quinta-feira, 23 de abril de 2015

Minha noiva é um horror!

A noiva do Re-animator (1989)
Há muito tempo escrevi sobre um filme, Meu namorado é de morte. Resumindo: quando o vi pela primeira vez, achei engraçadíssimo, original, inventivo, a ponto de incluí-lo na minha lista de dez melhores surpresas de todos os tempos. Depois que o revi, muitos anos depois (inclusive com outro título, Namorado gelado, coração quente!), não resistiu e o encanto se perdeu. Achei-o bobinho, até um pouco grosseiro, com poucas boas idéias originais e uma trama fraquinha. Parece que, com exceção mesmo dos clássicos inquestionáveis, nenhum filme suporta uma revisão mais criteriosa, especialmente se amadurecemos nossas experiências cinéfilas e aprendemos a diferenciar o joio do trigo.

Este A noiva do re-animator foi descoberto, inicialmente, nas páginas do Guia Abril Vídeo 1992. A crítica não era lá muito simpática, conferindo-lhe apenas duas estrelas, ou seja, algo na linha "veja se não tiver nada melhor para fazer", afastando-o de um interesse ao menos mediano que justificasse uma locação. Mas fiquei muito atraído pelo comentário, que realçava certas qualidades discutíveis da obra: "Um dos espetáculos mais sangrentos e horríveis que se pode ver"; "um verdadeiro açougue humano"; "prato cheio para fãs do gênero"; "repelente para quem não gosta". Passei um bom tempo esperando para conferi-lo, já que a locadora não dispunha do título e repito, isso foi no começo da década de 90, quando não havia internet, Youtube e muito menos compartilhamento de arquivos pela rede. Fui salvo pelo SBT, que o programou para uma noite de quarta-feira. Como na época também não era comum o futebol-corujão nesse dia da semana, postei-me diante da televisão e saboreei cada minuto de mais uma missão cinéfila alcançada.

Criatura e criador: amor irracional.
Lembro que na ocasião, discordei da crítica. Gostei bastante, achei um filme assustador, com cenas chocantes e tensão crescente. O citado "espetáculo sangrento" se justificava pelos momentos mais perturbadores, também destacados naquele breve comentário. Acabou ingressando em outra relação minha, a de cult movies particulares. Pois bem, fui revê-lo no último final de semana, quando, ironicamente, não tinha nada melhor para fazer (ou ver) e fui novamente atingido pelos cruéis efeitos da passagem do tempo. Não o excluo da lista na qual já estava inscrito, mas o que me pareceu aterrador da primeira vez, hoje, me levou às gargalhadas. Mau sinal, aliás, péssimo. Ao mesmo tempo em que denota a fragilidade de uma obra, serve como prova cabal de como nos tornamos ácidos com o tempo, como nada sobrevive à inocência da primeira vez.

O filme é uma continuação de A hora dos mortos-vivos (1985, Reanimator no original), e começa onde o primeiro terminou. Após um violento massacre ocorrido em uma missão humanitária no Peru, os médicos e cientistas Dan Cain (Bruce Abbott, que tem mesmo cara de maluco) e Herbert West (Jeffrey Combs, um pouco mais humano) retornam à sua rotina no Miskatonic Hospital, enquanto, secretamente, roubam cadáveres para prosseguirem em suas tentativas de criar vida artificial. O projeto agora é reviver a falecida esposa de West, Meg, o que embute uma homenagem ao clássico A noiva de Frankenstein (1935), de James Whale repare no penteado e no gestual da criatura, Gloria, interpretada por Kathleen Kinmont. Logicamente, até que o resultado final seja alcançado, coisas horríveis ou risíveis, dependendo de quem assiste acontecerão.

Você acha que seu filho gostaria de brincar com isso?
As "atrações" citadas pelo Guia mais divertem do que assustam, com exceção dos três loucos, que mantiveram sua aura agonizante. Os "cinco dedos que andam pela casa com um olho em cima" mais parecem uma aranha saída de um desenho de Chuck Jones; eles aparecem quando os doutores recebem a visita do investigador e as tentativas dos dois para que o policial não perceba sua existência são hilárias, além de ter um desfecho condizente com o clima. A cabeça falante que depois ganha asas de morcego nas orelhas podia ser uma criativa fantasia de carnaval.

Hoje me aborreço com o ritmo algo lento da narrativa, mas o clima permanece lúgubre, o que salva o filme de ser um trash total. É verdade que A noiva do re-animator perdeu o viço com o passar dos anos, deixando de ser a história apavorante que se pretendia na época de seu lançamento (se é que houve tal intenção), mas, em contrapartida, conseguiu se firmar como uma descompromissada sessão de terror a ser vista entre amigos, com sustos e gargalhadas na medida certa. O tempo não poupa ninguém.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Beleza italiana

As maravilhas (2014)
Aguardado com grande expectativa no último Festival do Rio, As maravilhas acabou tendo sua exibição cancelada e restrita à Mostra de SP, para garantir o ineditismo de seu lançamento em terras brasileiras, uma disputa ridícula criada pelo falecido organizador do evento paulista, Leon Cakoff, e perpetuado pela viúva Renata Almeida, na qual quem sai perdendo são os cinéfilos. O tamanho da frustração foi proporcional à ansiedade do público, que, no entanto, já pode conferir a obra nos cinemas, onde entrou em cartaz nesta quinta-feira. Não é um filme fácil. Contudo, o espectador que se dispuser a embarcar no jogo de simbolismos proposto pela diretora Alice Rohrwacher (também roteirista e irmã mais nova da atriz Alba Rohrwacher) será plenamente recompensado.

A história se passa na zona rural da Itália, que mais se assemelha a um vilarejo fantasma, tal o isolamento em que vive aquela que parece ser a única família que ainda habita o local, formada pelo apicultor Wolfgang, sua esposa reprimida Angelica  e as quatro filhas, das quais a mais velha, Gelsomina, guarda para si a responsabilidade de cuidar das irmãs menores e dos afazeres domésticos mais pesados. O pai comanda o núcleo familiar com mão de ferro, sempre rígido em suas determinações, pouco afeito a qualquer tipo de carinho (não há um único momento de ternura entre ele e qualquer uma das mulheres que orbitam em seu universo). É um provedor no sentido mais tradicional e anacrônico da palavra. Evidentemente, o mundo conhecido e habitado pela família não é simpático e caminha rumo à demência, condenado ao desaparecimento inapelável, pela absoluta ausência de forças externas que injetem um mínimo de vida, mas é salvo da extinção graças ao acaso.

Gelsomina terá uma longa estrada da vida pela frente.
Um dia, em um dos raros momentos de lazer, à beira de um rio, uma das filhas descobre que está sendo gravado um programa de televisão ali perto, chamado "O país das maravilhas", espécie de reality show calcado nas antigas civilizações italianas que distribuirá prêmios em dinheiro para o vencedor. É a chance de escaparem da modorra e furarem a bolha em que estão encerradas. Paralelamente, a chegada de um menino alemão, que integra um programa social de reabilitação, promoverá ainda mais mudanças na estrutura engessada daquela família.

Visto com olhos desatentos, As maravilhas pode ser entendido apenas como uma coleção de cenas justapostas, interligando uma sucessão de acontecimentos aparentemente desinteressantes e carentes de um sentido maior que lhe confira unidade. No entanto, por baixo dessa superfície, há uma poderosa camada crítica, que discute temas complicados e condena de forma contundente certo imobilismo na construção de uma sociedade enclausurada pelo arcaísmo de suas tradições caducas.

O ritual da extração do mel, por exemplo, se transforma na glorificação de um patriarcalismo ancestral e ultrapassado: o produto das abelhas não é só o sustento da casa, mas, literalmente, é a seiva da vida, o próprio sêmen masculino, sem o qual toda a estrutura familiar desabaria. Conscientes ou não, as meninas têm noção de sua importância, e o desespero que se estampa na expressão de cada uma diante de uma cena de grande desperdício, amplificado pela palpável ameaça física – "Papai vai nos matar!" – denota o papel ocupado pelas mulheres naquele cenário. Neste sentido, o filme apresenta um discurso feminista muito poderoso, valendo-se da inteligência e da sutileza para dar o seu recado, coisa que as patetas integrantes do grupo Femen até hoje não entenderam.

O mundo real vem aí! Salvem o mundo real!
É um mundo de isolamento, estratificado pela permanência de uma situação estabelecida – a subserviência de uma "raça" sobre a outra – mas que anseia por mudanças, mesmo que seus gritos sejam pálidos, insistentemente repetidos, ameaças que não se concretizam ("Vou me divorciar! Vou me separar de você!"), não porque falte vontade, mas pela fragilidade que sustenta as personagens individualmente. Um mundo à parte do mundo real, que segue suas próprias regras mas entra em conflito quando se entrechoca com outras formas de vida. Assim, o menino alemão que é atirado no meio daquela família psicologicamente disfuncional assume, mesmo a contragosto, mesmo sem consciência, a função de uma válvula de escape: é o desabrochar sexual, que virá primeiro de maneira leve, delicada, por fim irrompendo em uma cena de forte impacto visual e simbólica na trama. Nele estão os novos dias. Nele está o novo tempo.

Também essa ambiência do estranhamento se sublinha no "espetáculo" apresentado pela pequena Caterina, que expele abelhas da boca com a naturalidade de um aceno, ignorando os olhares de espanto lançados pela platéia. Um momento de choque para a "vida real" que segue seu curso, mas perfeitamente normal para a família, que não percebe seu deslocamento e sua inadequação do estar-no-mundo.

As maravilhas é um filme tão intenso e tão repleto de metáforas e interpretações que fica difícil resumi-lo simplesmente de uma assentada. Precisa e merece ser visto mais de uma vez. Porém, justifica plenamente seu título, tanto do ponto de vista estético quanto pelo conteúdo, por vezes perturbador. Foi ovacionado durante 10 minutos no Festival de Cannes em 2014, do qual saiu com o Grande Prêmio do Júri. Arrebatador e, desde já, um dos melhores filmes do ano.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Pela pátria

Segurança nacional (2010)
Em uma das entrevistas apresentadas nos extras do DVD, o protagonista Thiago Lacerda assim define o filme: "Segurança nacional é um filme de ação feito de brasileiros para brasileiros". Mesmo verdadeira e autêntica, a frase acaba funcionando como uma piada pronta, porque algum gaiato pode dizer: "É por isso que não presta!". Mas a verdade é que essa produção precisa ser vista com certo afastamento crítico para ser melhor aproveitada.

Quando foi lançado nos cinemas, em 2010, Segurança nacional foi inapelavelmente demolido pela crítica especializada, que lhe apontou os mais variados defeitos, desde o roteiro absurdo e inverossímil até as cenas de ação fracas e constrangedoras. Deixei para ver o filme agora, e se não estamos diante de uma obra-prima do cinema nacional, tampouco ele pode ser classificado como um desastre completo. Há coisas muito mais canhestras no cinema tupiniquim do que essa tentativa de se fazer uma fita de gênero no país, algo raro, complicado (até pela dificuldade de distribuição e aceitação junto ao público) e, por outro lado, de uma iniciativa extremamente bem-vinda para renovação e oxigenação do nosso cinema.

Hoje é praticamente impossível competir com as comédias em termos de popularidade e possibilidade de renda, o que gera quase um abismo que só vem aumentando nos últimos anos, tanto que raramente um filme de outro gênero (geralmente um drama ou uma biografia musical) consegue furar o bloqueio e entrar no seletíssimo grupo dos campeões de bilheteria, e nem estou falando da casa dos milhões, porque isso restringiria ainda mais o panorama. Tão popular quanto as comédias na preferência cinéfila dos brasileiros, contudo, o cinema de aventura, ou de ação, como preferem alguns, já teve por aqui um porto seguro, rendendo oceanos de dinheiro com produções estreladas por astros que se tornaram quase íntimos do espectador médio. Falo de Bruce Willis, Stallone, Van Damme, Arnoldão antes da política etc. Ou seja, um cenário que se anunciava bastante promissor para quem quisesse se arriscar a pensar fora da moviola e fazer algo diferente. Afinal, com poucas variações culturais ou cenográficas, filmes de ação costumam ser iguais em qualquer lugar do mundo, desde que, é claro, não se exija a excelência técnica à qual Hollywood nos acostumou e que não tem como ser reproduzida em outas paragens. Pensamento análogo: os fãs desse tipo de filme não se importam com sua origem, então, por que não fazermos aqui também? A bilheteria é garantida!

Tenente Marcos Rocha: um herói de seu povo.
Foi talvez seguindo esse raciocínio que o jovem diretor Roberto Carminati, então apenas um estudante de cinema, fã confesso desse tipo de filme, resolveu se arriscar em sua segunda experiência na Sétima Arte – estreou com o desconhecido A fronteira (2003), rodado nos Estados Unidos. Ele mesmo escreveu o roteiro, garimpou o elenco e ousou imaginar uma trama por vezes rocambolesca. Após a aprovação da Lei do Abate, em 2004, que permite ao governo brasileiro derrubar aeronaves estrangeiras que invadam o espaço aéreo nacional sem autorização, Hector Gasca, o mais temido narcotraficante colombiano, irritado por não conseguir mais lucrar com o movimento de suas atividades por aqui, resolve se vingar promovendo atos terroristas em diversas capitais. Para combatê-lo, é convocado o agente Marcos Rocha, treinado por um órgão federal que quase ninguém sabe que existe, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que presta apoio a operações militares.

Sem referências anteriores em que se apoiar, Carminati bebe na fonte dos similares norte-americanos, tanto na ambientação das cenas de luta e perseguição, quanto na construção do universo habitado pelo herói. É como se estivéssemos assistindo a uma produção B rodada em Hollywood, só que falada na nossa língua e estrelada por gente nossa. Claro que há clichês, alguns inevitáveis, como o namoro do agente com a filha de sua supervisora (Ângela Leal), praticamente mantido em sigilo das duas e que só vem à tona muito tempo depois. A garota é interpretada por Viviane Victorette, em sua estréia no cinema, mais como elemento romântico, com pouco a fazer e com direito a uma rápida ceninha de bondage (mas, curiosamente, ela tem bastante espaço nos extras, com a segunda entrevista mais longa). Milton Gonçalves é o presidente negro prenunciado por Monteiro Lobato e Gracindo Júnior, como um deputado corrupto, vive um momento que, hoje, causaria urros da platéia nas salas, quando seu personagem é seqüestrado e ameaçado de morte pelo traficante!

A má recepção do filme por público em geral e crítica em particular deve ter abortado os projetos seguintes de Carminati, que se mostra entusiasmado nos extras, mas sem dúvida esbarrou na dificuldade de se fazer cinema por aqui, adiando ou enterrando os sonhos de uma juventude universitária idealista. Mas, visto hoje e com um olhar mais compreensivo, Segurança nacional nada fica a dever a outras bobagens acéfalas produzidas pelos ianques. Desligue o senso crítico e divirta-se.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Nas mãos de um pesadelo

As mãos de Orlac (1923)
Em 1919, O gabinete do Dr. Caligari dirigido por Robert Wiene e estrelado por Conrad Veidt, marcou o início do Expressionismo alemão no cinema. Quatro anos depois, a mesma dupla voltou a se reunir e realizou mais um dos clássicos daquele período, As mãos de Orlac.

O renomado pianista Paul Orlac está voltando para casa após uma série de concertos quando sofre um acidente no trem em que viajava. Consegue escapar com vida, mas sofre a perda mais dolorosa para qualquer pianista e tem as mãos amputadas. Os médicos transplantam para Orlac os membros de Vasseur, um serial killer recentemente condenado e executado. Sabedor dessa informação, o agora ex-virtuose das teclas passa a apresentar um comportamento estranho e violento, com ímpetos criminosos. A situação se complica quando ele começa a ter visões de um homem que se diz Vasseur, e que deseja atribuir a ele a autoria de vários crimes ainda não solucionados. Tudo pode ser apenas num delírio da mente perturbada de Orlac... ou não.

O tema da transferência de personalidade a partir do transplante de partes de corpos de outra pessoa seria amplamente explorado pelo cinema nas décadas seguintes, em maior ou menor grau, com pequenas ou grandes variações. Oliver Stone fez quase uma paródia deste clássico em A mão (1981), um de seus primeiros filmes (pouco conhecido e hoje esquecido até por nunca ter sido lançado em DVD), em que a vítima de manoplas assassinas é um pobre cartunista (Michael Caine), que recebe também os membros transplantados de um psicopata. O espetacular Santa sangre (1989). de Jodorowsky, também faz uma referência a este aqui, com a inesquecível fala final do protagonista: "Minhas mãos... estas mãos!"

Embora o visual do filme seja menos impactante visualmente que o trabalho mais famoso de Wiene, estão lá as principais características do movimento: os ambientes opressores, a fotografia contrastante entre luz e sombras, o gestual grosseiro na interpretação e o clima constante de pesadelo, confundindo o espectador em sua percepção de delírio e realidade.

Pena que a edição da Magnus Opus é tão pobre quanto a maioria, trazendo apenas biografias e fotos como extras. Um filme a ser descoberto ou revisto.

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Por motivos técnicos, o CineComFritas ficará sem atualizações nas próximas semanas. Voltaremos no dia 10 de abril. 

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Oscar 2015 - Todos os vencedores

Acho que não é errado dizer que foi uma surpresa o resultado do Oscar, entregue agora há pouco no Dolby Theatre. Não se podia descartar a força crescente de Birdman, mas muitos davam como certa a vitória de Boyhood, inclusive o editor deste blog, mesmo não tendo a menor simpatia pelo projeto de Richard Linklater. Que me desculpem os fãs do filme, mas a prova de sua mediocridade é que conseguiu perder até na categoria que poderia ser considerado imbatível, a de Montagem, a grande surpresa da noite, que foi para Whiplash – Em busca da perfeição. Prova que era mesmo um produto de marketing, com mais folclore em sua produção do que conteúdo na realização.

A cerimônia foi marcada pelas farpas e críticas disparadas pelo apresentador Neil Patrick Harris à própria Academia, pelo desprezo concedido ao filme Selma, logo em sua primeira fala da noite, quando expressou: "Aqui estão reunidos os mais brancos...", emendando uma falsa correção em seguida ("brilhantes da América"), obviamente se referindo à ausência de intérpretes negros entre os indicados do ano, cota que poderia ter sido preenchida pelo filme dirigido por Ava DuVernay, também relegada ao ostracismo.

O momento mais emocionante, por tabela, foi a apresentação de "Glory", a canção vencedora, uma catarse conduzida por John Legend e Common, que a defenderam no palco. Prestou justiça e marcou a posição dos votantes contra o absurdo esquecimento. Claro que omissões sempre vão acontecer no Oscar, mas algumas são tão escandalosas que fica difícil justificar.

Veja abaixo os vencedores em todas as categorias do Oscar 2015.


FILME: Birdman (Birdman or The unexpected virtue of ignorance) / Fox
DIRETOR: Alejandro González Iñarritu (Birdman)
ATOR: Eddie Redmayne (A teoria de tudo)
ATRIZ: Julianne Moore (Para sempre Alice)
ATOR COADJUVANTE: J. K. Simmons (Whiplash – Em busca da perfeição)
ATRIZ COADJUVANTE: Patrícia Arquette (Boyhood – Da infância à juventude)
ROTEIRO ORIGINAL: Alejandro González Iñarritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris e Armando Bo (Birdman)
ROTEIRO ADAPTADO: Graham Moore (O jogo da imitação)
FILME ESTRANGEIRO: Ida (Ida) (Polônia)
FILME DE ANIMAÇÃO: Operação Big Hero (Big Hero 6)
FOTOGRAFIA: Birdman
DIREÇÃO DE ARTE: O Grande Hotel Budapeste
FIGURINOS: O Grande Hotel Budapeste
TRILHA SONORA: O Grande Hotel Budapeste
CANÇÃO: "Glory" (Selma)
MONTAGEM: Whiplash – Em busca da perfeição
MAQUIAGEM: O Grande Hotel Budapeste
EFEITOS ESPECIAIS: Interestelar
SOM: Whiplash – Em busca da perfeição
EFEITOS SONOROS: American sniper
DOCUMENTÁRIO: Citizenfour (idem)
DOCUMENTÁRIO DE CURTA-METRAGEM: Linha de apoio ao veterano em crise (Crisis hotline: veterans press 1)
CURTA-METRAGEM: O telefonema (The phone call)
CURTA DE ANIMAÇÃO: O banquete (Feast)
Prêmio Jean Hersholt: Harry Belafonte


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Bolão pessoal do Oscar 2015

Como faço tradicionalmente desde 2012, quando o blog foi reativado, deixo aqui os meus palpites para o Oscar.

FILME
Parece que não tem jeito mesmo, e Boyhood – Da infância à juventude levará o Oscar. É o queridinho de todo mundo, já ganhou o Globo de Ouro de Drama e ainda chega turbinado pela conquista do Bafta no último final de semana, o que costuma ser o termômetro mais certeiro da premiação norte-americana (quase sempre os vencedores de um coincidem com os de outro). Como já escrevi aqui, detestei o filme, mas sou uma voz no deserto. Deve levar mais pelo projeto em si, pelo marketing, do que por suas qualidades cinematográficas. Ou seja, caso típico em que a indústria se rende à forma e esquece de avaliar o conteúdo. Minha torcida é toda para Whiplash – Em busca da perfeição, mas também ficaria feliz se Birdman saísse vencedor.

DIRETOR
Acompanhando o prêmio concedido ao seu filme, Richard Linklater entra para a galeria dos realizadores que tiveram seu talento oficialmente reconhecido por Hollywood. É uma figura muito querida, que bem já faz por merecer o prêmio, mas que poderia ter sido agraciado por alguma outra obra de sua interessante carreira.

ATOR
Aposto em Eddie Redmayne, que incorpora Stephen Hawking e também vem papando prêmios. A Academia adora esse tipo de interpretação que exige muito sacrifício físico – mas ele está mesmo muito bem em A teoria de tudo.  

ATRIZ
Se Julianne Moore não ganhar este ano, melhor esquecer a carreira e abrir um trailer de cachorro-quente. É redundante dizer que ela está espetacular em Para sempre Alice. O Oscar viria até pelo conjunto da obra.

ATOR COADJUVANTE
J. K. Simmons. Sem muita discussão.

ATRIZ COADJUVANTE
Todas as setas apontam para uma vitória de Patrícia Arquette, que consegue ser uma das poucas qualidades de um filme fraco, mas também contemplaria uma bela carreira. Mas aposto em Keira Knightley, que também já está fazendo por merecer uma estatueta.

FILME ESTRANGEIRO
Esta é uma das melhores seleções dos últimos anos, com cinco ótimos filmes – mesmo Timbuktu, que acho o mais fraco da lista, ganhou uma importância absurda pelos recentes atos de terrorismo propagados pelo Estado Islâmico. Apesar do equilíbrio, a disputa está entre o polonês Ida e o russo Leviatã. Cada um chega vitaminado por um prêmio de relevância: o primeiro ganhou o European Award, enquanto o segundo levou o Globo de Ouro da categoria e cresceu bastante nos últimos dias.

FILME DE ANIMAÇÃO
Foi um ano muito fraco para a animação, e a lista dos indicados comprova isso. Na falta de maior qualidade, optou-se por privilegiar o que rendeu bem aos cofres dos estúdios. Pela lógica, quem ganha é Operação Big Hero, um campeão mundial de bilheteria tanto quanto Frozen – Uma aventura congelante, ganhador ano passado, mas sem a mesma excelência de realização. 

ROTEIRO ORIGINAL
Não gosto dos filmes de Wes Anderson, acho seus roteiros enrolões demais para situações tão simples e nunca chegam a lugar algum. Mas meu voto vai para O Grande Hotel Budapeste, onde o diretor finalmente conseguiu dar sustentação dramática suficiente para justificar as muitas opções narrativas propostas pelo roteiro mirabolante.

ROTEIRO ADAPTADO
Aqui, meu palpite é por A teoria de tudo. Pode ser cheio de omissões e atenuantes dramáticas em prol de maior funcionalidade nas telas, mas a adaptação da vida do físico Stephen Hawking alcança o objetivo final, qual seja, emocionar a platéia. Mas, se houver justiça, o prêmio deveria ir para Vício inerente, pela proeza de conseguir adaptar para o cinema um livro de Thomas Pynchon.

FOTOGRAFIA
Embora seja o menos cotado da lista, aposto no azarão Invencível. Por quê? Bem, Hollywood está devendo um agrado à Angelina Jolie há muito tempo, e de que outra forma isso pode acontecer a não ser premiando um filme dirigido por ela?

DIREÇÃO DE ARTE
Outro prêmio para O Grande Hotel Budapeste, com sua belíssima recriação de um universo que funde o realismo de cenários reais à imaginação delirante de seu criador.

FIGURINOS
Esnobado pela Academia em categorias de maior relevância – muitos apostavam que Timothy Spall seria finalista entre os atores – Mr. Turner sai do Oscar com este prêmio de consolação.

MAQUIAGEM
Mais um para premiar a excelência técnica de O Grande Hotel Budapeste.

CANÇÃO
Não só "Glory" (de Selma) é a melhor entre as indicadas, mas também fará justiça a um filme que foi desprezado pela Academia e poderia ter rendido muitas outras nomeações.

TRILHA SONORA
Divertida e solene ao mesmo tempo, a trilha de O Grande Hotel Budapeste sai vencedora aqui.

MONTAGEM
Parece óbvio que um filme feito ao longo de 12 anos e que consegue contar uma história com começo, meio e fim é o favorito absoluto desta categoria. Se há algum mérito em Boyhood – Da infância à juventude é justamente sua competência na edição narrativa.

EFEITOS ESPECIAIS
O interessante mas mal-compreendido Interestelar será imortalizado na história graças ao prêmio nesta categoria.

SOM
Filmes de temática musical sempre são favoritos neste quesito. Portanto, meu palpite vai para Whiplash – Em busca da perfeição.

EFEITOS SONOROS
Não dá para imaginar um filme de Clint Eastwood saindo de um Oscar sem levar nada. Pois o seu American sniper fatura aqui. Em tempo: recuso-me a usar a ridícula tradução inventada tanto pela distribuidora Warner quanto pela Editora Intrínseca, que publicou o livro em que o filme se baseia. Ou se traduz tudo ("Atirador americano") ou mantém-se o título original! Não aprenderam ainda?

DOCUMENTÁRIO
Apesar do prestígio de Wim Wenders, do reconhecimento mundial do trabalho de Sebastião Salgado  e de toda a torcida brasileira, para os norte-americanos nada é mais importante do que a própria história em curso. Citizenfour, que conta os bastidores das denúncias feitas por Edward Snowden, deixará o Brasil, mais uma vez, fora de foco no Oscar.

DOCUMENTÁRIO DE CURTA-METRAGEM
Agora é palpite puro e simples. Meu voto aqui é para Crisis hotline: veteran press 1, que já foi exibido pela HBO daqui.

CURTA-METRAGEM
Fico com Parvaneh.

CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
Minha aposta é em The dam keeper.

A cerimônia do Oscar será realizada no próximo dia 22 e os resultados você confere aqui no CineComFritas já no dia seguinte.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Quando a leitura vira pesadelo

O senhor Babadook (2013)
Hoje em dia é tão difícil assistir a um filme de terror minimamente decente, ou seja, que fuja à fórmula fácil de sangue a rodo e tortura gratuita, que quando descobrimos algum que trilhe outros caminhos já é motivo de aplauso. Este O senhor Babadook é uma produção australiana, país que tem relativa tradição no gênero, e dá para imaginar o estrago que Hollywood vai fazer no caso de uma muito provável refilmagem local.

Uma jovem mãe viúva se muda com seu filho de 8 anos para uma nova casa em Sydney, na tentativa de dar fim aos pesadelos que assolam as noites do menino. Só que o tiro sai pela culatra: o moleque não só continua tendo sonhos aterradores, mas também vai se tornando cada vez mais violento. As ameaças e atitudes agressivas do pequeno coincidem com a descoberta de um livro infantil, chamado Babadook, de história e desenhos (como pop-ups, que saltam das páginas quando são abertas ou viradas) altamente perturbadores, tratando de morte e assassinato  muito instrutivo para o universo infantil, como se vê. A mulher destrói o livro, mas agora ela é quem passa a ser assombrada por pesadelos. E, brevemente, descobrirá que aquela não é apenas uma historinha supostamente para crianças: é uma força demoníaca que quer destruir ela e o filho.

O que me incomodou no filme foram os cortes, rápidos e por vezes abruptos, interrompendo cenas que soam incompletas com tal recurso. A montagem, por tabela, é acelerada, o que compromete um pouco o clima assustador que a história, de maneira gradual, vai criando. Mas, quando se propõe a montar uma atmosfera de medo e tensão, o roteiro consegue, com sobras. Há cenas realmente de gelar o sangue, a ponto de eu pensar que não é um filme adequado para se ver sozinho à noite, e isso é um elogio e tanto a qualquer produção atual do gênero.

A figura do misterioso Babadook nunca é vista de forma explícita, apenas sua silhueta ou reproduzida nos desenhos  também aparece encarnada em tipos vistos nas primeiras experiências cinematográficas de Meliès (mas tudo pode ser um delírio visual da mãe).

Também me frustrou a ausência de uma explicação para as origens do personagem. O Babadook seria um livro amaldiçoado? Um demônio ancestral? A representação de uma maldição milenar que habita aquela casa? O roteiro não explica nem fornece pistas para o espectador. Mas esse detalhe não compromete a montanha-russa de sustos bem-encaixados. 

A diretora e roteirista Jennifer Kent, que também é atriz (esteve em Babe, o porquinho atrapalhado na cidade, 1998, mas não aparece aqui) apresenta um bom cartão de visitas na sua estréia no longa-metragem. Ajustes precisam ser feitos, mas o início é promissor.