filme de Spielberg me parece mais sólido em sua proposta, de contar uma parte fundamental da história norte-americana sem invencionices e sem aquele ufanismo típico dos grandes blockbusters de Hollywood. Tem a "cara" da Academia e deve arrebatar muitos prêmios. É minha aposta e minha torcida.

DIRETOR
Se Argo levar o Oscar principal, a Academia ficará exposta ao ridículo de não ter indicado seu diretor, Ben Affleck (só três filmes até hoje conquistaram a láurea máxima sem que seu diretor tenha sido indicado). Ainda mais que ele também vem colecionando prêmios nesse começo de temporada. Mas preferiram apostar no novato Brenh Zeitlin pelo horrível Indomável sonhadora. Assim, Steven Spielberg já deve ter aberto outro espaço na prateleira de sua casa para acomodar a terceira estatueta de sua carreira.

ATOR
Outra falha imperdoável da Academia, agora em dose dupla: esqueceu de John Hawkes, soberbo em As sessões, e ignorou Jamie Foxx, muito bem em Django livre. Assim, com uma interpretação contida e detalhista, Daniel Day-Lewis também leva seu terceiro Oscar por encarnar um Lincoln à beira da perfeição.

ATRIZ
Com apenas 22 anos, Jennifer Lawrence ainda é muito nova para ganhar Oscar. Ela nem está tão bem assim em O outro lado da vida, na verdade não segura um personagem difícil, e isso ajuda a derrubar o filme, que peca pelo exagero. Seria bem legal se Naomi Watts levasse sua primeira estatueta. Além de brilhar em O impossível¸ já está merecendo um prêmio pela carreira.

ATOR COADJUVANTE
Acho difícil alguém bater Tommy Lee Jones, que tem atuação precisa em Lincoln. Mas também é bacana ver Robert De Niro disputando um Oscar novamente, depois de tantos papéis ridículos em fitinhas descartáveis. Será que a Academia vai se sensibilizar com isso?

ATRIZ COADJUVANTE
Se o Oscar fosse decidido por uma única cena, Anne Hathaway levava com sobras. Sua performance em Os miseráveis cantando "I dreamed a dream" é de emocionar qualquer espectador com o mínimo de sensibilidade. Deve levar, embora eu não ache que ela esteja especialmente bem no filme. No conjunto, porém, meu voto vai para Helen Hunt, sobretudo porque sou fã de As sessões e seu prêmio seria uma forma de corrigir o esquecimento de John Hawkes entre os atores.

FILME ESTRANGEIRO
Barbada: Amor. Apesar da qualidade dos concorrentes, o drama de Haneke tem a seu favor a vantagem de ser o único a tratar de um tema universal, portanto facilmente assimilável por todos os públicos, enquanto os outros se fixam em conflitos locais.

FILME DE ANIMAÇÃO
Detona Ralph, que ainda conta com um roteiro muito bem sacado. Mas os Piratas pirados da Aardman não podem ser descartados.

ROTEIRO ORIGINAL
Embora Quentin Tarantino esteja cotado para levar seu primeiro Oscar, por Django livre, aposto mais uma vez em Michael Haneke: seu Amor é uma mescla rara e muito feliz de sensibilidade e crueldade.

ROTEIRO ADAPTADO
Com 8 indicações nas costas, é de se imaginar que O lado bom da vida vá sair vitorioso em pelo menos uma delas. Pode ser no de Atriz, mas prefiro apostar neste aqui. Embora seja um prêmio equivocado: o filme erra tanto que fica difícil imaginar que sua adaptação tenha sido bem-sucedida.

FIGURINOS
Com cinco fortes concorrentes na disputa, arrisco a vitória de Espelho, espelho meu, com seus exuberantes figurinos do mundo dos contos de fada.

DIREÇÃO DE ARTE
A recriação de uma França à beira do caos social mostrada no arrebatador Os miseráveis garante a estatueta para o musical dirigido por Tom Hooper.

FOTOGRAFIA
Ao que parece, o Oscar vai para 007 - Operação Skyfall, que vem recebendo os principais prêmios da temporada.

MAQUIAGEM
Páreo duro entre O hobbit e Hitchcok. Opto por este último, que transforma Anthony Hopkins no autêntico Mestre do Suspense com perfeição (e bem melhor do que Toby Jones no televisivo A garota de Hitchcok da HBO).

CANÇÃO
Adele é a cantora da moda e sua "Skyfall" vem colecionando prêmios. Deve levar. Mas sempre acho que filme musical é favorito nessa categoria. Assim, jogo minhas fichas em "Suddenly", de Os miseráveis. Não a acho uma grande canção, mas a Academia já premiou coisas bem piores, como no ano passado, em que esnobaram "Real in Rio" para contemplar uma musiquinha descartável (e da qual ninguém lembra).

TRILHA SONORA
Discreta e minimalista, a trilha sonora de Lincoln garante mais um Oscar para o filme de Spielberg.

MONTAGEM
Reparem: muitas vezes o filme vencedor do Oscar arrebata também essa categoria. Então, o voto óbvio é para o Lincoln de Spielberg.

EFEITOS ESPECIAIS
Não acho As aventuras de Pi um grande filme, mas a interação cênica entre o menino e o tigre na maior parte do tempo dará a ele o Oscar de Efeitos Especiais (que eu insisto em chamar assim, mesmo que o nome tenha sido modificado para Visuais). A julgar pelos avanços técnicos que vem ocorrendo no cinema, muito em breve será necessário desmembrar a categoria em duas: Efeitos Especiais / Visuais e Efeitos Especiais em 3D.

SOM (SOUND MIXING)
Complementando a lista de Oscars tradicionalmente conferidos aos vencedores de Melhor Filme, Lincoln sai vitorioso aqui também.

EFEITOS SONOROS (SOUND EDITING)
Outra categoria que insisto em chamar pelo nome antigo. Ainda acho que Argo não leva o prêmio principal, mas sairá com pelo menos um Oscar, e será aqui.

DOCUMENTÁRIO
Desde que o vi na repescagem do Festival do Rio, achei A guerra invisível um forte candidato ao Oscar. Agora, o filme que debate os inúmeros casos de violência sexual dentro de unidades militares norte-americanas leva o prêmio e joga luzes sobre o assunto.

DOCUMENTÁRIO CURTO
Aqui começa a roleta russa das premiações. Só sabemos dos filmes o que lemos sobre eles. Fora que muitas vezes o indicado mais cotado sai de mãos abanando. Minha aposta no escuro vai para King's Point.

CURTA-METRAGEM
Escolho Henry por um motivo prosaico: é o que me parece mais com nome de curta vencedor de Oscar!

CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
Criada há mais de 20 anos e com vários prêmios de televisão no currículo, será que chegou a hora de a família Simpson levar o Oscar para Springfield? Aposto em The Simpsons - the longest daycare.

Em virtude da cobertura do Oscar, o CineComFritas não será atualizado na semana que vem. Os vencedores do prêmio estarão disponíveis aqui no blog no dia 25 e dentro de duas semanas encerro o assunto com alguns comentários sobre a entrega.