sexta-feira, 10 de abril de 2009

True blood

Muita coisa mudou no universo vampírico desde que Bram Stoker assombrou e seduziu o mundo com Drácula (1897), origem de toda a mitologia. Se por um lado alguns elementos permanecem intocados – os seres das sombras continuam se alimentando de sangue e temendo a luz do sol, perenizando-se ao longo dos tempos – , por outro, novas diretrizes foram incorporadas ao reino dos vampiros. Absorvidos pelos meios culturais diversos e presentes na cultura popular, os vampiros também podem ser reinventados, como na recém-terminada primeira temporada da série “True blood”, exibida pela HBO e que brevemente desembarca em DVD.

Em uma prova de que os efeitos da globalização, hoje, são maiores do que se imagina, os vampiros foram parar na minúscula cidade de Bon Temps, nos arredores pantanosos de Nova Orleans, em Louisiana. Eles convivem numa boa com os seres humanos, inclusive freqüentando os mesmos locais, como o Merlotte’s, um bar que serve como epicentro das ações da trama. É lá que encontramos a garçonete Sookie Stackhouse, interpretada por Anna Paquin (ela mesma, a mais jovem ganhadora do Oscar, como Atriz Coadjuvante em 1994 pelo filme “O piano”), que tem o dom de poder ler a mente das pessoas (menos, muito apropriadamente, a dos vampiros, o que a impede de saber quem é humano ou não). Ela mora com a avó e o irmão problemático, Jason (Ryan Kwanten), que posteriormente irá se envolver com uma mulher misteriosa e cometerá um assassinato (não estou estragando nada revelando isso porque o foco da série é outro), e desperta o interesse de seu patrão, Sam Merlotte (Sam Trammell), que também guarda um segredo (este sim que não dá para contar, mas que, a alguns, pode parecer risível). Rejeitado, Sam busca conforto nos braços de outra funcionária, a exótica Tara (Rutina Wesley), de temperamento e sensualidade explosivos. Há ainda o andrógino Lafayette (Nelsan Ellis), que, além de ser o cozinheiro do bar, também trafica V., uma espécie de Viagra de vampiro, com efeitos bastante intensos no organismo humano comum. A chegada de Bill Compton (Stephen Moyer), um vampiro de ascendência nobre – seus antepassados foram heróis da Guerra de Secessão (sic) –, contudo, promove uma reviravolta no local. Mas ele é do bem: no primeiro episódio da série, ele salva Sookie de ser estuprada por dois arruaceiros, que acabam mortos. Por conta disso, passa a ser o principal suspeito de uma série de crimes que vem sendo cometidos contra algumas mulheres da cidade. Bill passa a ser visto com desconfiança e perseguido pelo xerife Bud Dearborne (William Sanderson).

Com uma galeria tão animada de personagens interessantes, e com tantas histórias para se desenvolver e se entrecruzar, era de se esperar que “True blood” tivesse uma carga de tensão e suspense acima da média. Infelizmente, porém, não é o que acontece. Talvez, em parte, justamente por tantas tramas que não são desenvolvidas de maneira satisfatória – mas, com apenas 12 episódios, a primeira temporada acaba se revelando curta demais, o que pressupõe que tudo será melhor desenvolvido na segunda temporada. Há boas histórias paralelas, que reforçam alguns estereótipos da cultura local: a mãe de Tara, por exemplo, é alcoólatra e resolve curar o vício em um ritual vudu. Outro ponto é o forte sentido de religiosidade da comunidade local, que rejeita os vampiros por considerá-los enviados do mal, mas fecha os olhos para crimes reais acontecidos por ali. Também há situações que acabam esquecidas ao longo da temporada – o fato de que os vampiros, agora, não mordem mais pescoços humanos, preferindo beber Tru Blood (assim mesmo, sem o “e” final), uma espécie de sangue artificial criado em laboratório – e a primeira cena da série mostra, pela televisão, uma reportagem onde uma carga de Tru Blood foi roubada e os supostos assaltantes estariam se refugiando no mercado em que se assiste ao noticiário.

O nome por trás da série atesta a qualidade do projeto. Alan Ball, o premiado roteirista de “Beleza americana” e que já deu mostras de que conhece o universo das séries televisivas: é ele também o autor de outra produção incomum, “A sete palmos”, que marcou época no começo dos anos 2000 ao mostrar, com humor e poesia, o cotidiano de uma família que administrava uma agência funerária. Ainda hoje exibida pelo SBT, a série teve cinco temporadas e, mesmo sem nunca ter alcançado sucesso estrondoso de público, cativou uma assistência fiel e hoje é cultuada por milhares de fãs (entre os quais me incluo). Talvez este acabe sendo também o destino de “True blood”. Você provavelmente não vai ouvir as pessoas comentando os episódios nem debatendo sobre os enigmas da trama. Não é como “Lost”, “Arquivo X” ou “Friends”. Seu potencial é mais para cult que para grande público.

Além dos personagens bem delineados e dos roteiros que evitam a repetição de temas, um problema que costuma atingir as séries de TV de forma geral, “True blood” ainda conta com uma abertura espetacular, vibrante e esquizofrênica, que traduz em imagens a loucura e a sensualidade características da região. Tudo embalado ao som da contagiante “Bad things”, entoada por Jace Everett (veja aqui a abertura: http://www.youtube.com/watch?v=7-UORRmi1ZI).

A segunda temporada já está em exibição nos Estados Unidos. Por aqui, resta aguardar até o ano que vem.

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