quinta-feira, 24 de maio de 2012

Fritas no cardápio


HOMENS DE PRETO 3 – Hoje muita gente nem lembra mais, mas no final dos anos 90, o também fotógrafo Barry Sonnenfeld dirigiu as duas primeiras aventuras dos agentes secretos que têm por missão identificar e combater os extraterrestres que vivem entre os humanos, disfarçados das mais variadas formas. Uma piada que se tornou antológica no primeiro filme, de 1997, era afirmar que Michael Jackson era um ET, por isso precisava mudar tanto de fisionomia (com branqueamentos e plásticas), para não ser identificado (a piada é requentada nesta terceira parte, agora com Lady Gaga)!



O sucesso do primeiro filme justificou uma seqüência, já tardia, lançada cinco anos depois, na qual as boas idéias acabaram recicladas e esgotadas. Imagino que o recurso do 3D tenha sido o grande apelo para esta terceira parte, novamente assinada por Sonnenfeld, que agora volta ao passado, aos anos 60, e mostra o início dos trabalhos da Men In Black (o nome da organização). Como Tommy Lee Jones já estava meio velho para uma comédia de ação, o jeito foi criar uma versão mais jovem de seu personagem, interpretado por Josh Brolin. As novas gerações que talvez não conheçam a franquia original podem se divertir.
Veja o trailer:



FLORES DO ORIENTE – Um novo filme de Zhang Yimou é sempre uma atração no circuito, mesmo quando ele trabalha com um tema aparentemente deslocado dentro de seu estilo. Aqui, o colorido que é marca registrada de seus trabalhos cede lugar à escuridão e à penumbra para contar uma história passada durante a Guerra Sino-Japonesa.


 Nanjing, 1937. Um renegado norte-americano chega a uma igreja local para providenciar o enterro de um padre. Lá encontra um grupo de crianças traumatizadas pelos horrores do combate e várias cortesãs. Sozinho em uma terra estranha, o jovem irá sucumbir aos prazeres da carne, ao mesmo tempo em que tentará proteger o local dos ataques bélicos. Yimou arranca poesia do horror e compõe um interessante quadro de romance em meio à tragédia. Sempre vale a visita.
Veja o trailer:


MR. SGANZERLA, OS SIGNOS DA LUZ – Um filme sobre Rogério Sganzerla, em seu estilo, dirigido por Joel Pizzini parece tão surreal que merece uma conferida. Para quem não liga os dois nomes acima às respectivas pessoas, é como se David Lynch fizesse um longa sobre Salvador Dalí seguindo o mesmo estilo das pinturas do mestre espanhol. Pizzini é reconhecidamente um realizador que capricha na poesia de suas imagens e no experimentalismo de seus projetos. Aqui, ele faz uma bonita homenagem a Sganzerla, prestando tributo ao mestre sem abrir mão de suas referências estéticas. O subtítulo também remete ao último filme de Sganzerla, O signo do caos. Sugiro que seja visto como complemento a Luz nas trevas, ainda em cartaz, que também remonta ao universo do diretor “marginal”.
Veja o trailer:




A DELICADEZA DO AMOR – Moça perde o marido em acidente e, durante seu período de luto, acaba se apaixonando (e sendo correspondida) por um colega de trabalho. Comédia francesa sem maiores referências. A maior atração é Audrey Tautou, que sempre merece uma espiada.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Fritas no cardápio


O CORVO – Enfim uma idéia criativa saída de Hollywood. Ao contrário do que o título faz supor, esta não é a refilmagem do sucesso homônimo de 1994, cuja fama se deveu mais ao trágico acontecimento que vitimou o protagonista Brandon Lee, filho do lendário Bruce Lee. Da história todos se lembram, ele morreu durante as filmagens ao ser atingido por uma bala de verdade enquanto gravava uma seqüência (a cena está no filme). Mas o corvo aqui é outro.

Trata-se do mais famoso poema de Edgar Allan Poe (1809-1849), que serviu de base para o ator Ben Livingston (de Todo poderoso e várias séries de TV) estrear como roteirista, em parceria com Hannah Shakespeare (!!!). Da imaginação dos dois, criou-se um argumento que, se não é exatamente original, ao menos merece uma conferida. Uma série de crimes inspirados pelos contos escritos por Poe aterroriza a Inglaterra vitoriana. Intrigado com os assassinatos, o próprio autor decide investigar e dá vazão a sua porção detetivesca. John Cusack levou dois anos para se recuperar do horrível A ressaca e encarna um Poe com ares de Sherlock Holmes. Mas um filme que tem Poe como personagem e alguém de sobrenome Shakespeare como roteirista deve ter, no mínimo, boas sacadas literárias. Alguém arrisca?

O QUE EU MAIS DESEJO – Considerado um dos diretores mais interessantes do cenário oriental atual, o japonês Hirokazu Kore-Eda tem fama de fazer filmes longos e cansativos, que pedem um público cúmplice e disposto a enfrentar a lentidão da narrativa. Seu trabalho anterior, Ninguém pode saber (2004), rendeu inúmeras críticas bastante favoráveis na época de seu lançamento.

Aqui, ele volta a trabalhar com crianças neste drama sobre dois irmãos (também na vida real) que vivem separados, um com a mãe e a avó, outro com o pai, músico ausente. Os meninos estão sempre se falando e combinam uma forma de reunir toda a família, o que envolve uma simbólica viagem de trem. Emoção à vista e muita sensibilidade. Mas não é para todos os públicos.

MÃE E FILHA – Uma experiência de cinema sensorial conduzida pelo diretor Petrus Cariry, um dos principais nomes do novo cinema nordestino. Com economia de diálogos, ele mostra o doloroso reencontro entre mãe e filha no sertão pernambucano, após anos de afastamento. Muita melancolia, que pode respingar no espectador.

PLANO DE FUGA – Novo filme policial de Mel Gibson, dessa vez ambientado na fronteira mexicana. Precisa de mais algum detalhe? Quem gosta do estilo truculento de seus trabalhos vai curtir de montão. O trailer já dá uma boa idéia do que o espectador vai encontrar.

O VENDEDOR – Marcel Levesque é um vendedor de carros de Quebec, no Canadá, que todos os meses supera seus colegas no quadro de vendas. Sua vida caminha modorrenta rumo à aposentadoria até que o fechamento de uma fábrica local irá afetar a vida de todos, levando Marcel a rever alguns conceitos. Drama lento e tão gélido quando a paisagem em que se desenrola.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Confissões de um seriemaníaco - III


PRÓFUGOS
Onde e quando: HBO Signature, temporada encerrada.
Elenco: Benjamin Vicuña, Blanca Lewin, Nestor Cantillana, Francisco Reyes, Luís Gnecco.
Sinopse: Quatro mercenários são contratados para transportar uma carga de cocaína do Chile até a Bolívia, mas são emboscados no meio do caminho. Escapam e se tornam foragidos (prófugos). Há um policial infiltrado entre eles.
Por que ver: Esta primeira produção original da HBO rodada no Chile nada deixa a dever às séries policiais norte-americanas. O ritmo é intenso, sobretudo nos primeiros episódios, quando o quarteto de contrabandistas precisa empreender planos mirabolantes de fuga, sem saber que entre eles há um agente da lei que repassa informações para os federais. Com ótimas cenas de ação e uma química perfeita entre os intérpretes, agrada pela movimentação, pelos roteiros tensos e pela ótima produção. O elenco é famoso na televisão local, todos têm larga experiência em outras séries, sendo que alguns já se arriscaram em cinema (Gnecco pode ser visto no recente A dançarina e o ladrão).
Por que não ver: Pode haver certa resistência por parte do espectador comum que gosta de séries originais americanas, acostumado com uma narrativa mais agitada. Aqui o ritmo é mais pausado, o foco são as relações entre os fugitivos, o que desagrada quem prefere narrativas mais rápidas e menos dialogadas. Além disso, é provável que haja preconceito terceiro-mundista em relação a uma produção do gênero rodada no nosso continente. Latino sabe contar uma história de ação? Algumas cenas exageram na violência, também. O grande problema, porém, é que o elenco é completamente desconhecido por aqui, com exceção de Blanca (quem curte a cena alternativa já a conhece, é a atual musa do cinema chileno), o que afasta os espectadores, que preferem ver rostos famosos. O público feminino rejeitará inteiramente.

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ERRATA
Ao contrário do que escrevi na sexta-feira, Battleship – batalha dos mares não está sendo exibido em 3D em nenhuma sala. O motivo é inusitado. Em entrevistas, o diretor Peter Berg confessou que não gosta do formato e tem dores de cabeça quando vê um filme assim. Então, não quis nem trabalhar com a tecnologia, nem repassar o problema para os espectadores. Gostei muito da justificativa e, principalmente, da personalidade do cineasta. No momento em que a indústria do cinema somente está preocupada com os lucros, e lança um filme em 3D por semana nas salas, ouvir um diretor assumir que não se sente à vontade com esse recurso até dá esperança que o cinema volte a ser valorizado pelo que realmente importa: um bom roteiro (não que seja especificamente o caso do filme dele). Grande Peter Berg!

segunda-feira, 14 de maio de 2012

A virtude está no meio


Aos 27 anos, o jovem Adam é um radialista em carreira ascendente. Mora numa casa bacana e tem uma linda namorada ruiva. Tudo vai bem na sua vida, até descobrir que é portador de um raro tipo de câncer na coluna. Suas chances de sobreviver ao exaustivo tratamento são de exatos 50%. Começa, então, um espetáculo de lágrimas e desespero, e o que era bem-humorado no começo se perde em uma chorumela insuportável. Certo?

Bem, se esta fosse mais uma adaptação de obra de Nicholas Sparks, seria até provável. Mas este filme, 50%, foi uma das boas surpresas do começo do ano nos Estados Unidos, recebendo críticas bastante favoráveis. Estranhamente, porém, foi esnobado pela Academia, que o rejeitou na hora de distribuir as indicações, mesmo sendo melhor do que pelo menos metade dos indicados ao prêmio principal, mas não passou despercebido pelo Globo de Ouro, que lhe conferiu duas nomeações. Mais estranho ainda é que não tenha encontrado espaço no circuito exibidor nacional, sendo relegado à prateleira de DVDs (é aquela velha história: para cada American pie que ocupa 300 salas pelo país, uma jóia como essa fica no limbo). E, embora o filme seja apresentado como uma comédia dramática, não há muito em que pensar na hora de classificá-lo nas locadoras.


 Fazer humor a partir de doenças ou situações terminais, além de difícil, é de um mau-gosto atroz, desumano, chega a ser cruel. Tanto que, mesmo nesses tempos cínicos que vivemos, não há praticamente exemplos dessa mistura indigesta. Lembro-me de Homer e Edie (1989), com Whoopi Goldberg e James Belushi, que conta a história de uma improvável amizade entre um homem deficiente mental e uma mulher que carrega um tumor na cabeça (pesado, mas tem lances cômicos, sem serem ofensivos). Há, claro, aquela cena horrível com o testículo de Gatos numa roubada (2001), que só pode ter sido concebida por uma mente doente. Mas aqui não há a preocupação de aliviar nada pela via do riso. O tema é tratado com o respeito e a seriedade que merece. A habilidade do roteiro, inspirado na história real de seu próprio autor, Will Reiser, é saber introduzir elementos e momentos de um terno humor sem errar a mão, sem expor o protagonista ao ridículo. Essa habilidade foi reconhecida no Independent Spirit Award (ISA), que premiou o filme na categoria de roteiro original (a mesma em que foi indicado ao Globo de Ouro).


O grande lance do roteiro é, simplesmente, tratar os personagens como seres humanos comuns, iguais a eu, você, nossos amigos e familiares. Assim, tudo no filme obedece à lógica fracionária do título: nada é inteiramente bom ou ruim. Ao mesmo tempo em que Adam polariza a piedade da platéia, também age como um filho desnaturado, que foge dos contatos telefônicos da mãe por não agüentar sua preocupação excessiva e fingir “desconhecer” a condição do pai, que tem Alzheimer – ou seja, não deixa de provocar também certa antipatia, assumindo um comportamento condenável, “lavando as mãos”. A doce namorada de Adam, que no começo se mostra apaixonada e disposta a tudo para sustentar seu amor, também não é o que parece. O melhor amigo tenta levantar-lhe o astral, levando-o a festas, mas usa seu estado de saúde para sensibilizar garotas e dormir com elas. 


A psicóloga (com quem Adam se recusa a tratar a princípio, por ser mais nova do que ele!) mostra-se insegura no começo, mas cresce, como pessoa e como profissional, ao longo dos encontros com seu paciente, e é responsável por uma das cenas mais duras do filme, quando condena o comportamento evasivo de Adam em relação à mãe (“Ela já não pode conversar com o marido, e agora também não tem você. Está sozinha no mundo e só tenta apoiá-lo, mas você a rejeita”). Essa dualidade também transparece na própria montagem da narrativa, que começa de forma bem-humorada, cede espaço para o drama, sem jamais cair na pieguice, equalizando ambas as situações, evitando que a fita se torne nem tão dramática a ponto de soar exagerada e insuportável de assistir, nem tão engraçada de forma a cair na grosseria. Uma qualidade admirável, um equilíbrio muito raro de se atingir, sobretudo hoje em dia. Bola dentro.

Contribuem para o ótimo nível do filme as boas atuações, quase todas no ponto. Joseph Gordon-Levitt confirma o talento que despontou em 500 dias com ela e compõe um protagonista muito humano, na medida certa entre a esperança e o desespero, o que lhe valeu uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor Ator em Comédia ou Musical (mesmo que 50% não seja nem uma coisa nem outra!). Anjelica Huston faz a mãe amorosa que esconde suas dores sem se alterar em momento algum. Anna Kendrick (a amiga de Vera Farmiga em Amor sem escalas) empresta doçura e firmeza necessárias à psicóloga residente. Bryce Dallas Howard (sempre linda e fiel ao seu estilo, mudando de cara e penteado a cada novo filme) empresta a ambigüidade adequada ao papel. 


Mas o grande nome, para mim, é Serge Houde, veteraníssimo ator canadense, geralmente coadjuvante, com quase 130 filmes no currículo – você pode nem se lembrar dele, mas certamente já o viu em O pagamento de John Woo, O dia em que a Terra parou com Keanu Reeves, Por amor com Michelle Pfeiffer – que interpreta o pai alienado do mundo por força de sua doença incurável. Uma grande presença, capaz de marcar o tom do personagem apenas com a vaguidão do olhar ou a inércia de ações (apesar de eu achar sua última cena equivocada, parecendo negar a natureza do seu Richard). A curva fora do mapa é Seth Rogen, que exagera na grosseria como o melhor amigo, conta piadas sexistas e trata as mulheres como objetos. Parece estar em uma daquelas comédias adolescentes que lhe deram fama, não em um drama sério e consistente. Falta-lhe humanidade, embora sua justificativa final redima o personagem.


Uma promissora estréia de Will Reiser como roteirista (ele também interpreta Greg) e direção segura de Johnatan Levine (sem nada importante no currículo, antes fez Doidão, que só passou aqui no Festival do Rio, e o suspensinho Tudo por ela). Também nos faz questionar o tipo de relacionamento que mantemos com as pessoas que nos são queridas e próximas, que hoje estão ali, amanhã podem não estar. Emocionante, bonito e bem realizado. 

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Fritas no cardápio


PIRATAS PIRADOS – A equipe da Aardman já nos legou verdadeiras pérolas do cinema de animação. Primeiro com A fuga das galinhas, depois com a dupla Wallace e Gromit, desde seus curtas iniciais até sua aventura em longa-metragem, Wallace e Gromit – a batalha dos vegetais. Este é mais um exemplar da fábrica de alegres loucuras que é a produtora inglesa, uma das mais queridas no coração de quem gosta do gênero.


Aqui, ela aproveita para fazer piada com a série Piratas do Caribe, mas sobram referências para vários outros sucessos recentes. Um grupo comandado pelo amalucado Capitão Pirata sai em busca do prêmio de Pirata do Ano, mas para isso terá de derrotar seus grandes rivais. E a diversão está garantida! As vozes originais são de Hugh Grant, Salma Hayek, Imelda Staunton e Brendan Gleeson, mas você só vai poder ouvi-las quando sair o DVD, porque, claro, aqui só vai passar a versão dublada (então por que diabos fazem tanta propaganda das vozes originais nos anúncios?).
O único trailer legendado que encontrei foi este (ao que parece, não é oficial). Aproveite.


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UMA LONGA VIAGEM – O grande vencedor do Festival de Gramado de 2011 é mais um filme que ecoa as dores da ditadura militar, uma chaga que, parece, nunca vai cicatrizar no cinema brasileiro.


Misto de drama e documentário, narra os desencontros de três irmãos: o mais novo é mandado para Londres, para não entrar na luta armada que acaba por seduzir o irmão mais velho. Já a irmã do meio se torna presa política e, anos depois, cineasta formada, relembra a história por meio de cartas que trocou com o irmão exilado e entrevistas feitas com ele. Sensível e poético, é uma espécie de expurgo das dores familiares da diretora, Lúcia Murat. Caio Blat também levou um Kikito por sua atuação neste filme.
Veja o trailer:



BATTLESHIP – BATALHA DOS MARES – O blockbuster da semana é esta adaptação para cinema de um popular jogo de tabuleiro (sic) (não confundir com o conhecido Batalha Naval), ou seja, crê-se que Hollywood em breve irá fazer filmes a partir de figurinhas de chiclete. Há todos os artefatos esperados de uma superprodução do gênero: cenas grandiloqüentes de batalhas, explosões, algum romance, piadinhas sem graça e os efeitos especiais que são, afinal, o grande atrativo desse Independence day aquático. Mas o maior deles está mesmo no elenco, a cantora Rihanna fazendo sua estréia como atriz, escondida em uniforme militar falando meia dúzia de frases idiotas. Mas é claro que todo mundo vai querer ver, então, para que escrever uma crítica sobre este filme? É claro também que será exibido em 3D em algumas salas, para quem quiser sentir o gosto da água salgada na sala escura e agüentar passar três horas vendo o balanço do mar sem se sentir enjoado.

O EXÓTICO HOTEL MARIGOLD – John Madden ganhou o Oscar de melhor diretor em 1999 por Shakespeare apaixonado, mas hoje pouca gente se lembra disso. Egresso do teatro inglês, sua carreira tinha tudo para deslanchar no cinema, mas não foi o que aconteceu. Madden limitou-se a dirigir títulos sem muito impacto ou ressonância no meio, como o adocicado O Capitão Corelli e o razoável, mas sem maior destaque, Killshot – tiro certo. Este aqui segue o mesmo caminho e não deverá ter mais atenção. A trama acompanha um grupo de aposentados ingleses que resolve se mudar para um recém-inaugurado hotel na Índia e descobrem que o lugar não é aquilo tudo que os anúncios vendiam. O elenco é bom: tem Judi Dench, Tom Wilkinson, Maggie Smith, Bill Nighy e até Dev Patel (o astro de Quem quer ser um milionário, lembram-se?), dando o tempero local.

AMOR E DOR – A mais banal e ridícula das rimas poéticas dá nome a este filme sobre uma estudante chinesa que chega a Paris e se apaixona por um jovem trabalhador local. Quando ela precisa voltar a seu país, percebe como era grande o amor que sentia pelo rapaz. Pela sinopse, o filme tem mesmo tudo a ver com a rima que lhe serve de título.

ROMANCE DE FORMAÇÃO – Documentário nacional mostrando as aventuras e atribulações de jovens estudantes que saem do país para fazer intercâmbio no exterior. A “formação” refere-se à sua capacitação intelectual e profissional; o “romance”, óbvio, descreve os caminhos do coração, sempre imprevisíveis, mesmo diante das barreiras lingüísticas. Para jovens que vivem a mesma realidade mostrada na tela, o filme é obrigatório. Quem tem mais de 20 anos e um diploma na mão, não terá maior interesse.

PARA POUCOS – Comédia francesa que gira sobre um romance a quatro. Com a sumida Elodie Bouchez, que teve seus melhores dias na juventude, quando estrelou A vida sonhada dos anjos e Diário roubado. Será que o título nacional é autoexplicativo?

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Confissões de um seriemaníaco - II


SWITCHED AT BIRTH
Onde e quando: Sony Spin, segundas, 23h; domingos, 21h.
Estrelas: Katie Leclerc, Vanessa Marano, Sean Berdy, Marlee Matlin (em alguns episódios).
Sinopse: Duas meninas que foram trocadas na maternidade se reencontram após 16 anos. De famílias antagônicas (uma rica, outra pobre), tentam juntar suas vidas e lidar com a nova realidade que se impõe. Há um elemento complicador: uma das garotas é surda, o que forçará mudanças radicais em todos os envolvidos.



Por que ver: Não me lembro de nenhuma outra série que trate de um tema parecido e inclua uma deficiente auditiva entre seus personagens principais. Assim, ela acaba funcionando como plataforma para discussão a respeito da convivência entre diferentes, trazendo à tona os problemas de interação social experimentados pelos surdos. Esse detalhe reforça o caráter dramático da série, que, por sua natureza, pode servir especialmente para estudantes de áreas conexas à realidade mostrada (fonoaudiologia, pedagogia), já que tem várias cenas “faladas” na língua de sinais – as diferenças entre a língua norte-americana de sinais e a nossa libras podem render bons debates. As duas atrizes principais são muito bonitas, e Katie Leclerc, que interpreta a surda Daphne, é especialmente talentosa. Um grande achado da produção foi ter encontrado um ator surdo-mudo para interpretar o mesmo papel na série, o jovem Sean Berdy, o que confere mais realismo e verossimilhança à história.
Por que não ver: Sofre do mesmo mal que acomete outras produções em série: a temporada longa (são 22 episódios) obriga os roteiros a caírem na repetição. Uma vez superado o estranhamento da situação inicial, a ambientação da garota surda acontece sem maiores conflitos, como se tivesse passado a vida inteira convivendo entre os ouvintes. Em que pese o fato de usar um aparelho auditivo, parece não encontrar dificuldade alguma no seu dia a dia. O pai de uma delas reaparece e lá pelo meio inventam uma história de crime cometido em seu país de origem (é italiano), sem que isso abale as estruturas das relações entre os personagens, e o assunto é logo deixado de lado também. Da mesma forma que alguns temas que poderiam render são logo abandonados. Por exemplo, o namorado negro de uma das garotas leva um fora logo no começo, se engraça para a irmã surda (que é loura) e também é despachado (deve ser muito ruim de namoro!). Ou seja, os roteiristas não quiserem se comprometer com assuntos mais explosivos, talvez temendo pesar demais uma atração voltada basicamente para o entretenimento. A ausência de nomes famosos no elenco pode afastar o espectador. Posso estar enganado, mas a série me passa a impressão de ser melhor compreendida e angariar mais simpatia por parte do público feminino.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Miojo com sangue


Estamos sempre criticando a mania que Hollywood tem de refilmar obras originais de outros países, quase sempre com resultado inferior, seja porque tal artifício evidencia a falta de criatividade para se escrever histórias novas (é melhor aproveitar algo que já existe e reciclá-lo para o cenário local), seja pela distorção conferida a inúmeros aspectos culturais da trama. Mas o feitiço também vira contra o feiticeiro e, neste filme de título comprido e curioso, Uma mulher, uma arma e uma loja de macarrão, temos o inverso: uma refilmagem oriental de um filme norte-americano, no caso, Gosto de sangue, que marcou a estréia dos Irmãos Coen, em 1984.



O nome por trás da ousadia é Zhang Yimou, um dos maiores diretores chineses e o principal realizador daquele país na atualidade. Um mestre no manejo de cores, luzes e movimentos, ele tem cacife para fazer o que quiser. São dele alguns dos filmes mais bonitos dessa primeira década do século, como Herói, O clã das adagas voadoras,  A maldição da flor dourada, todos dotados de um visual belíssimo, e o mais recente, e também deslumbrante, A árvore do amor. Este seu novo projeto, o mais francamente comercial de sua carreira, acompanha a qualidade dos demais, destacando-se por se tratar de uma comédia, gênero no qual ainda não havia se aventurado. O resultado é bastante satisfatório.

O roteiro segue a mesma estrutura narrativa do filme dos Coen, com um ou outro pequeno detalhe modificado (fora, evidentemente, o fato de ser rodado na China, ou seja, com o tempero local!). A mulher do dono de um restaurante de macarrão começa a ter um caso com um funcionário novo. O marido descobre e contrata um pistoleiro para dar fim aos dois, mas as coisas tomam um rumo inesperado.



 Fazer mistério da história é meio desnecessário, já que se trata de versão de um roteiro conhecido. O curioso aqui é constatar a versatilidade de Yimou, que continua sendo um mestre no domínio de câmera e consegue imprimir seu estilo mesmo num gênero que lhe é estranho. Se por um lado as cores fortes e contrastantes, uma de suas marcas, quase não aparecem (não esqueçam que se trata de um film noir, portanto, reza por uma cartilha muito característica), por outro, o diretor confirma suas qualidades de fotógrafo, trabalhando sombras e penumbras com a mesma competência.

Há cenas que remetem diretamente ao clássico original dos Coen (como a do corpo sentado na cadeira deixando o sangue escorrer; as tomadas por cima) e uma dose de bom humor que não existe na versão norte-americana, afinal, não se pode esquecer que se trata de uma comédia. Ou seja, Yimou não só presta uma homenagem aos irmãos diretores, mas também reconta do seu jeito a história.



O filme foi exibido no Festival do Rio e, estranhamente, não encontrou espaço no circuito exibidor, saindo direto em DVD. Talvez para compensar, a distribuidora caprichou na edição, que chega com quase duas horas de extras, mostrando a preparação do elenco, as cenas de ação, entre outros destaques, todos legendados (o que não é muito comum partindo da Sony). Mas desperdiçou uma grande sacada ao traduzir o título original ao pé da letra – poderia muito bem ter ficado “Gosto de sangue e macarrão”!

Se Hollywood quase sempre estraga os filmes que se mete a recriar, aqui vemos que o inverso dá certo.