quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Festival do Rio 2014 - Primeira semana

Estou convencido de que o ano passado foi um ponto fora da rota na organização do Festival do Rio. Tudo o que serviria de parâmetro a partir de então foi esquecido, em parte, certamente, pela indefinição sobre o futuro do Grupo Estação: vai fechar?, não vai fechar? Como programar filmes para salas que não se sabia se estariam funcionando na época? E nós, que nada temos com isso, é que somos os grandes prejudicados. Nunca vi um evento cultural gerar mais estresse do que euforia no público. Isso não pode ser assim. O Festival é uma atração turística da cidade, precisa ser bem-tratado e organizado de forma profissional, senão quem vem de fora simplesmente não volta depois. É difícil entender isso?

Também os atrasos voltaram a acontecer, mesmo que pequenos, de cinco ou dez minutos, o que pode ser fatal para quem monta uma programação com horários próximos e cinemas nem tanto. No meio de tudo isso, há o cinema, claro. Eis o que vi na primeira semana, compreendida entre os dias 25 de setembro e 1º de outubro (alguns títulos foram traduzidos por conta própria; o título de exibição está entre parênteses):

MARÍA E O HOMEM ARANHA - Por trás da aparente aventurinha infantojuvenil, se revela um drama sério e trágico, mostrando uma realidade que raramente vemos no cinema argentino, a vida nas periferias (seria o "favela-movie" deles). O Homem Aranha é um menino que faz malabarismos no metrô de Buenos Aires. Tudo conduzido de forma sóbria, sem música, sem ação do poder paralelo e sem festa na laje. * * *

PESSOAS EM LUGARES ­- Tem a mesma estrutura narrativa de Vocês, os vivos e filmes similares, ou seja: várias esquetes, sem muita ligação entre si, compondo um mosaico da existência humana em situações diversas. Confesso que já estou me cansando desse tipo de filme. Este é ainda pior por nem ser engraçado como se pretendia. A melhor piada é a dos ladrões que arrumam a casa em vez de roubá-la! Um rosário de astros espanhóis em pequenas aparições (Carlos Areces, Antônio de La Torre, Maribel Verdu envelhecida mas ainda linda e muitos outros). *

O FUTURO - Logo no primeiro dia e já surge o candidato a pior filme do festival. Com tanto filme bom que ficou fora da seleção, o jeito foi arrumar qualquer coisa para oferecer ao público, que paga para ver uma joça como essa. A "história" se passa inteiramente durante uma festa, na época da Movida Madrilenha (começo dos anos 80), onde jovens dançam e se divertem, esperançosos do porvir. Os diálogos não dizem nada: tudo é comentado pelas letras das canções que tocam o tempo todo e reproduzem pensamentos de revolução e liberdade. Tem um simbolismo visual interessante (o buraco negro que cobre os personagens no final), mas é só. A idéia era ótima: opor a esperança da juventude espanhola naquele momento com a crise atual. Só que o diretor optou pela displicência e jogou fora o potencial do filme. Parece interminável, mesmo mal chegando a 70 minutos.

ASTERÓIDE - Uma mulher volta para a casa do irmão e tenta aparar arestas passadas. Um tema já visto à exaustão no cinema não ganha nada de original nesse drama mexicano frio e sem maiores destaques. Nem os aplausos protocolares foram ouvidos ao final da sessão, que foi apresentada pelo diretor. Este asteróide só fica orbitando e nunca chega a lugar algum. * *

MAPAS PARA AS ESTRELAS - Depois de Marcas da violência, David Cronemberg passou a ser finalmente visto como um cineasta sério e respeitado pela indústria. Um reconhecimento tardio e merecido. No entanto, de lá para cá, seus filmes vêm se tornando cada vez mais difíceis de ver. Se por um lado eles ganharam um capricho maior na produção e um refinamento na direção de arte, o que lhes garante qualidade superior, por outro, ficaram de uma lentidão narrativa tão excessiva que se tornaram entediantes. Seu último trabalho, Cosmópolis, chegava a ser penoso de assistir, mas pelo menos tinha a desculpa de se basear em livro igualmente chato, de Don de Lillo. Aqui, Cronemberg chega ao limite do enervante. É verdade que poucas vezes se viu na tela uma crítica tão ácida e devastadora à fábrica de sonhos que é Hollywood, embora o tema já tenha sido explorado outras vezes (O jogador, de Robert Altman; e, mais recentemente, Cidade dos sonhos, de David Lynch). Há também toneladas de referências e citações a outros filmes e brincadeiras cifradas que o cinéfilo mais atento e experimentado saberá identificar. O grande problema é que a história simplesmente não cativa o espectador, que se aborrece com o ritmo claudicante da narrativa e não consegue simpatizar com qualquer um dos personagens. A única centelha de energia do filme é Julianne Moore. Ensandecida, histérica, amarga, patética, despudorada, sempre na medida. É uma das grandes atuações femininas do ano (ganhou em Cannes) e pode finalmente lhe render o tão merecido Oscar. Aliás, o elenco principal tem bons nomes: John Cusack, Mia Wasikowska e dois queridinhos recentes do diretor, Sarah Gadon e Robert Pattinson, mais uma vez tentando se livrar do vampirinho que marcou sua carreira. O filme realmente não me agradou e me fez sentir saudade do Cronemberg dos velhos tempos. Se o preço do respeito é fazer trabalhos entediantes assim, melhor ser marginal. É bem mais divertido. * *

NOIVAS - Mulher se sente dividida entre manter o relacionamento com o companheiro, preso há seis anos, ou se entregar a um vizinho. Um retrato do sistema prisional georgiano, narrado de forma correta e enxuta, mas que termina de forma abrupta e inconclusa. * *

CORRENTE DO MAL ­- Terror à antiga, que investe no clima e na ambientação em detrimento dos recursos fáceis e descartáveis de hoje, como tripas à mostra ou torturas gratuitas. O roteiro, porém, erra ao não deixar claro que maldição é aquela que ronda os jovens do subúrbio. Espécie de homenagem involuntária ao gênero dos anos 80, mas com a moral inversa: aqui, o sexo não é a metáfora causadora das mortes, mas uma solução para evitá-las. Não há, contudo, cenas eróticas. * * *

SÓ DEUS SABE - Rotina de uma viciada sem-teto de Nova York. Baseado em livro escrito por Ariella Holmes, que interpreta o papel principal, cercada de um elenco inteiramente desconhecido, e que até se sai bem. E ela acaba sendo o maior entrave à credibilidade da história: é linda e "limpinha" demais para convencer como mendiga. A história também não desperta maior interesse. Salva-se a estética documental e propositalmente suja. * *

METAMORFOSES - Uma interessante recriação de lendas conhecidas da mitologia grega, transpostas para o dia de hoje e encenadas em ambientes bucólicos (matas, montanhas). É o filme menos gay de Honoré. Tem um visual bonito, explorando a beleza das locações, mas é um tanto arrastado. * *

PERDIDO EM KARASTAN - Menos engraçada do que promete a sinopse. Karastan é uma república fictícia que promove seu primeiro festival de cinema e homenageia um diretor medíocre e desconhecido. Razoável no contraste cultural, com situações que parecem incompletas e piadas fracas. Também se compromete com um crescendo de violência incompatível com a proposta. Teve um absurdo atraso de meia hora por causa de problemas técnicos! * *

A VIA-CRÚCIS (Stations of the cross) - O filme é dividido em 15 cenas curtas, cada uma com o nome de uma estação da Via-Crúcis. Nestes quadros, conta-se a história da jovem Maria, em luta para manter sua fé e seu ideal de perfeição religiosa nos dias de hoje. Um apavorante retrato da devoção cega, dos limites a que uma pessoa pode chegar em nome de sua fé. O diretor usa câmera estática (menos em dois momentos) e rigorosa direção de arte para criar um ambiente ao mesmo tempo opressivo e poético. Um belo filme, capaz de dialogar com públicos variados: desde os católicos mais fervorosos (que poderão chegar ao limite de suas emoções), até os ateus. O título original em alemão, Kreuzweg, significa calvário. * * * *

ELA PERDEU O CONTROLE ­- A premissa lembra As sessões, mas, ao contrário daquele, a terapeuta daqui não está interessada em questões sexuais, atendo-se aos aspectos emocionais de seus pacientes. A história se mantém em fogo brando, caminhando pelo terreno mais seguro da narrativa convencional. Em seu primeiro longa-metragem, a diretora e roteirista Anja Marquardt optou por uma timidez que não combina com a ousadia sugerida pela idéia. * *

DESLIGANDO CHARLEEN - É uma boa surpresa este filme alemão, que consegue a proeza de tratar de um assunto sério e difícil (o suicídio adolescente) com leveza e bom humor, sem pieguice nem sentimentalismo. Uma adorável galeria de personagens disfuncionais animada por diálogos sarcásticos e certeiros. Muito boa também a trilha sonora de rock local. * * * *

TIMBUKTU - Com um roteiro muito disperso, que pulveriza inúmeras situações sem resolver nenhuma delas a contento, este novo trabalho do respeitado Abderrahmane Sissako, um dos nomes mais importantes do cinema africano, parece uma colcha de retalhos que termina sem a costura final. A cena do futebol invisível é linda e repleta de simbolismo. * *

INCOMPREENDIDA - Asia Argento mostra descontrole em sua terceira experiência como diretora, além de ser menos exuberante visualmente. A história, sobre uma menina que se sente deslocada no seio familiar após o divórcio dos pais, soa gratuita e irritante. Não dá para simpatizar com ela nem com qualquer outro personagem. * *

ENTERRANDO A EX (Burying the ex) - Decepcionante retorno de Joe Dante ao gênero que lhe rendeu fama, a comédia de horror. Tem algumas boas piadinhas referenciais, mas os diálogos são duros e muito pouco engraçados. O diretor e o elenco devem ter se divertido, mas faltou compartilhar isso com o público. Destaque para a competente direção de arte. * *

O MUNDO DE KANAKO - Quase insuportável de ver, com montagem esquizofrênica e ritmo videoclipado, esta trama policial até tem uma história interessante, mas desenvolvida de forma inadequada. O diretor quer se mostrar moderno, mas só consegue irritar o espectador. Desperdício de uma boa idéia. * *

CORAÇÕES FAMINTOS - O prólogo no banheiro assusta, mas depois a história entra nos eixos. Adam Driver (da série cômica Girls) tem chance de mostrar seu talento dramático e forma um contraponto perfeito com Alba Rohrwacher como os pais de primeira viagem que divergem quanto à criação do filho. Ambos foram premiados em Veneza e estão muito bem, ela melhor, como a mãe enlouquecida. A narrativa vai se alternando de gênero, passando do drama ao suspense, sem desviar a atenção. * * *

WHIPLASH - EM BUSCA DA PERFEIÇÃO - Alguns intérpretes passam a carreira toda escondidos em papéis de coadjuvantes ou em séries de TV, sem muita visibilidade e sem explorar todo o potencial que, em algum momento, ou quando lhe é dada a devida oportunidade, vem a público. É o caso de J. K. Simmons, um veterano com mais de 140 créditos e que certamente você já deve ter visto em algum lugar. Ele é a alma deste filme e tem uma atuação assustadora como o rígido professor de uma banda formada por adolescentes, que não perdoa o mínimo deslize e os trata com disciplina militar, tudo para alcançar a perfeição exposta no título e ser sempre o melhor. Seguramente uma das grandes interpretações do ano, e que deve lhe render uma merecida indicação ao Oscar. Simmons duela em talento com Miles Teller, o aluno preferido e que sofre com os métodos de treinamento (este é menos conhecido, fez muita bobagem até agora, como Projeto X, Finalmente 18, mas deve mudar de nível). Aliás, o filme certamente estará entre os finalistas, é um espetáculo, vibrante e arrebatador, bastante aplaudido ao final da sessão. O diretor Demian Gazelle (que, vejam só, foi um dos roteiristas de O último exorcismo 2) amplia seu curta homônimo de 2013, também estrelado por Simmons, e mostra vigor na condução da história. * * * *

TOP GIRL - No começo, parece um episódio de O negócio temperado com pimenta forte (tem até reunião de funcionárias). Mas tem um foco próprio, mostrando a rotina e os problemas de uma dominatrix profissional. Gosto de histórias que sirvam para desmistificar o universo S&M, mostrando seus adeptos e praticantes como o que são: pessoas comuns, com família, que apenas optam por um estilo de vida diferenciado. O recorte é benfeito, o roteiro é sério e sem sensacionalismo, mas a narrativa perde força no fim. * * *

A MÁQUINA DE MATAR PESSOAS MÁS - Uma rara comédia dirigida por Rossellini, também por ser praticamente desconhecida do grande público. A cópia apresentada foi a versão restaurada e tinha boa imagem. Feliz combinação de farsa, fantasia, crítica social e religiosa. Boas risadas em trama rápida e movimentada. * * *

GAROTA EXEMPLAR - Competente adaptação do romance homônimo de Gillian Flynn, que também escreveu o roteiro, o que explica a fidelidade integral de diálogos e situações, bem como a direção apenas correta de David Fincher, sem invenções ou maior destaque. Quem leu o livro vai gostar, mas a vantagem aqui é para quem não conhece a história e vai se surpreender com as reviravoltas da trama. Deve ser lembrado em algumas categorias do Oscar. * * * 

SONHOS IMPERIAIS - A velha história do ex-presidiário que tenta se reinserir na sociedade e tem de lutar contra seu passado criminoso que bate à porta. Rotineiro do começo ao fim. A única novidade é que aqui o cidadão quer ser escritor. Alternativa digna, mas quem é que ganha alguma coisa sendo escritor? * *

DEUS LOCAL - Com muito clima e pouca coerência, esse novo filme do mesmo diretor de A casa é uma decepção. Tão escuro quanto seu trabalho anterior, oferece pouquíssimos sustos, mas a ambientação lúgubre até que é boa. * *

ÍDOLO - Apesar do formato convencional, o documentário presta uma linda homenagem e faz justiça ao grande Nílton Santos, o gênio da lateral-esquerda. O público ri com as histórias de bastidores e se emociona em várias cenas, como a que mostra o último encontro entre ele e sua esposa Célia, ambos já debilitados por sérios problemas de saúde. Muitas entrevistas e uma profusão de imagens históricas. Mas a torcida do Botafogo pode sentir raiva, já que hoje temos de aturar os "irmãos" César enlameando aquela camisa gloriosa. * * * *

BEM PERTO DE BUENOS AIRES - Versão argentina de O som ao redor. Narrativa alegórica sobre o medo (o título original é História do medo) e o choque de classes na sociedade portenha em tempos de crise. Perde força na comparação. O nosso é melhor, até por ser original. * *

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Pílulas do Festival do Rio 2014 - Pré-semana

Quando esta coluna estiver entrando no ar, o Festival do Rio já vai ter começado. Literalmente. Vários títulos em exibição estão disponíveis na rede há meses para quem quiser procurar. Já escrevi aqui o que penso a respeito do compartilhamento de arquivos pela internet, mas nunca é demais repetir. Uma coisa é baixar um filme que acabou de entrar em cartaz, é deixar de ir ao cinema para assisti-lo em casa. Outra bem diferente é ter acesso a um filme que nunca foi lançado por aqui e dificilmente será. Não se trata de justificar o condenável, mas de reconhecer a importância desse tipo de prática.

Acaba sendo uma vantagem, já que abre mais o leque de filmes vistos ao longo do evento. Além disso, com tantas falhas de organização, tanto descaso com quem gasta dinheiro comprando os passaportes (todo ano dá algum problema), não deixa de ser uma pequena "vingança". Afinal, se eles não se importam em oferecer um serviço decente, também não devem reclamar se optarmos por vermos os filmes de outra forma. 

Abaixo, o que já vi antes de o festival começar.

O CIÚME - Garrel filma a mesma história de amor de sempre, cozinhada em banho-maria por personagens frágeis, que se escoram uns nos outros para disfarçar seu vazio interior. Mais do mesmo. Nem a fotografia em preto e branco tem algum destaque. Mas é bastante curto e, se não empolga, também não chega a aborrecer. * *

SÉTIMO - Exercício de suspense que funciona na maior parte do tempo, mostrando a busca desesperada de um pai pelos filhos que desaparecem enquanto descem as escadas do prédio onde moram. O roteiro se prolonga um pouco além do necessário e apresenta uma explicação meio frouxa para a motivação do caso. Ricardo Darín está bem, mas nada de excepcional. Osvaldo Santoro, que faz Rosales, é a cara do técnico espanhol Vicente Del Bosque! * *

GOD HELP THE GIRL - Garota escocesa tenta superar seu desequilíbrio emocional escrevendo músicas, artifício que a faz ter nova perspectiva de vida. Conhece um casal e tentam formar uma banda. A dura realidade em que ela vive tem seus momentos de escapismo nos números musicais, quase uma homenagem/referência aos anos dourados do gênero. O problema é que o roteiro não tira o pé do concreto, não cria delírios audiovisuais que permitam também ao espectador experimentar aquele alívio fantasista tão comum a esse tipo de filme. Culpa, talvez, da pouca experiência do diretor, Stuart Murdoch, líder do grupo Belle & Sebastian, em sua estréia como realizador (não é por acaso que há tantas músicas da banda na trilha sonora). Essa indefinição narrativa compromete uma história que tem qualidades: locações fotogênicas, figurinos inspirados, diálogos inusitados, alguns beirando o nonsense. Mas Murdoch mostra certa criatividade na condução da história. As canções são muito agradáveis, embora nenhuma seja memorável. Emily Browning (Beleza adormecida), em mais uma tentativa de  mostrar versatilidade, se sai melhor cantando do que atuando. * *

MATAR UM HOMEM - Revoltado com a leniência judicial, um pacato cidadão caça o arruaceiro que ameaça sua família. Quase uma versão chilena de Desejo de matar, com a sempre questionável defesa da justiça pelas próprias mãos como única ferramenta de equilíbrio social e solução para a criminalidade urbana. Também notei ecos do mais recente (e igualmente latino) Depois de Lúcia, exibido há dois anos. Seco e direto, com boa atuação de Daniel Candía, cujo protagonista vai se brutalizando aos poucos por força das necessidades. Baseado em fatos reais, o que torna tudo mais assustador. * * *

JORNADA AO OESTE - Poema visual assinado por Tsai Ming Liang, que nunca foi um diretor fácil e aqui testa todos os limites da platéia. O close inicial em um Denis Lavant estático, por exemplo, dura quase sete minutos. Como o público do cinema vai reagir a isso? Em ritmo lento e com imagens contemplativas, opondo os aspectos espiritual e físico do mundo atual, convida o espectador a refletir sobre a condição humana na sociedade contemporânea. Belo e com simbolismos visuais poderosos. Mas tem pinta de ser o maior espantalho do festival. * * *

BELLE E SEBASTIEN - Belle é uma cadela vira-lata adotada pelo menino Sebastien. A ação transcorre nos Alpes franceses em julho de 1943, época da II Guerra Mundial e do avanço nazista na região. Mais um produto do subgênero "menino-e-bichinho", tem locações deslumbrantes, mas um roteiro que não consegue definir seu público: é aborrecido para os adultos e um tanto pesado para as crianças. Bonita a canção-tema e boa presença do veterano Tchéky Karyo, como o avô. * *

IDA - Mais uma pequena surpresa vinda da Polônia, país cuja filmografia recente tem se mostrado muito interessante e que merece atenção. Com um rigor narrativo absurdo, apresenta um bom debate entre fé e vida mundana, mas oferece algumas propostas visuais estranhas, com personagens escondidos na parte inferior da tela ou cortados da cena. * * *

FRANK - Jovem consegue vaga de tecladista em uma banda obscura, cujo líder usa uma cabeça falsa (!), a qual nunca tira (!!). Humor absurdo e boas piadas que satirizam o universo musical, com o misterioso Frank (defendido por Michael Fassbender) sintetizando todas as excentricidades comuns aos astros do pop e rock. Mas o roteiro tem contornos sombrios e, por vezes, perturbadores. Quem superar a estranheza da situação central vai se divertir. * * * 

COLD IN JULY (que antipatia desses títulos não traduzidos!) - Apesar de o roteiro seguir fielmente a cartilha de um bom policial, com minúcias investigativas, reviravoltas e pistas falsas, a história nunca chega a envolver o espectador. Também prejudicado por um final fraco. A sina de Michael C. Hall (o eterno Dexter) parece que é mesmo matar! * *

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

O cinema uniu dois corações

Sombras elétricas (2004)
O Festival do Rio começa no próximo dia 24 e segue até 8 de outubro. Como nos dois últimos anos, o CineComFritas fará uma cobertura especial do evento e publicarei aqui breves resenhas críticas dos filmes a que eu assistir. Este ano o calendário do festival teve de ser ajustado às novas datas comerciais das salas de cinema do país, ou seja, começa em uma quinta-feira (quarta-feira para os convidados; o filme de abertura é O sal da terra, documentário de Wim Wenders sobre o fotógrafo Sebastião Salgado) e termina em uma quarta-feira, para que as distribuidoras mantenham inalterado seu cronograma de lançamentos.

Este será meu décimo terceiro Festival do Rio. Ao longo de todos esses anos, já vi muita coisa boa, muita coisa ruim; já vi filmes que depois se consagraram no circuito, outros que foram massacrados pela crítica quando de sua estréia. Mas o grande barato do festival é mesmo a chance de descobrir tanto novos diretores quanto algum filme que, por motivos diversos, termina restrito ao evento e nunca é lançado no país, posteriormente. Todo mundo que freqüenta o festival tem uma história dessa para contar, de uma pérola peneirada em meio à vasta programação. Comigo já aconteceu algumas vezes. E como os títulos em questão permanecem inéditos por aqui, tenho o prazer cinéfilo de dizer: "Eu estava lá. Eu vi".

Uma dessas descobertas se deu em 2007. Naquele ano, a China foi homenageada com duas mostras: uma de clássicos, outra de produções mais recentes. Desta segunda, escolhi ver um filme chamado Sombras elétricas. Foi talvez a maior jóia que já vi em qualquer edição do festival até hoje. Uma pequena obra sensível e que consegue o máximo com seus poucos recursos cênicos. Foi a estréia da diretora Jiang Xiao, que depois só rodou mais uma fita, Pk.com.cn (também nunca lançado aqui). A história é sobre um jovem que trabalha como entregador de água e é apaixonado por filmes. Um dia, ele sofre um acidente com sua bicicleta e ainda leva uma tijolada de uma desconhecida que passava pelo local. Depois de liberado pelos médicos, ele recebe a incumbência de cuidar dos peixinhos da garota e descobre um pequeno cinema na casa dela, com tela, assentos e paredes decoradas com fotos de estrelas da sétima arte. E também uma espécie de diário, em que descobre que suas vidas estão ligadas desde a infância.

Sentimentos unidos por uma paixão.
A partir daí, é preparar o espírito e se deixar embarcar nessa viagem mágica que constrói, com evidentes ecos de Cinema Paradiso, uma história muito humana, delicada, engraçada, que, embora vá comover a todos, tem um apelo especial para quem é cinéfilo. Basta dizer que o cinema funciona como pano de fundo para todos os acontecimentos da vida dos dois personagens. É como uma força viva, que atua da forma mais inesperada no destino das pessoas e influi nas escolhas que fazemos. São exibidos rápidos trechos de produções antigas (a maior parte da ação se passa nos anos 60, época da Revolução Cultural Chinesa), que conferem à narrativa um encanto a mais. 

Dentre eles, dois destaques: um filme albanês, Vitória sobre a morte, e outro oriental, Guerrilheiros da ferrovia, que mostra um espetacular choque de trens, ainda impressionante nos dias de hoje. Alguns espectadores podem se emocionar e até chegar às lágrimas, mas é um choro gostoso, de lavar a alma. Um filme belíssimo, que merecia entrar em circuito ou, no mínimo, sair em DVD. Infelizmente, nunca mais deu as caras por aqui. Curiosidade metalingüística involuntária: um dos filmes exibidos dentro de Sombras elétricas é Anjo das ruas, que também foi apresentado naquela edição, na outra mostra, a de clássicos, e igualmente desconhecido por aqui (e que eu também vi).

Qual será a grande descoberta do festival este ano? Saberemos nas próximas três colunas especiais.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Reflexos da inocência

O menino no espelho (2013)
Este era o filme brasileiro mais aguardado por mim este ano. Mesmo assim, fui ver O menino no espelho já temendo um desastre. Não é difícil adaptar Fernando Sabino, mas quando a gente gosta muito de um autor ou de uma obra, fica por natural excessivamente crítico em relação a qualquer adaptação que se faça. E tive uma surpresa.

O filme me agradou bastante, em que pese algumas liberdades narrativas tomadas pelo diretor Guilherme Fiúza Zenha (o último nome deve ter sido assumido para diferenciar do jornalista homônimo), mineiro como Fernando. Ele não levou o livro ao pé da letra, mas soube extrair a essência da história e criou uma obra capaz de dialogar com o texto, de certa forma ampliando o universo imaginado pelo escritor.

O romance é uma recriação ficcional da infância do autor, vivida na então pequena Belo Horizonte do começo dos anos 30. Nele, Sabino relembra fatos verdadeiros de seus tempos de menino, mas temperados com fartas doses de fantasia e imaginação, concedendo-lhes uma certa aura de aventura tão típica do universo infantil. O roteiro, escrito em parceria por Zenha, Cristiano Abud e André Carreira, abandona a estrutura episódica do texto e prefere apostar em uma narrativa mais linear. Funciona, embora o filme deixe no fim a impressão de estar algo incompleto, de que alguma coisa ficou de fora ou terminou sem solução.

Maluquinho é o outro! Favor não confundir.
Um dos grandes acertos do projeto foi a escalação de Lino Facioli no papel principal. Talentoso, o menino atua de forma bastante espontânea, interpretando uma criança de verdade, não um pequeno adulto como costumamos ver no cinema recente. Ele foi descoberto na série Game of Thrones, na qual interpreta o papel de Robin Arryn; tem alguns curtas em seu ainda pequeno currículo e esta é sua estréia em uma produção nacional, com grande potencial de fazer uma bela carreira, tanto aqui quanto lá fora mora em Londres há dez anos (está com 14). Aliás, todo o elenco infantil é muito bom, conseguindo uma química fundamental para que a história não só caminhe bem, mas também agrade ao público adulto, que se diverte com as estripulias da turminha sem se cansar ou se aborrecer.

Já o elenco adulto parece estar apenas enchendo cota, porque tem muito pouco a fazer. Mateus Solano e Regiane Alves são os pais do menino e em nada interferem no andamento, mal ocupam espaço na tela. Ele ainda tem algumas cenas em que transmite sua autoridade paterna em discursos moralizantes, mas Regiane, coitada, mal tem falas, um desperdício! Ricardo Blat é o oficial Pepe Vieira, chefe do núcleo local dos integralistas o roteiro cria boas piadas com o movimento, que infelizmente passarão despercebidas por grande parte do público, afinal, quem hoje se lembra ou sabe o que foi o Integralismo?

Quem não sonharia com uma prima assim?
Boa presença também de Laura Neiva, a prima adolescente que chega de São Paulo para passar uns dias com os tios. É ela quem inicia Fernando na arte do cinema, primeiro burlando a vigilância para assistirem a O anjo azul, que era proibido para crianças, e depois levando-o para ver Maridinho de luxo, ótima e esquecida comédia nacional dirigida por Luiz de Barros. Também é dela a cena mais bonita do filme. Depois de verem o clássico drama de Sternberg, ela aparece em um sonho do menino imitando Marlene Dietrich, uma visão equilibrada entre a poesia de uma admiração inocente e os primeiros impulsos sexuais.

Faço ressalvas quanto ao som. Deficiente, muito baixo, praticamente inaudível em algumas cenas, prejudicando a audição dos diálogos. Felizmente, o filme não precisa de muita conversa para ser compreendido em sua totalidade, e nenhum segredo fundamental se perde nessas horas. Essa falha é compensada pela boa recriação de época (locações em Cataguases, que ainda conserva traços urbanísticos próximos à BH dos anos 30), com destaque também para a cenografia de todos os ambientes.

Normalmente sou chato para adaptações literárias; esta, porém, credito como uma das melhores. Ao contrário de O grande mentecapto, O menino no espelho faz justiça à obra original e promove mudanças que a valorizam, em vez de subtrair sua força essencial. Um belo tributo à memória de Fernando Sabino.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Séries Fritas – Arrow

ARROW
Onde e quando: Warner, segunda-feira e terça-feira, 22h25; sábado, 11h50; domingo, 12h (a confirmar; o canal muda a programação a seu bel-prazer).
Elenco: Stephen Amell, Katie Cassidy, David Ramsey, Willa Holland, Colton Raynes, Emily Bett Rickards, Paul Blackthorne.
Sinopse: O Arqueiro Verde é a identidade secreta do milionário Oliver Queen, que combate o crime nas noites de Sterling City.


Comentários: Não é só no cinema que os super-heróis fazem sucesso. Prova disso é esta segunda temporada desse personagem surgido nas páginas da DC Comics nos anos 40 e que entre nós ficou conhecido como Arqueiro Verde. Não sou grande conhecedor do universo dos quadrinhos, mas, até onde sei, nunca foi dos mais populares. Foi, portanto, uma aposta arriscada de Greg Berlanti, diretor de Juntos pelo acaso e produtor de Lanterna Verde, de levá-lo para a TV, mas funcionou tanto que uma terceira leva de episódios já foi confirmada. Achei a primeira temporada apenas regular, presa a um esquematismo incômodo, com pouca variação nos roteiros. Mas isso talvez fosse necessário para dar ao público a chance de conhecer o herói e suas motivações. Sua origem é explicada logo no início. O milionário Oliver Queen sai para passear de iate com sua amante, Sara Lance, mas sofrem um acidente; ela é dada como morta e ele acaba em uma ilha (sempre tem uma ilha!), na qual passa cinco anos prisioneiro. Consegue fugir e assume a identidade secreta do Arqueiro Verde, ou Capuz, ou, como passa a ser chamado nessa segunda temporada, Vigilante. Toca seus negócios durante o dia e, à noite, combate o crime na cidade, seguindo uma lista de inimigos deixada pelo falecido pai. Nessa nova temporada, a estrutura narrativa da série ganha dinamismo e abre outras alternativas para o herói, bem como desenvolve melhor o universo em que ele orbita. Se na primeira temporada cada história era fechada em si mesma, sempre de uma forma monocórdia o tripé crime-perseguição-resolução , agora surgem vilões mais elaborados, ao mesmo tempo em que a vida pessoal de Queen ganha contornos mais dramáticos. Primeiro, tem de lidar com o julgamento da mãe (prefiro não revelar detalhes); depois, tenta se reaproximar de sua ex-namorada, a jornalista Laurel, irmã de Sara, enquanto se sente atraído por sua ajudante nerd, Felicity, uma das poucas pessoas que conhecem sua identidade secreta a outra é Diggle, segurança da família, agora promovido a seu braço-direito. Os ajustes feitos para essa segunda temporada melhoraram bastante o clima geral. Os roteiros são mais estruturados, apoiando a ação em motivações consistentes, abrindo espaço para algumas doses de romance e humor. Gosto das nuances esverdeadas da fotografia noturna, conferindo uma identidade visual própria à série. Não dá para dizer que é exatamente uma revelação, porque já conta pouco mais de 30 créditos na carreira, a maioria na TV (esteve em Hung e Private practice), mas Amell encarna o Arqueiro com talento e vibração, candidatando-se a futuro astro de fitas de aventura. Curiosidade: uma nova série do herói The Flash foi originada a partir de um dos episódios dessa segunda temporada.


Por que ver? É uma ótima escolha para fãs de filmes de super-heróis, mantém o interesse o tempo todo e agrada nas cenas de ação. Bom elenco e ganchos bem-bolados.
Por que não ver? Quem não viu a primeira temporada pode não se interessar. Os episódios inéditos só passam dublados e as reprises, quando acontecem, são poucas e em horários ruins.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Oscarito 2014 – Todos os vencedores

Embora tenha ficado longe da unanimidade crítica quando de seu lançamento, Faroeste caboclo terminou consagrado na entrega da 14ª edição do Grande Prêmio Cinema Brasil, o Oscarito, realizada hoje (26/8) à noite no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Superou aquele considerado o grande favorito, O som ao redor, e arrebatou sete prêmios. O filme de Kleber Mendonça Filho teve de se contentar apenas com o prêmio de Roteiro Original. Outro vencedor de destaque na noite foi Cine Holliúdy, que ganhou como Filme de Comédia e Melhor Filme pelo Voto Popular, o que comprova a enorme empatia que o projeto teve junto às platéias, mesmo aquelas de fora do Nordeste. Prova também de que um bom filme é capaz de ultrapassar qualquer fronteira geográfica e ser compreendido por públicos variados.

Algumas surpresas. A principal foi a agilidade na condução da festa. Foi uma cerimônia bem enxuta, até rápida demais, com cerca de uma hora e meia de duração, imagino que por motivos de economia, para baratear o aluguel do espaço. Também achei surpresa o prêmio para os coadjuvantes, não que tenham sido equivocados, mas não considerava Wagner Moura ou Bianca Comparato favoritos nas categorias. Para manter a tradição, houve um empate, dessa vez em Efeitos Especiais (eu sei que o nome oficial é Visuais, mas prefiro chamá-lo pela nomenclatura antiga).

Veja abaixo a relação de todos os premiados no Oscarito de 2014.

FILME: Faroeste caboclo
DIRETOR: Bruno Barreto (Flores raras)
ATOR: Fabrício Boliveira (Faroeste caboclo)
ATRIZ: Glória Pires (Flores raras)
ATOR COADJUVANTE: Wagner Moura (Serra Pelada)
ATRIZ COADJUVANTE: Bianca Comparato (Somos tão jovens)
ROTEIRO ORIGINAL: Kleber Mendonça Filho (O som ao redor)
ROTEIRO ADAPTADO: Marcos Bernstein e Victor Atherino (Faroeste caboclo)
COMÉDIA: Cine Holliúdy
DOCUMENTÁRIO: A luz do Tom
FILME ESTRANGEIRO: Django livre (EUA)
FILME INFANTIL: Meu pé de laranja-lima
FILME DE ANIMAÇÃO: Uma história de amor e fúria
FOTOGRAFIA: Faroeste caboclo
DIREÇÃO DE ARTE: Flores raras
FIGURINOS: Flores raras
MAQUIAGEM: Serra Pelada
TRILHA SONORA: A luz do Tom
TRILHA SONORA ORIGINAL: Faroeste caboclo
MONTAGEM: Faroeste caboclo
MONTAGEM DE DOCUMENTÁRIO: Elena
EFEITOS ESPECIAIS: Serra Pelada e Uma história de amor e fúria
SOM: Faroeste caboclo
DOCUMENTÁRIO DE CURTA-METRAGEM: A guerra dos gibis
CURTA-METRAGEM: Flerte
CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO: O menino que sabia voar

VOTO POPULAR

FILME: Cine Holliúdy
FILME ESTRANGEIRO: Django livre (EUA)
DOCUMENTÁRIO: Elena

HOMENAGEM: Curso de Cinema da Universidade Federal Fluminense (UFF)

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

A obra-prima natimorta

Duna de Jodorowsky (2013)
A história do cinema registra inúmeros grandes filmes que nunca foram feitos, entre eles o Dom Quixote de Terry Gilliam, O coração das trevas de Orson Welles e, por quê não?, o Chatô do nosso Guilherme Fontes. O maior de todos, contudo, parece ter sido Duna, acalentado projeto de Alejandro Jodorowsky que nunca saiu do papel. Frank Pavich não tomou para si essa tarefa, mas fez um documentário expondo a história e de que modo ele poderia ter mudado os rumos do próprio cinema.

Pode-se amar ou odiar o cinema de Jodorowsky. Há os que o cultuam como um gênio verdadeiramente original e renovador da linguagem visual da Sétima Arte, entre os quais me incluo; outros o consideram um enganador, um charlatão. Mas não se pode é ficar indiferente a seu universo. Sua idéia de levar Duna para as telas vem da segunda metade dos anos 70. Ele se tornou um nome famoso na Europa graças à exibição, em Paris, de A montanha sagrada (1973). O filme encantou e hipnotizou o produtor Michel Seydoux (tio-avô de Léa Seydoux, de Azul é a cor mais quente), que se encontrou com o diretor e deu-lhe carta branca para fazer o que quisesse. Jodorowsky respondeu no ato, citando o nome do livro pelo qual havia se apaixonado.

Duna foi escrito por Frank Herbert em 1965. É considerado um monumento da literatura de ficção científica, a Bíblia do gênero. Ao longo de suas quase 700 páginas, desfila um universo impactante, repleto de figuras míticas, guerreiros, monstros, enfim, a essência de uma criação, capaz de transportar o leitor a um outro mundo e, mais importante, fornecer elementos suficientes para que abra sua mente e expanda seu horizonte intelectual e espiritual. No Brasil, foi publicado inicialmente pela pequena Editora Aleph e, posteriormente, pela Nova Fronteira.

Jodorowsky: antes de tudo, um visionário.
Com o aval de Seydoux, Jodorowsky se cercou daqueles que considerava os melhores e mais capacitados profissionais para concretizar o sonho de levar o livro para o cinema. Assim, escalou o premiado Jean Giraud, o quadrinista Moebius, para desenhar os storyboards; os efeitos especiais seriam criados por H. R. Giger, que se consagrou no final daquela década com Alien, o oitavo passageiro; a trilha sonora seria composta por sete bandas diferentes, cada uma para um universo particular de Duna, incluindo Pink Floyd, cujo álbum "Dark Side Of The Moon" cativou Jodorowsky. A maior ousadia, contudo, era no casting. O diretor sonhava em ter Mick Jagger, o pintor Salvador Dalí (que teria feito uma exigência salarial surrealista para participar), Orson Welles e David Carradine, este egresso da série Kung-Fu. O papel principal seria do próprio filho do diretor, Brontis, que chegou a ser treinado exaustivamente durante dois anos pelo mesmo professor de Bruce Lee (!) para apreender técnicas precisas de luta e movimentos.

A nave do imperador, na visão de Jodorowsky.
O diretor repete várias vezes que o seu Duna seria o maior filme da história do cinema, "algo que mudaria completamente a própria humanidade". Uma hipérbole presunçosa, talvez, mas quando vemos a arte criada por Moebius, reproduzindo as idéias do diretor, traduzindo-as em imagens por vezes delirantes, dá para ter uma noção de quão grandioso era o projeto. E é claro que não seria apenas mais um filminho descartável como tantos feitos em Hollywood: sendo uma obra de Jodorowsky, haveria uma mensagem metafísica, algo muito maior do que mero entretenimento. Gigantesco até na duração, porque o diretor o concebia como um filme de 12 horas, podendo chegar a 20!

Todo o infográfico do projeto foi reunido pelo diretor em um livro e distribuído aos estúdios de Hollywood. Os executivos ficaram impressionados com o material e muitos se dispuseram a filmá-lo, mas queriam que outro diretor tocasse o projeto. Claro que Jodorowsky não aceitou ("Era o meu sonho! Como vou deixar que outra pessoa mexa no meu sonho?"). As negativas constantes o levaram a uma longa fase de desânimo, na qual se distanciou do cinema e se embrenhou por outras áreas artísticas e pelo estudo de religiões.

As idéias nunca filmadas viraram livro.
A verdade é que o projeto foi considerado megalomaníaco demais, caro demais e, sobretudo, com baixa garantia de retorno, ou seja, provavelmente não seria compreendido pelo público. Era algo muito fora dos padrões hollywoodianos. A melhor explicação é dada por Richard Stanley, em uma das entrevistas: "Hollywood só se interessa pelo que entende. Uma mistura de vampiros com dinossauros é algo que faz sentido para eles, mas um filme com tamanha ousadia e com uma mensagem espiritual tão grande não seduz os estúdios." Muitos anos se passaram e essa definição nunca se mostrou mais atual. Seria diferente se Duna tivesse sido feito? Jamais saberemos.

Como todo mundo sabe, Duna chegou às telas em 1984, dirigido por David Lynch, escolha que Jodorowsky considerou acertada, porque era um cineasta que ele admirava. O resultado, contudo, foi desastroso e desagradou praticamente todo mundo. Ao que parece, nunca veremos o projeto original como pensado e estruturado por Jodorowsky. Mas partes dele ficaram espalhadas por diversos filmes, que aproveitaram alguns conceitos visuais criados para a Duna original, como O exterminador do futuro, Matrix e Contato, este utilizando toda a seqüência de abertura. E Jodorowsky também manteve a parceria com Moebius. Juntos criaram a série em quadrinhos Incal, outra obra que bebe nas referências criadas pelo diretor.

A considerar a crescente imbecilização do cinema norte-americano como um todo  e ouso dizer, da platéia de forma geral, refletindo a ignorância grassante em nossos tempos –, creio que nunca estaremos preparados para um projeto de tamanha magnitude estética ou espiritual, como acalentava o diretor.

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Em virtude da cobertura do Oscarito, o blog só volta a ser atualizado no dia 27 de agosto, com a lista dos premiados.