quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Pílulas do Festival do Rio 2012 - segunda parte

Felizmente diminuíram as falhas técnicas e cancelamentos de sessões e a segunda semana do Festival transcorreu sem maiores incidentes. Fechei com 45 filmes, minha segunda melhor marca (teria chegado aos 50 não fossem os problemas). Eis o que vi.

TABU – Filme português. Tem uma estrutura narrativa interessante, com a história se resolvendo na primeira parte e, na segunda, retomando a origem dos personagens, justificando e explicando suas ações. Ao contrário da maioria, gostei mais dessa segunda parte. Um ótimo par de atrizes (a idosa e sua criada), bela fotografia em preto e branco e um momento surreal e antológico, com a banda tocando à beira de uma piscina vazia. * * *

O QUADRO – Muito criativa e original, essa animação francesa se passa toda dentro de um quadro, com os personagens - as pinturas - divididos em três castas, os "todopintados" detentores do poder, os "pelametade" excluídos do "convívio social" e os rabiscos, que nem são considerados. Nada a ver com Disney-Pixar, mas tem um visual belíssimo, com uma qualidade impressionante da animação, excelente uso das cores e uma história que, se peca por não ter tanto humor, traz uma mensagem moralmente positiva, de aceitação das diferenças e superação dos preconceitos. Afinal, somos todos iguais, mesmo que às vezes "pela metade", "incompletos". * * * *

HOJE – Cansativo. O filme parte de uma premissa absurda (o personagem sabe que vai morrer naquele dia) e não caminha para lugar algum. É apenas a lenta caminhada de um homem cujo destino está traçado e revê pessoas e situações pela última vez. Podia ter rendido um drama eficiente, mas optou pela emoção mínima. *

PENITÊNCIAS – Minissérie da TV japonesa exibida na íntegra. Gasta 4h30 para decifrar uma charada que poderia ter sido resolvida na metade do tempo. Misto de drama de suspense com história de vingança, muito lento, com situações desnecessárias (o caso da boneca) que só alongam a metragem e humor involuntário inadequado. No fim, a penitência mesmo é do espectador que assistiu a essa maratona um tanto cansativa. * *

HOLY MOTORS – Um dos títulos mais aguardados do evento. É uma forma original de falar sobre cinema. Leos Carax cria uma história cuja homenagem é perceptível a qualquer cinéfilo, transitando por vários gêneros, com inúmeras autorreferências. Um pouco estranho no princípio, mas depois que o espectador supera o primeiro momento e percebe a proposta do roteiro, funciona. Mas é meio ame ou odeie. Eu estava muito cansado e não pude apreciar o filme como deveria, preciso revê-lo para que a boa impressão se confirme. * *

IMAGINE – Espécie de Sociedade dos poetas mortos da deficiência visual. Um professor cego chega a uma clínica de cegos e tenta fazer com que seus alunos adquiram confiança e independência. Usa métodos inusitados, muitas vezes mal compreendidos, e a história tem algumas soluções improváveis. Mas escapa da pieguice e dos riscos de fazer comédia que uma história com esse tema poderia correr. Bem contado, tem boa comunicação com público. * * *

BRANCO COMO NEVE – Bom passatempo com belas imagens e só. * *

APENAS O VENTO – O filme é o final. Passa 80 minutos preparando o espectador para ele, e quando surge na tela, é uma porrada, uma catarse, chega a causar nojo a idéia de preconceito, de ódio étnico, sem sentido, e no que ele pode causar. Este final redime o filme, que nada tem de espetacular, mas é muito bem conduzido e interpretado. * * *

O GORILA – "Oh, céus, mataram o Kenny de novo!". Vou me alongar neste aqui em postagem mais adiante. Sem classificação.

SIMON ASSASSINO – Enquanto rumina o chute que levou da namorada, jovem se esconde em Paris para resolver o que quer da vida. Lá, se envolve com uma stripper e a usa para cometer pequenos golpes. Um filme sobre as escolhas que fazemos na vida e as conseqüências que podem advir delas. Entre as muitas cenas de sexo, uma curiosa que mostra uma ousada sugestão de inversão sexual. * *

A BELEZA – Apenas mediano. O contraste entre a perda da cultura da garota índia e a festa da menina branca filha da patroa é menos impactante do que deveria. * *

O ÚLTIMO ELVIS – Ouvi muitos elogios favoráveis a este filme antes do festival. Fui cheio de expectativa e não me arrependi. Um filmaço! Carlos Gutierrez é fanático por Elvis Presley e trabalha como seu cover em bares e asilos de idosos. Velho e gordo, se acha o próprio rei do rock, refugiando-se nessa fantasia para se preservar da triste realidade em que vive.Quando sua esposa sofre um acidente de carro, "Elvis" Gutierrez resolve tomar a única decisão que vislumbra para sua vida naquele momento. Ecos de Tony Manero embalam essa comédia dramática, que mostra como a alienação pode moldar o destino de uma pessoa comum. A seqüência final é de arrepiar. Comovente, divertido, imperdível. É torcer para entrar em cartaz e outras pessoas possam descobri-lo. * * * * *

TERRA DE SANGUE E MEL – A estréia de Angelina Jolie na direção é uma grata surpresa. Ela optou por tratar de um tema espinhoso, a guerra na Bósnia (certamente sua atuação como embaixadora da ONU pesou na escolha do tema), centrando-se em um romance proibido entre um militar sérvio e uma pintora muçulmana, e ampliando o foco para os terríveis desdobramentos daquele conflito, que atingiram todas as mulheres locais, vítimas de constantes estupros. Um tema difícil tratado com segurança e seriedade. Jolie mostra qualidades na direção (também não inventa nada), não poupa a heroína de cenas fortes e surpreende com os rumos que dá à história. * * *

O INTERVALO – Casal de adolescentes confinado em um prédio passa hora e meia de papo furado e abusando da paciência do espectador. Um filme sem interesse. *

STARLET – No começo, parece mais um retrato daqueles "junkiezinhos" perdidos na vida, mas há o diferencial de mostrar a garota com bom coração. O roteiro quase abandona o ponto de partida, que mesmo assim não chega a ser bem explorado. A amizade entre as duas mulheres soa forçada e algo improvável. Mas a cena final dá outra dimensão à história. Starlet é o nome do cachorrinho da protagonista Independente até a medula. * *

PAULINE DETETIVE – Comédia policial francesa francamente comercial, dá até para imaginar a refilmagem americana. É valorizada por uma montagem ágil que confere fluência á narrativa, diálogos inspirados e um roteiro redondinho, com tudo no lugar. Nada especial, mas é ótima diversão. * * *

O CLUBE DO VAMOS-FAZER-A-PROFESSORA-ABORTAR – Até agora não entendi a proposta do roteiro. Não sei se a intenção foi fazer uma comédia trash de humor negro ou um suspense baseado em um fato supostamente real. Funciona como comédia, mas fazer graça com sangue e aborto, convenhamos, é meio pesado. Uma bizarrice mal-feita. *

O SOM AO REDOR – Kléber Mendonça Filho estréia no formato longa com a mesma genialidade de seus curtas. É o melhor diretor do Brasil. Com uma engenhosa carpintaria de imagens, aprisiona seus personagens nos enquadramentos e faz do espectador cúmplice de todas aquelas ações, como se fôssemos todos vizinhos, testemunhas silenciosas do que acontece no nosso bairro. Inteligente uso do som, que comenta os fatos com precisão cirúrgica. Uma crônica urbana margeada pelo pesadelo. Um filme quase perfeito, que só erra por ser um pouco longo demais. * * * *

A RAINHA DE VERSALHES – No futuro, este será o registro documental de uma época difícil marcada pela recessão econômica. O filme acompanha uma família que faz o caminho oposto ao sonho americano e vai da riqueza à bancarrota em pouco tempo. Mesmo assim, o casal e seus sete filhos tentam manter as aparências, mesmo que para isso vivam se endividando. Cena surreal: a mulher (a tal rainha do título) enchendo três carrinhos de supermercado só com brinquedos e bugigangas, mesmo sem ter condições de arcar com todas as despesas. * * *

COLEGAS – Marcelo Galvão volta a provocar com um tema incômodo. Aqui, escala três atores com síndrome de Down que fogem do orfanato onde vivem e caem na estrada em busca de liberdade. O trio central está ótimo e o filme é narrado em tom de fábula, com diversas referências que os cinéfilos identificarão. Respeitoso e engraçado, é meio travado no meio, mas depois segue fluente até o final. * * *

WOODY ALLEN, O DOC – Tipo mingau às avessas: o quente está nas bordas – no caso, nos primeiros e últimos 20 minutos, quando Allen revela detalhes familiares, inclusive com fotos da infância, e mostra seu processo criativo. No meio, morno, críticos e produtores analisam sua obra. Fartamente ilustrado com cenas de quase todos os seus filmes. Um pouco cansativo, mas os fãs gostarão bastante. * * *

FOXFIRE – Não consegui simpatizar com nenhuma daquelas meninas, que se revoltam com o tratamento que recebem da sociedade, mas sempre tomam as atitudes erradas. O feminismo latente do roteiro resulta equivocado. Elas querem respeito, mas saem barbarizando pela cidade onde vivem. Precisam de dinheiro e aplicam golpes em homens para subtraí-los. Ser mulher é isso? A sugestão final de fábula política é uma piada. Só não é um desastre completo por causa da boa reconstituição de época, expressa na cenografia e nos figurinos. * *

PUSHWAGNER, A IRA DO ARTISTA – Foca-se no processo judicial movido pelo artista contra um ex-colaborador (não se explica direito a razão). Pouco se fala sobre sua carreira e sua vida, ao que parece regada a drogas e álcool. Pushwagner é um artista no sentido romântico do termo, muito excêntrico, desbocado, polêmico. O estilo visual do filme acompanha a personalidade do biografado. Mas fiquei com vontade de conhecer mais sobre ele e entender sua obra. E isso, para mim, é o motor de qualquer documentário. * *

A FLORESTA DE JONATHAS – “Muito prazer, Brasil, eu sou o Amazonas”, é o que parece saltar de cada fotograma dessa produção local. De fato, às vezes parece que estamos mesmo assistindo a um desses filmes de arte feitos no Camboja ou em Cingapura, que os críticos adoram. É quase um Tio Boonmee... tropical. O roteiro se alonga na completa falta de assunto, com diálogos péssimos e furos na história. O diretor parece mais preocupado em mostrar exotismos visuais do que contar uma trama minimamente consistente. Só vale pela curiosidade de ver um filme feito no Amazonas e pela linda atriz ucraniana. *


JOVEM E LOUCA – AS AVENTURAS DE UMA NINFOMANÍACA – A grade ousadia dessa comédia chilena é a coragem de fazer piada com a religião evangélica, o que lhe renderá a condenação de jamais ser exibida no circuito nacional. Mas o filme tem pouca graça e o roteiro peca pela inconclusão. A julgar pelas atrizes, o Chile tem as mulheres mais lindas e interessantes da América do Sul. * *

A REPÚBLICA DE MININUS – Alegoria política que parece inspirada no “Gbala”, um antigo samba-enredo da Vila Isabel. A presença de Danny Glover é a marca de qualidade de um projeto mais voltado às crianças. Adultos podem se aborrecer com a ingenuidade da história. * *

MANÍACO – Desnecessária refilmagem de uma fita obscura e ruim dos anos 80, da qual pouca gente se lembra. O diretor Aja imprime maneirismos visuais graças à opção da câmera subjetiva, que reforça o impacto de algumas cenas. O atropelamento é especialmente engraçado. Diversão trash melhor que o original, o que não significa muito. Elijah Wood já condenado a viver personagens malucos. * *

UMA HISTÓRIA DE AMOR E FÚRIA – O ousado roteiro do diretor Luiz Bolognesi cobre 600 anos da história do Brasil, desde a era pré-descoberta até o ano de 2096, quando imagina um futuro assustadoramente possível, sobretudo para o Rio de Janeiro. A qualidade da animação é ótima, embora eu ache os personagens graficamente mal resolvidos. Inteligente e engenhoso, lembra um pouco Fonte da vida por tratar de um romance que atravessa os tempos. * * * *

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Pílulas do Festival do Rio 2012 - primeira parte

Muitas falhas técnicas à parte, com sessões canceladas e suspensas em profusão (merece até uma coluna só sobre isso), o Festival do Rio vem cumprindo seu papel de apresentar o que de melhor e pior se faz nos cinemas do mundo. Em vez de postar diariamente, artifício que se revelou inútil em 2009, quando cobri o evento aqui no blog, achei melhor dividir os comentários sobre os filmes vistos em duas partes, esta e a outra, quando ele se encerra. Por conta das falhas, não estou vendo tantos filmes quanto gostaria e planejei. Vamos ao que vi na primeira semana.

18 COMIDAS – O cinema espanhol parece gostar de histórias que tenham a comida como elemento central (Dieta mediterrânea, Bom apetite). O problema é que são todos insossos. Aqui são várias histórias que se cruzam tendo como ponto de partida alguma refeição específica: café da manhã, almoço e jantar. Mas com tanta fartura gastronômica na tela, o roteiro não tem sabor nenhum. São tramas paralelas que se encontram em algum ponto, mas só uma (a dos irmãos) é resolvida a contento. E o casal de idosos, o que faz ali? Estrategicamente programado para o primeiro dia da maratona, mas não me abriu o apetite. * *

TUDO QUE VOCÊ TEM – Professor se desencanta do universo acadêmico e se isola para traduzir um poeta polonês que ninguém conhece. Vive melancólico até descobrir que tem uma filha pré-adolescente, fruto de relacionamento da juventude. Isso abala seu mundo, mas os erros do passado cobrarão seu preço. Belo, triste e dolorido. Adorei, talvez por certa identificação com o protagonista. Voltarei a este aqui mais adiante. * * * *

A VIRGEM, OS COPTAS E EU – O diretor resolve fazer um filme sobre aparições da Virgem Maria em um vilarejo do Irã, das quais sua mãe teria sido testemunha. Exercício de intimismo pessoal, sem interesse para o espectador em geral. O filme é salvo da irrelevância absoluta pelo bom humor que o próprio diretor imprime à narrativa, sobretudo na parte final, a da encenação das aparições da virgem. A mãe do rapaz é uma grande figura e critica o filho o tempo todo por só fazer filmes ruins. * *

SONHOS DE UMA VIDA – A história era intrigante. Uma mulher morre sozinha em casa e só três anos depois descobrem o corpo, sem que ninguém tenha dado pela falta dela. A diretora investiga o que levou a tamanha indiferença. Por que ninguém procurou aquela mulher, nem sentiu sua falta ao longo de três anos? O problema foi a opção de mesclar documentário (entrevistas com pessoas que conheceram e conviveram com ela) e ficção (recriação dramatizada de alguns fatos descritos), que prejudicou o resultado final. Podia ter sido um belo estudo sobre a invisibilidade que a vida urbana confere a todos nós. * *

MONTY PYTON - A AUTOBIOGRAFIA DE UM MENTIROSO – A grande sacada foi contar a biografia de Graham Chapman no estilo das animações que nos acostumamos a ver nos filmes do grupo e em forma de esquetes, ou seja, total identificação com o biografado. O estilo das animações muda de acordo com o momento descrito na tela, indo do mais infantil ao visualmente rebuscado. O melhor momento é a luta de boxe simbólica para representar os problemas de alcoolismo enfrentados pelo comediante. Final emocionante. Inteligente, ousado e criativo, mas não exatamente original. Pena que o excesso de humor, às vezes, prejudique o resultado e comprometa o aspecto documental. * * * *

BAIKONUR – Filme do Cazaquistão. Jovem acolhe em sua casa uma cosmonauta francesa que se acidentou e se esqueceu quem era. Ele então a convence de que são noivos e estão para casar. Comédia simpática, que tem bons momentos na primeira parte, mas descamba para uma fantasia romântica improvável na segunda metade. O roteiro poderia ter explorado mais o choque de culturas entre a jovem francesa e a aldeia cazaque no meio do nada onde ela vai parar. Lembrei de Tulpan, outra comédia singela feita naquele país há alguns anos e que chegou a passar nos cinemas daqui. * *

SALA 514 – Uma jovem oficial do exército israelense interroga um general acusado de cometer abuso contra uma família. Aos poucos, vai percebendo que a verdade pode não ser aquilo em que ela acredita. Praticamente todo rodado em um único ambiente, a tal sala do título, onde acontecem os interrogatórios, sempre carregados de agressividade e sarcasmo. Tenso, seco e claustrofóbico. * * *

SELVAGENS – Podem acusar Oliver Stone de ser exagerado e descontrolado, mas não há como negar sua habilidade na condução de uma história. Bem ao seu estilo, tem muita violência, mas é valorizado pelo ritmo incessante, pela fotografia contrastante em cores quentes e pela excelente direção de arte. Benício Del Toro assustador. Salma Hayek tenta, mas não consegue passar toda a suposta vilania de sua personagem, a madrinha de um império mexicano das drogas. Já o trio central é de uma inexpressividade notável. Em cartaz nesta sexta-feira. * * * *

AS SESSÕES – A primeira obra-prima do festival até aqui. O jornalista Mark O'Brian passou seus 38 anos de vida imobilizado a uma maca, vítima de poliomielite. Sabendo que seu tempo de vida é curto, resolve perder a virgindade. Para isso, contrata os serviços de uma terapeuta sexual para deficientes, a quem aos poucos vai se afeiçoando. Uma história quase inacreditável (baseada em fatos reais) que tinha tudo para afundar na pieguice e na grosseria é contada em ritmo de alto astral, com o bom humor transparecendo em ótimos e inspirados diálogos. John Hawkes esplêndido no papel principal e Helen Hunt em atuação corajosa, aparecendo em várias cenas de nu frontal. Olho neste aqui que pode ser lembrado no Oscar em algumas categorias. Lição de vida e humanidade. Imperdível. * * * * *

MOONRISE KINGDOM – Este é um dos filmes mais elogiados por quase todo mundo que o viu. Permitam-me o direito de discordar. Pra começar, não gosto do diretor Wes Anderson, então, já fica difícil logo de cara apreciar alguma coisa que ele faz (gosto muito de O fantástico Sr. Raposo e só). Não sei dizer exatamente o porquê. Talvez não curta seu humor, que acho meio bobinho, pretensioso, meio triste. O fato é que tenho dificuldade para embarcar nos seus filmes, "comprar" a proposta. Esse Moonrise kingdom não me comoveu nem me tocou em momento algum, bem como a história não me disse nada. OK, para uma trama ambientada nos anos 60, é claro que tinha de haver a idéia de liberdade, de mudanças, no caso representada pelo casal pré-adolescente que tem problemas pessoais parecidos: ele órfão, ela reprimida, se apaixonam (do nada) e resolvem fugir juntos. Acabam capturados e pra mim a história acaba aí. A segunda metade, quando as autoridades constituídas tentam afastar o casalzinho, chegou a ser penosa de assistir, uma enrolação com algumas piadinhas visuais, até bem sacadas. Difícil dar ao menos um sorriso. É uma aventurinha infanto-juvenil que se fosse dirigida por outro diretor, nem passaria por aqui. De que adianta reunir um elenco tão competente? Bruce Willis regular, até contido demais, Edward Norton tentando fazer graça, Bill Murray desperdiçado, Tilda Swinton e FrancesMcDormand sem o que fazer. Os dois protagonistas pioram as coisas. O menino ainda tem certa expressividade, mas a menina passa o filme todo com uma única expressão de tédio, em qualquer situação. Respeito muito a opinião dos colegas que gostaram, mas sinceramente não sei o que viram tanto aqui - e os aplausos muito tímidos no final da sessão podem indicar que a maioria também se decepcionou. Ou vai ver sou eu mesmo que tenho má vontade com Wes Anderson. Mesmo assim, está sendo apontado como possível finalista em várias indicações ao Oscar. * *

A PINTURA DE GEHRARD RICHTER – Eu ia ver outro filme, mas uma falha na produção (foram muitas até agora, chega a irritar) trocou os arquivos de vídeo e acabou exibindo esse documentário sobre um pintor alemão do qual, perdoem-me a ignorância, nunca tinha ouvido falar. Parece que ele é meio recluso e só por isso o filme tem lá seu valor histórico, já que Richter aparece dando entrevistas e comentando seu processo criativo. Para quem conhece o artista, um prato cheio. Para mim, um tapa-buraco com gosto de pepino. * *

DEPOIS DE LÚCIA – Vencedor do Câmera D’Or em Cannes. Pai e filha pré-adolescente se mudam para a Cidade do México e tentam reconstruir suas vidas após a morte da esposa/mãe. Enquanto ele se refugia no trabalho duro, ela sofre bullying na escola. As cenas de bullying são cruéis e difíceis de ver. Nada especial, mas com ótimo final. * * *

9,79 – Documentário convencional que parte da final dos 100m rasos nas Olimpíadas de 1988 para apresentar um panorama sobre a onda de doping que assombrou o atletismo entre as décadas de 70 e 90. Todos os finalistas daquela prova são entrevistados nos dias atuais e dão suas versões para o caso. Curiosidade: dos oito atletas em questão, cinco tiveram problemas com doping e alguns foram banidos para toda a vida, como o vencedor daquele ano, Ben Johnson, num dos maiores escândalos esportivos de todos os tempos. O título é a marca estabelecida por Johnson, que não foi homologada e hoje já foi muito superada por Usain Bolt. Produção da ESPN Filmes, brevemente na sua TV a cabo. * *

PIETÁ – Este era o filme mais aguardado da primeira semana do festival. Todas as sessões lotadas. Mas o vencedor do Festival de Veneza é um pouco frustrante. Um cobrador de dívidas para agiotas que usa métodos violentos para fazer seu trabalho se surpreende com a aparição de uma mulher que diz ser sua mãe. O estilo contemplativo do diretor temperado com pitadas de sangue e violência, mas em proporção bem menor do que fez supor a imprensa. Para mim, pareceu uma mistura entre Mother e Oldboy, com algumas referências de outros filmes recentes, inclusive a Trilogia da Vingança de Park Chan-Wook. Quem conhece o estilo de Kim Ki-Duk vai estranhar o visual do filme, que é sujo, degradado e triste. É bom, mas fica abaixo do que se esperava. * * *

VIOLA – Não adianta o festival fazer estardalhaço de 450 filmes na programação se pega qualquer coisa produzida em audiovisual e joga na tela. Os incautos compram e embarcam na maior canoa furada. Começa com um exaustivo ensaio de peça de Shakesperare, vira uma breve historinha sobre amizade feminina e termina sem conclusão. Um filme absolutamente inútil, que não diz nada e nunca deixa clara sua proposta. Desperdício de tempo. Prova que o Festival do Rio está se afundando num gigantismo desnecessário, graças a exibição de fitas ridículas como esta. Embora muito curto, é cansativo e repetitivo. Sem classificação.

QUARTO 237, TEORIAS LOUCAS SOBRE "O ILUMINADO" – Historiadores, pesquisadores e fãs do clássico de Kubrick expõem suas teorias acerca das mensagens e símbolos ocultos que o diretor espalhou ao longo dos 144 minutos de seu filme. Inteiramente editado com cenas de filmes do diretor; os entrevistados nunca aparecem, só se ouve suas vozes. Algumas teorias são perturbadoras, outras ridículas. Dá vontade de rever O iluminado para conferir - e formular as próprias. Divertido, mas um pouco longo demais. * * *

PLANETA SOLITÁRIO – Jovem casal perto de se casar sai em excursão pelas montanhas da Geórgia tendo a companhia apenas de um guia local. Planos longos, poucos e irrelevantes diálogos, algumas cenas constrangedoras. Gael García Bernal arranha mais uma vez sua condição de estrela e se mete numa produção sem muito sentido. Salvam-se as belas locações, a atriz ruiva (Hani Furstenberg) e a musiquinha vibrante que toca logo no começo. * *

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Outros mundos, outras vidas


Há alguns anos, escrevi um conto intitulado “Não estamos sós”. Nele, um rapaz descobria a existência de um outro planeta Terra, em tudo igual ao nosso, inclusive habitado por versões mais evoluídas e bem-sucedidas de nós mesmos. Esta era a diferença: lá, os “outros eus” levavam a vida que nós gostaríamos de levar, se todos os nossos planos tivessem se concretizado de forma satisfatória. Perturbado com essa descoberta, passa a viver segundo o que considera auspícios astrais, influenciado (sem se dar conta) por ações de seu “duplo” no outro planeta. Como esse conto nunca foi publicado em lugar nenhum, só pode ter sido uma grande coincidência que o diretor Mike Cahill tenha realizado um filme que é praticamente a versão em celulóide do que escrevi. Infelizmente, o resultado ficou aquém do que poderia – e se me permitem um raro exercício de pretensão, não é a adaptação que eu gostaria de ver de um conto meu.

A jovem Rhoda Williams (Brit Marling, também roteirista, junto com o diretor) tem um futuro promissor. Aos 17 anos, acaba de ingressar em uma das mais prestigiadas instituições de ensino tecnológico dos Estados Unidos. Na mesma noite em que fica sabendo disso, causa um acidente enquanto guia seu carro e provoca a morte da mulher e do filho do professor John Burroughs (William Mapother, de Lost). Fica presa por quatro anos, o mesmo tempo que teria passado na universidade, e, ao ser libertada, não tem mais alternativas. Vai trabalhar como faxineira em uma escola, mas ganha um novo alento ao descobrir o endereço do professor. Consegue se aproximar, oferecendo-se para limpar sua casa uma vez por semana. Ele não sabe quem ela é, e os dois acabam se envolvendo afetivamente. Mas o passado cobra um preço e Rhoda precisará renegar seu futuro pela segunda vez. Agora, em nome de sua redenção.

Paralelamente, a ciência anuncia a descoberta de outro planeta Terra, logo chamado de Terra II, no qual, acredita-se, vivam duplos de todos os habitantes do nosso pobre e doente planetinha. Essa revelação servirá para abalar o frágil equilíbrio emocional que sustenta Rhoda em sua zona de conforto. Ela se sente responsável pelas vidas que destruiu e crê que em algum lugar da galáxia possa remediar seu erro. Assim, se inscreve em um concurso lançado pelo governo norte-americano para viajar para a Terra II (sic), já que somente lá será possível um recomeço.

O ritmo lento da narrativa ajuda a inserir o espectador no universo solitário e melancólico de Rhoda, uma mulher que desperdiçou sua vida e agora passa seus dias assombrada pela culpa. A monotonia de seu cotidiano é traduzida em imagens que dissecam uma existência vazia, que se arrasta na monocórdia batida da trilha sonora, com especial acompanhamento da canção instrumental “The first time I saw Júpiter”, do grupo Fall On Your Sword. Enquanto isso, o agora ex-professor Burroughs se enclausura em sua casa, afastada do centro urbano, jogando videogame, também sem perspectiva. Do encontro entre esses dois personagens destroçados pelo destino comum surgirá uma centelha de esperança.

O roteiro poderia ter explorado mais o sugerido paralelismo existente entre os dois planetas. Assim, as ações de uma segunda Rhoda influenciariam, e estariam diretamente relacionadas a, suas ações na nossa Terra. Mas o diretor preferiu seguir por uma trilha mais metafísica, não aprofundando os pontos em comum que poderiam surgir dessa duplicata planetária. O resultado não chega a empolgar, embora no todo o filme não desagrade. Ficou no meio do caminho. No meu conto, optei exatamente por essa alternativa que o diretor descartou.

A edição em DVD é melhor do que a média que vem sendo lançada, já que há tempos as distribuidoras desistiram de caprichar nos bônus e limitam-se ao trivial. Traz cenas eliminadas, algumas com comentários do diretor, que explica as razões para o corte, duas breves entrevistas (muito curtas, podiam ser mais extensas), clipe da música principal e trailer, este sem legendas.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A câmera nas mãos do idiota


Nunca entendi esse fanatismo religioso que caracteriza alguns povos ao redor do mundo. Talvez por ser ateu ou viver em um país que permite a livre expressão de credos e crenças, onde umbandistas, católicos e evangélicos convivem em harmonia, desde que, logicamente, respeitadas as convicções de cada um. Na Escócia, por exemplo, de tão inflamadas, as diferenças religiosas chegam a extrapolar e invadir o campo esportivo. O clássico nacional entre Celtic e Glasgow Rangers é mais do que um jogo de futebol. Para muitos torcedores, é a oportunidade de provar no gramado a superioridade de uma religião sobre outra, já que os times são historicamente identificados com protestantes e católicos, respectivamente. Não raro os encontros terminam em pancadaria e violência generalizada.

No Oriente Médio, nem é preciso falar. Como, repito, não entendo esse fanatismo que move as ações de judeus, árabes e israelenses uns contra os outros, fico me perguntando para que tanta guerra, tanta intolerância, por que essa necessidade quase animalesca de eliminar os devotos de uma e de outra religião. Ouço falar em guerra santa desde que eu era pirralho e a cada semana surge “mais do mesmo”: atentados, homens-bomba, destruição de templos etc. Será que esse povo nunca se cansa? Será que isso nunca vai ter fim? Mata-se mais em nome de Deus do que se vive sob seus princípios. Se essa matança infinda ocorre por ordens dele, então é muita sorte que o resto da humanidade ainda não tenha sucumbido, porque um Deus assim, que prega a destruição, é de meter medo!

O leitor eventual do espaço deve estar se perguntando o que esse assunto tão pesado está fazendo no blog que tem, por princípio, ocupar-se de temas voltados à cultura. Explico. Há alguns dias, várias embaixadas norte-americanas no Oriente Médio foram atacadas por fundamentalistas islâmicos, resultando em mortes, incluindo alguns diplomatas ianques. O estopim teria sido a veiculação de um filme que conteria diversas injúrias contra o islamismo. Algumas: mostra-se Maomé em forma humana, interpretado por um ator, conferindo-lhe, portanto, um rosto, o que é proibido pelas leis islâmicas. Mais grave: esse próprio “Maomé” afirmaria que tal religião é um câncer, exorta seus seguidores a assassinar crianças e escravizar pessoas, além de fazer piada com outros dogmas sagrados das crenças locais.

O filme em questão se chama A inocência dos muçulmanos, na verdade um curta-metragem de 14 minutos de duração, que até a semana passada estava disponível em diversos sites de compartilhamento – hoje já foi varrido de quase todos eles, mas o leitor que tiver interesse pode procurar na rede que talvez encontre; assista por sua conta e risco. Trata-se de uma patetice despropositada, visivelmente amadora, levada em tom de comédia, com o único objetivo de debochar do islã, chamando-os de terroristas que propagam o mal e espalham destruição. O escritor Salman Rushdie classificou o vídeo como “um lixo”. Outras autoridades condenaram a produção tanto pela pobreza da realização quanto pela gratuidade das ofensas proferidas. Atores e equipe técnica que participaram do filme se disseram enganados pelos produtores, pois haviam sido contratados para rodar um épico chamado Guerreiro do deserto e se surpreenderam ao ver o resultado. Nem vale a pena comentar outros aspectos dessa sandice.

Sou inteiramente a favor da liberdade de expressão. Cada um tem o direito de se manifestar a respeito do que bem entender, da forma que quiser. Mas é preciso que haja um propósito, uma mensagem a ser passada. O que se vê nos 14 minutos da produção é um ataque gratuito a uma religião, sem qualquer estofo dramático consistente que o justifique. O diretor disse que fez um filme político, não religioso, mas não é o que se pode constatar. Além disso, é difícil separar uma coisa da outra em uma região como o Oriente Médio, em que ambos os assuntos estão estreitamente ligados.

A identidade do autor de A inocência dos muçulmanos permanece envolta em mistério, embora pipoquem no território livre da internet algumas versões para sua origem. Sabe-se que Sam Bacile, o nome com o qual foi inicialmente identificado, não existe. Este seria um pseudônimo de Nakoula Basseley Nakoula, um judeu copta de 55 anos (algumas fontes citam 45). Mas também não é oficial. Outras versões dizem que o diretor verdadeiro é Alan Roberts, que tem longa carreira no cinema pornô, embora também não conste nada a seu respeito no IMDB. Atores e atrizes que atuam no filmete também seriam egressos do universo de produções adultas, sendo que uma delas, Amina Noir, chegou a ser modelo da TV Playboy. Tudo especulação.

Há muitos outros aspectos mal explicados. Como uma produção amadora, que nunca foi lançada comercialmente, em tese foi pouco ou mal vista, pode ter deflagrado uma onda de violência tão grande? A versão conhecida tem 14 minutos, com cortes evidentes; existe uma versão completa? A montagem feita tira a obra de seu contexto original ou a idéia era mesmo atacar o islã? Por que não há informações concretas sobre os intérpretes? Tudo nebuloso. Essa falta de pistas é de certa forma simbólica. Talvez seja mesmo o melhor destino para essa aberração: o anonimato e a obscuridade eternos.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Confissões de um seriemaníaco - IV


FDP
Onde e quando: HBO, domingo, 20h30; reprises em horários diversos.
Elenco: Eucir de Souza, Paulo Tiefenthaler, Cynthia Falabella.
Sinopse: O juiz de futebol Juarez Gomes da Silva sonha em apitar uma final de Taça Libertadores enquanto enfrenta problemas pessoais.


Comentários: Não sei se já é o efeito da chamada Lei da TV a Cabo, que obriga as operadoras a apresentarem produções nacionais em horário nobre, mas o fato é que a HBO vem investindo em séries brasileiras. Esta é a segunda seguida, depois da boa Preamar e de outras bem-sucedidas e mais antigas (Filhos do carnaval, Mandrake, Alice, mais recente Mulher de fases). Uma escolha que valoriza a produção nacional e aqui se mostra um acerto por trazer ao público um tema pouquíssimo explorado pelo audiovisual, o futebol, que, mesmo sendo parte inerente da cultura do nosso povo, não consegue se fazer retratar com competência nem no cinema (com raras exceções) nem na televisão. A grafia original é em caixa baixa e entre parênteses. O roteiro, escrito por José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta, é um achado. Somos apresentados ao juiz de futebol Juarez Gomes da Silva, apaixonado pela sua profissão, aparentemente profissional (não há indícios de que ele tenha outra ocupação, ao contrário do que normalmente ocorre no meio), cujo grande sonho é apitar uma final de Taça Libertadores da América. A cena de abertura da série é um primor de nonsense, com o árbitro encerrando a almejada partida e sendo carregado em triunfo pelos jogadores de ambas as equipes! Claro que é um sonho de Juarez, que logo acorda e precisa lidar com os problemas de sua vida real. Embora a série deixe claro que Juarez prima pela honestidade em seu ofício, fora das quatro linhas ele não é nenhum santo. Contaminou a mulher com uma doença venérea, contraída em uma relação extraconjugal, razão pela qual ela pede o divórcio. Tem dificuldades para aceitar a escolha do filho pré-adolescente, que prefere usar sapatilhas de balé para aprender a dança a chuteiras para se tornar jogador. Enquanto árbitro, sofre pressão de todos os lados. No primeiro episódio, o magistrado que conduz o processo de separação se revela também presidente do clube que decide o Campeonato Paulista contra um time pequeno e, ao encontrá-lo a caminho do estádio, faz questão de lembrá-lo para “apitar com inteligência”. O resultado não sai como esperado e Juarez será alvo da vingança do outro juiz. A cada episódio, há uma partida de futebol para a qual Juarez é escalado e uma situação paralela que envolve sua vida pessoal. Ambas se cruzarão em certo ponto com sua atuação dentro das quatro linhas, que, por sua vez, influencia o que acontece fora delas.


Por que ver: Antes de tudo, pela criatividade dos roteiros. Com uma estrutura que se anuncia repetida ao longo da série, são pequenos detalhes que fazem a delícia de cada episódio. Há referências e citações facilmente identificáveis, como o nome do estádio em que se joga a final do Paulistão (Parque Atlântico, na verdade o Morumbi com outro nome), o comentarista esportivo que só repete frases feitas, os anunciantes dos programas esportivos e as placas de patrocinadores das partidas. Qualquer pessoa pode curtir essa gozação, mas é claro que quem acompanha futebol e conhece a realidade abordada aproveita melhor as sacadas. O elenco está ótimo. Não conhecia esse ator, Eucir de Souza, que trabalha já desde 2000 e tem uma longa ficha de títulos pouco vistos ou conhecidos. Começou em Soluços e soluções, fez muitos curtas, novelas de TV, e recentemente integrou o elenco de Força tarefa e está em O gorila, aguardada adaptação da novela homônima de Sérgio Sant’Anna que será exibida no Festival do Rio. Tiefenthaler, que faz um dos auxiliares (bandeirinhas) que é sempre escalado com Juarez, é conhecido pelo programa Larica Total, do Canal Brasil, e aqui tem a chance de confirmar sua veia artística.
Por que não ver: Mulheres podem rejeitar a série, já que o assunto é essencialmente masculino. Os espectadores que também não gostam de futebol (inclusive homens que não se ligam no esporte, e há muitos) também não se sentirão interessados em assisti-la. Mas a dica é jogar o preconceito para o escanteio e conferir ao menos um episódio. 

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Coisas que ninguém esquece


Um dos filmes brasileiros mais importantes está completando uma data redonda esta semana. Sua estréia nos cinemas entrou para a história e serviu como um divisor de águas na produção nacional. Não se trata de Limite, Deus e o diabo na terra do sol nem Cidade de Deus, embora este último também esteja chegando a sua primeira década. Falo de Coisas eróticas, de 1982, o primeiro pornô lançado comercialmente no Brasil, e antes que me acusem de depravado ou idiota por valorizar um filme do gênero, apresso-me a explicar. Se ainda hoje há preconceito com o nosso cinema, certamente sua origem está diretamente ligada ao sucesso que aquele filme fez em sua época e que praticamente definiu um “estilo”.

Talvez hoje, de fato, haja menos essa percepção. Mas por muitos anos, filme brasileiro era sinônimo de “filme de mulher pelada”, onde “só tinha sexo e pornografia”. Evidente que tal percepção serviu para afastar o público das produções nacionais. Mas é inegável que Coisas eróticas marcou um período. Antes cercado de certos pudores, o cinema brasileiro escancarou o sexo explícito nas telas a partir daí, descobrindo um novo filão. Seu lançamento fez explodir a Boca do Lixo, região da capital paulista em que se concentravam as principais produtoras do cinema de então, especializadas em filmes de grande apelo e consumo popular. Hoje todo mundo sabe o que foi a Boca, que tipo de cinema era feito lá e muitos já até devem ter visto vários títulos – as gerações mais novas podem descobrir um ou outro título na internet, os mais velhos se lembram, e se algum leitor do blog quiser, pode contar aqui sua experiência de como era ver um filme daqueles na sala escura. Eu era pirralho, nem gostava de cinema (só me interessava por desenhos animados), mas lembro de ver as críticas nos jornais, sempre com a figura do Bonequinho saindo, com os mesmos termos se repetindo no texto: "produção amadora", "nível rasteiro", "grosseria" etc.

Não vou, aqui, fazer uma análise detalhada deste filme ou de qualquer outro daquele período. Há bons livros sobre o assunto, incluindo o recém-lançado Coisas eróticas – A história jamais contada da primeira vez do cinema nacional, escrito por Denise Godinho e Hugo Moura, que esmiúça os bastidores daquela produção, conta detalhes das batalhas judiciais travadas pela liberação da obra e casos curiosos, como o de que a modelo do cartaz do filme era, na verdade, um travesti. Mas quero prestar um tributo àquela época. Muita gente pode querer esquecê-la, ou fazer de conta que não existiu, alegando que desabonava o cinema brasileiro. Pode ser, mas a Boca teve sua importância, tanto que em janeiro houve uma mostra com os títulos mais significativos de então, apresentada no Festival de Amsterdã. Fico pensando como a platéia holandesa, e de resto os jornalistas do mundo todo que cobriram e estiveram presentes ao evento, reagiram diante de tanta tosquice. Imagino que no final o cinema brasileiro tenha saído ganhando, já que saltamos de coisas como Meu marido, meu cavalo para obras premiadas no exterior e de inegável qualidade artística, como Mutum, O palhaço e Ônibus 174. Ainda que à custa de arranhões. Ou seja, saímos da indigência para um patamar elevado em pouco mais de 20 anos. Feito digno de reconhecimento.

Livros, mostras e difusão pela internet são mesmo as melhores formas de manter vivo o interesse por esses filmes, que, na prática, estão condenados ao esquecimento. Muitos foram lançados em vídeo, cumprindo a lei de reserva de mercado, que obrigava as locadoras a terem um mínimo de 25% de títulos nacionais em seu acervo. Mas, como nenhum deles jamais foi digitalizado, a tendência é que se tornem lendas e sumam na poeira do tempo. A exemplo de tantos outros filmes comuns, mais antigos, que hoje só são conhecidos pelo nome. Simbolicamente, o desaparecimento de tais produções representaria também o apagamento de um período negro do cinema brasileiro, do qual normalmente não se gosta de lembrar. Mesmo que isso aconteça, contudo, há certas coisas que ninguém conseguirá esquecer.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Uma estrela que se recusa a brilhar


Peço desculpas aos eventuais leitores desse espaço, mas hoje não vou escrever nem sobre cinema, nem sobre literatura. Vou abordar uma das tais outras delícias viciantes que definem o conteúdo do blog. Apesar de que, na essência, o assunto se assemelha a um filme de horror.

No último dia 22, o Botafogo venceu o Palmeiras por 3x1 no jogo de volta da fase classificatória da Copa Sul-Americana, mas foi eliminado por causa do critério utilizado na competição, semelhante ao da Copa do Brasil. Como perdeu a primeira partida por 0x2 em Barueri, 15 dias antes, o Alvinegro precisava marcar três gols e não sofrer nenhum para seguir adiante. Como o Palmeiras marcou um gol na casa do adversário, isso pesou no somatório das duas partidas, que terminaram em 3x3. O “alviverde imponente” se manteve na disputa e o Glorioso ficou no começo do caminho (nem chegou ao meio). O time saiu de campo aplaudido por seu espírito de luta, garra e vontade demonstrados ao longo dos 90 minutos. Essa entrega na busca por um resultado satisfatório era o mínimo que se podia esperar. Mas houve outro aspecto que chamou atenção naquela partida.

Ser eliminado de uma competição mesmo com uma vitória é raro, mas acontece em competições dessa natureza, de tiro curto. No entanto, causou muita estranheza à imprensa em geral o público minúsculo que acompanhou o jogo no Estádio Engenhão. Apenas 2.434 almas, a maioria botafoguense, pagaram ingresso para ver um jogo decisivo para o clube do Rio. Afinal, era tudo ou nada, e a missão, embora reconhecidamente complicada, não era impossível para o Botafogo. Considerando que a capacidade do Engenhão é de 45 mil lugares, estava praticamente vazio, um fenômeno que não chega a ser raro, sobretudo em jogos do próprio Botafogo, que administra o local desde sua inauguração, em 2007, o que já levou adversários a apelidarem o estádio de “Vazião” ou “Enchenão”. No dia seguinte, um jornalista da ESPN questionou se houvesse um apoio maior da torcida, coisa de 30 mil pagantes, se a sorte do Botafogo teria sido melhor, se o time, contando com o incentivo de mais torcedores, não teria chegado ao (àquela altura) quarto gol, que lhe daria a vaga na fase seguinte. Mas quem definiu de forma clara e simples a situação foi o comentarista Eraldo Leite, da Rádio Globo, que vaticinou: “O pouco público é um reflexo imediato da falta de confiança que o time do Botafogo passa a sua torcida”.

E o maior problema é que essa desconfiança foi sendo germinada ao longo dos últimos anos. Várias vezes nesse período o Botafogo teve a chance de figurar entre os grandes, que é seu lugar, afinal de contas, sustentando a ponta de uma tabela, conquistando títulos, superando adversários reconhecidamente inferiores. Nada acontecia, porém, e a cada vez que a torcida enchia o estádio, o time fraquejava e brindava seus simpatizantes com uma amarga dose de incompetência e frustração. De tanto repetir-se a fórmula, chegou-se à descrença absoluta. Hoje, o Botafogo joga para pouco mais de três mil pagantes, em média. Talvez porque, no fundo, os abnegados que compareçam ao estádio sabem que o time não irá longe, não ganhará nada. Só fará figuração.

De minha parte, já desisti de acreditar nesse time. Continuo Botafogo e o serei até o fim, mas fica difícil levar fé em uma equipe que se recusa a provar sua grandeza, que consegue ficar invicta durante um campeonato inteiro – um feito, sem dúvida – e perde justamente os dois jogos finais! Ou seja, ainda “iludiu” a torcida com a expectativa de um título histórico para desfazer o sonho em apenas uma partida. Uma equipe que se mantém entre os quatro primeiros do campeonato nacional por quase todas as rodadas, mas na derradeira, na hora de definir os classificados a uma vaga na principal competição continental, fraqueja e deixa a última vaga escorrer pelos dedos, por pura incompetência, perdendo seis jogos em sete disputados, marca tão vexatória que nem os times que terminaram rebaixados conseguiram atingir. Só vou citar esses dois exemplos (há inúmeros outros), que bastam para demonstrar o quanto essa estrela vem perdendo o brilho.

Para aumentar a desconfiança da torcida, o time agora sofre com a falta de um centroavante. A diretoria teve a inteligência de vender os dois titulares do ataque e ídolos da torcida – Herrera e Loco Abreu – sem contratar ninguém para ocupar as posições, tanto no campo quanto no coração dos torcedores. Assim, com Elkeson improvisado e torto no comando do ataque, o time perde ainda mais seu poder de fogo, que já não era mesmo grande coisa. Depois ninguém entende porque o Engenhão fica vazio. É a estrela que vai se ofuscando cada vez mais.