sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Outros mundos, outras vidas


Há alguns anos, escrevi um conto intitulado “Não estamos sós”. Nele, um rapaz descobria a existência de um outro planeta Terra, em tudo igual ao nosso, inclusive habitado por versões mais evoluídas e bem-sucedidas de nós mesmos. Esta era a diferença: lá, os “outros eus” levavam a vida que nós gostaríamos de levar, se todos os nossos planos tivessem se concretizado de forma satisfatória. Perturbado com essa descoberta, passa a viver segundo o que considera auspícios astrais, influenciado (sem se dar conta) por ações de seu “duplo” no outro planeta. Como esse conto nunca foi publicado em lugar nenhum, só pode ter sido uma grande coincidência que o diretor Mike Cahill tenha realizado um filme que é praticamente a versão em celulóide do que escrevi. Infelizmente, o resultado ficou aquém do que poderia – e se me permitem um raro exercício de pretensão, não é a adaptação que eu gostaria de ver de um conto meu.

A jovem Rhoda Williams (Brit Marling, também roteirista, junto com o diretor) tem um futuro promissor. Aos 17 anos, acaba de ingressar em uma das mais prestigiadas instituições de ensino tecnológico dos Estados Unidos. Na mesma noite em que fica sabendo disso, causa um acidente enquanto guia seu carro e provoca a morte da mulher e do filho do professor John Burroughs (William Mapother, de Lost). Fica presa por quatro anos, o mesmo tempo que teria passado na universidade, e, ao ser libertada, não tem mais alternativas. Vai trabalhar como faxineira em uma escola, mas ganha um novo alento ao descobrir o endereço do professor. Consegue se aproximar, oferecendo-se para limpar sua casa uma vez por semana. Ele não sabe quem ela é, e os dois acabam se envolvendo afetivamente. Mas o passado cobra um preço e Rhoda precisará renegar seu futuro pela segunda vez. Agora, em nome de sua redenção.

Paralelamente, a ciência anuncia a descoberta de outro planeta Terra, logo chamado de Terra II, no qual, acredita-se, vivam duplos de todos os habitantes do nosso pobre e doente planetinha. Essa revelação servirá para abalar o frágil equilíbrio emocional que sustenta Rhoda em sua zona de conforto. Ela se sente responsável pelas vidas que destruiu e crê que em algum lugar da galáxia possa remediar seu erro. Assim, se inscreve em um concurso lançado pelo governo norte-americano para viajar para a Terra II (sic), já que somente lá será possível um recomeço.

O ritmo lento da narrativa ajuda a inserir o espectador no universo solitário e melancólico de Rhoda, uma mulher que desperdiçou sua vida e agora passa seus dias assombrada pela culpa. A monotonia de seu cotidiano é traduzida em imagens que dissecam uma existência vazia, que se arrasta na monocórdia batida da trilha sonora, com especial acompanhamento da canção instrumental “The first time I saw Júpiter”, do grupo Fall On Your Sword. Enquanto isso, o agora ex-professor Burroughs se enclausura em sua casa, afastada do centro urbano, jogando videogame, também sem perspectiva. Do encontro entre esses dois personagens destroçados pelo destino comum surgirá uma centelha de esperança.

O roteiro poderia ter explorado mais o sugerido paralelismo existente entre os dois planetas. Assim, as ações de uma segunda Rhoda influenciariam, e estariam diretamente relacionadas a, suas ações na nossa Terra. Mas o diretor preferiu seguir por uma trilha mais metafísica, não aprofundando os pontos em comum que poderiam surgir dessa duplicata planetária. O resultado não chega a empolgar, embora no todo o filme não desagrade. Ficou no meio do caminho. No meu conto, optei exatamente por essa alternativa que o diretor descartou.

A edição em DVD é melhor do que a média que vem sendo lançada, já que há tempos as distribuidoras desistiram de caprichar nos bônus e limitam-se ao trivial. Traz cenas eliminadas, algumas com comentários do diretor, que explica as razões para o corte, duas breves entrevistas (muito curtas, podiam ser mais extensas), clipe da música principal e trailer, este sem legendas.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A câmera nas mãos do idiota


Nunca entendi esse fanatismo religioso que caracteriza alguns povos ao redor do mundo. Talvez por ser ateu ou viver em um país que permite a livre expressão de credos e crenças, onde umbandistas, católicos e evangélicos convivem em harmonia, desde que, logicamente, respeitadas as convicções de cada um. Na Escócia, por exemplo, de tão inflamadas, as diferenças religiosas chegam a extrapolar e invadir o campo esportivo. O clássico nacional entre Celtic e Glasgow Rangers é mais do que um jogo de futebol. Para muitos torcedores, é a oportunidade de provar no gramado a superioridade de uma religião sobre outra, já que os times são historicamente identificados com protestantes e católicos, respectivamente. Não raro os encontros terminam em pancadaria e violência generalizada.

No Oriente Médio, nem é preciso falar. Como, repito, não entendo esse fanatismo que move as ações de judeus, árabes e israelenses uns contra os outros, fico me perguntando para que tanta guerra, tanta intolerância, por que essa necessidade quase animalesca de eliminar os devotos de uma e de outra religião. Ouço falar em guerra santa desde que eu era pirralho e a cada semana surge “mais do mesmo”: atentados, homens-bomba, destruição de templos etc. Será que esse povo nunca se cansa? Será que isso nunca vai ter fim? Mata-se mais em nome de Deus do que se vive sob seus princípios. Se essa matança infinda ocorre por ordens dele, então é muita sorte que o resto da humanidade ainda não tenha sucumbido, porque um Deus assim, que prega a destruição, é de meter medo!

O leitor eventual do espaço deve estar se perguntando o que esse assunto tão pesado está fazendo no blog que tem, por princípio, ocupar-se de temas voltados à cultura. Explico. Há alguns dias, várias embaixadas norte-americanas no Oriente Médio foram atacadas por fundamentalistas islâmicos, resultando em mortes, incluindo alguns diplomatas ianques. O estopim teria sido a veiculação de um filme que conteria diversas injúrias contra o islamismo. Algumas: mostra-se Maomé em forma humana, interpretado por um ator, conferindo-lhe, portanto, um rosto, o que é proibido pelas leis islâmicas. Mais grave: esse próprio “Maomé” afirmaria que tal religião é um câncer, exorta seus seguidores a assassinar crianças e escravizar pessoas, além de fazer piada com outros dogmas sagrados das crenças locais.

O filme em questão se chama A inocência dos muçulmanos, na verdade um curta-metragem de 14 minutos de duração, que até a semana passada estava disponível em diversos sites de compartilhamento – hoje já foi varrido de quase todos eles, mas o leitor que tiver interesse pode procurar na rede que talvez encontre; assista por sua conta e risco. Trata-se de uma patetice despropositada, visivelmente amadora, levada em tom de comédia, com o único objetivo de debochar do islã, chamando-os de terroristas que propagam o mal e espalham destruição. O escritor Salman Rushdie classificou o vídeo como “um lixo”. Outras autoridades condenaram a produção tanto pela pobreza da realização quanto pela gratuidade das ofensas proferidas. Atores e equipe técnica que participaram do filme se disseram enganados pelos produtores, pois haviam sido contratados para rodar um épico chamado Guerreiro do deserto e se surpreenderam ao ver o resultado. Nem vale a pena comentar outros aspectos dessa sandice.

Sou inteiramente a favor da liberdade de expressão. Cada um tem o direito de se manifestar a respeito do que bem entender, da forma que quiser. Mas é preciso que haja um propósito, uma mensagem a ser passada. O que se vê nos 14 minutos da produção é um ataque gratuito a uma religião, sem qualquer estofo dramático consistente que o justifique. O diretor disse que fez um filme político, não religioso, mas não é o que se pode constatar. Além disso, é difícil separar uma coisa da outra em uma região como o Oriente Médio, em que ambos os assuntos estão estreitamente ligados.

A identidade do autor de A inocência dos muçulmanos permanece envolta em mistério, embora pipoquem no território livre da internet algumas versões para sua origem. Sabe-se que Sam Bacile, o nome com o qual foi inicialmente identificado, não existe. Este seria um pseudônimo de Nakoula Basseley Nakoula, um judeu copta de 55 anos (algumas fontes citam 45). Mas também não é oficial. Outras versões dizem que o diretor verdadeiro é Alan Roberts, que tem longa carreira no cinema pornô, embora também não conste nada a seu respeito no IMDB. Atores e atrizes que atuam no filmete também seriam egressos do universo de produções adultas, sendo que uma delas, Amina Noir, chegou a ser modelo da TV Playboy. Tudo especulação.

Há muitos outros aspectos mal explicados. Como uma produção amadora, que nunca foi lançada comercialmente, em tese foi pouco ou mal vista, pode ter deflagrado uma onda de violência tão grande? A versão conhecida tem 14 minutos, com cortes evidentes; existe uma versão completa? A montagem feita tira a obra de seu contexto original ou a idéia era mesmo atacar o islã? Por que não há informações concretas sobre os intérpretes? Tudo nebuloso. Essa falta de pistas é de certa forma simbólica. Talvez seja mesmo o melhor destino para essa aberração: o anonimato e a obscuridade eternos.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Confissões de um seriemaníaco - IV


FDP
Onde e quando: HBO, domingo, 20h30; reprises em horários diversos.
Elenco: Eucir de Souza, Paulo Tiefenthaler, Cynthia Falabella.
Sinopse: O juiz de futebol Juarez Gomes da Silva sonha em apitar uma final de Taça Libertadores enquanto enfrenta problemas pessoais.


Comentários: Não sei se já é o efeito da chamada Lei da TV a Cabo, que obriga as operadoras a apresentarem produções nacionais em horário nobre, mas o fato é que a HBO vem investindo em séries brasileiras. Esta é a segunda seguida, depois da boa Preamar e de outras bem-sucedidas e mais antigas (Filhos do carnaval, Mandrake, Alice, mais recente Mulher de fases). Uma escolha que valoriza a produção nacional e aqui se mostra um acerto por trazer ao público um tema pouquíssimo explorado pelo audiovisual, o futebol, que, mesmo sendo parte inerente da cultura do nosso povo, não consegue se fazer retratar com competência nem no cinema (com raras exceções) nem na televisão. A grafia original é em caixa baixa e entre parênteses. O roteiro, escrito por José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta, é um achado. Somos apresentados ao juiz de futebol Juarez Gomes da Silva, apaixonado pela sua profissão, aparentemente profissional (não há indícios de que ele tenha outra ocupação, ao contrário do que normalmente ocorre no meio), cujo grande sonho é apitar uma final de Taça Libertadores da América. A cena de abertura da série é um primor de nonsense, com o árbitro encerrando a almejada partida e sendo carregado em triunfo pelos jogadores de ambas as equipes! Claro que é um sonho de Juarez, que logo acorda e precisa lidar com os problemas de sua vida real. Embora a série deixe claro que Juarez prima pela honestidade em seu ofício, fora das quatro linhas ele não é nenhum santo. Contaminou a mulher com uma doença venérea, contraída em uma relação extraconjugal, razão pela qual ela pede o divórcio. Tem dificuldades para aceitar a escolha do filho pré-adolescente, que prefere usar sapatilhas de balé para aprender a dança a chuteiras para se tornar jogador. Enquanto árbitro, sofre pressão de todos os lados. No primeiro episódio, o magistrado que conduz o processo de separação se revela também presidente do clube que decide o Campeonato Paulista contra um time pequeno e, ao encontrá-lo a caminho do estádio, faz questão de lembrá-lo para “apitar com inteligência”. O resultado não sai como esperado e Juarez será alvo da vingança do outro juiz. A cada episódio, há uma partida de futebol para a qual Juarez é escalado e uma situação paralela que envolve sua vida pessoal. Ambas se cruzarão em certo ponto com sua atuação dentro das quatro linhas, que, por sua vez, influencia o que acontece fora delas.


Por que ver: Antes de tudo, pela criatividade dos roteiros. Com uma estrutura que se anuncia repetida ao longo da série, são pequenos detalhes que fazem a delícia de cada episódio. Há referências e citações facilmente identificáveis, como o nome do estádio em que se joga a final do Paulistão (Parque Atlântico, na verdade o Morumbi com outro nome), o comentarista esportivo que só repete frases feitas, os anunciantes dos programas esportivos e as placas de patrocinadores das partidas. Qualquer pessoa pode curtir essa gozação, mas é claro que quem acompanha futebol e conhece a realidade abordada aproveita melhor as sacadas. O elenco está ótimo. Não conhecia esse ator, Eucir de Souza, que trabalha já desde 2000 e tem uma longa ficha de títulos pouco vistos ou conhecidos. Começou em Soluços e soluções, fez muitos curtas, novelas de TV, e recentemente integrou o elenco de Força tarefa e está em O gorila, aguardada adaptação da novela homônima de Sérgio Sant’Anna que será exibida no Festival do Rio. Tiefenthaler, que faz um dos auxiliares (bandeirinhas) que é sempre escalado com Juarez, é conhecido pelo programa Larica Total, do Canal Brasil, e aqui tem a chance de confirmar sua veia artística.
Por que não ver: Mulheres podem rejeitar a série, já que o assunto é essencialmente masculino. Os espectadores que também não gostam de futebol (inclusive homens que não se ligam no esporte, e há muitos) também não se sentirão interessados em assisti-la. Mas a dica é jogar o preconceito para o escanteio e conferir ao menos um episódio. 

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Coisas que ninguém esquece


Um dos filmes brasileiros mais importantes está completando uma data redonda esta semana. Sua estréia nos cinemas entrou para a história e serviu como um divisor de águas na produção nacional. Não se trata de Limite, Deus e o diabo na terra do sol nem Cidade de Deus, embora este último também esteja chegando a sua primeira década. Falo de Coisas eróticas, de 1982, o primeiro pornô lançado comercialmente no Brasil, e antes que me acusem de depravado ou idiota por valorizar um filme do gênero, apresso-me a explicar. Se ainda hoje há preconceito com o nosso cinema, certamente sua origem está diretamente ligada ao sucesso que aquele filme fez em sua época e que praticamente definiu um “estilo”.

Talvez hoje, de fato, haja menos essa percepção. Mas por muitos anos, filme brasileiro era sinônimo de “filme de mulher pelada”, onde “só tinha sexo e pornografia”. Evidente que tal percepção serviu para afastar o público das produções nacionais. Mas é inegável que Coisas eróticas marcou um período. Antes cercado de certos pudores, o cinema brasileiro escancarou o sexo explícito nas telas a partir daí, descobrindo um novo filão. Seu lançamento fez explodir a Boca do Lixo, região da capital paulista em que se concentravam as principais produtoras do cinema de então, especializadas em filmes de grande apelo e consumo popular. Hoje todo mundo sabe o que foi a Boca, que tipo de cinema era feito lá e muitos já até devem ter visto vários títulos – as gerações mais novas podem descobrir um ou outro título na internet, os mais velhos se lembram, e se algum leitor do blog quiser, pode contar aqui sua experiência de como era ver um filme daqueles na sala escura. Eu era pirralho, nem gostava de cinema (só me interessava por desenhos animados), mas lembro de ver as críticas nos jornais, sempre com a figura do Bonequinho saindo, com os mesmos termos se repetindo no texto: "produção amadora", "nível rasteiro", "grosseria" etc.

Não vou, aqui, fazer uma análise detalhada deste filme ou de qualquer outro daquele período. Há bons livros sobre o assunto, incluindo o recém-lançado Coisas eróticas – A história jamais contada da primeira vez do cinema nacional, escrito por Denise Godinho e Hugo Moura, que esmiúça os bastidores daquela produção, conta detalhes das batalhas judiciais travadas pela liberação da obra e casos curiosos, como o de que a modelo do cartaz do filme era, na verdade, um travesti. Mas quero prestar um tributo àquela época. Muita gente pode querer esquecê-la, ou fazer de conta que não existiu, alegando que desabonava o cinema brasileiro. Pode ser, mas a Boca teve sua importância, tanto que em janeiro houve uma mostra com os títulos mais significativos de então, apresentada no Festival de Amsterdã. Fico pensando como a platéia holandesa, e de resto os jornalistas do mundo todo que cobriram e estiveram presentes ao evento, reagiram diante de tanta tosquice. Imagino que no final o cinema brasileiro tenha saído ganhando, já que saltamos de coisas como Meu marido, meu cavalo para obras premiadas no exterior e de inegável qualidade artística, como Mutum, O palhaço e Ônibus 174. Ainda que à custa de arranhões. Ou seja, saímos da indigência para um patamar elevado em pouco mais de 20 anos. Feito digno de reconhecimento.

Livros, mostras e difusão pela internet são mesmo as melhores formas de manter vivo o interesse por esses filmes, que, na prática, estão condenados ao esquecimento. Muitos foram lançados em vídeo, cumprindo a lei de reserva de mercado, que obrigava as locadoras a terem um mínimo de 25% de títulos nacionais em seu acervo. Mas, como nenhum deles jamais foi digitalizado, a tendência é que se tornem lendas e sumam na poeira do tempo. A exemplo de tantos outros filmes comuns, mais antigos, que hoje só são conhecidos pelo nome. Simbolicamente, o desaparecimento de tais produções representaria também o apagamento de um período negro do cinema brasileiro, do qual normalmente não se gosta de lembrar. Mesmo que isso aconteça, contudo, há certas coisas que ninguém conseguirá esquecer.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Uma estrela que se recusa a brilhar


Peço desculpas aos eventuais leitores desse espaço, mas hoje não vou escrever nem sobre cinema, nem sobre literatura. Vou abordar uma das tais outras delícias viciantes que definem o conteúdo do blog. Apesar de que, na essência, o assunto se assemelha a um filme de horror.

No último dia 22, o Botafogo venceu o Palmeiras por 3x1 no jogo de volta da fase classificatória da Copa Sul-Americana, mas foi eliminado por causa do critério utilizado na competição, semelhante ao da Copa do Brasil. Como perdeu a primeira partida por 0x2 em Barueri, 15 dias antes, o Alvinegro precisava marcar três gols e não sofrer nenhum para seguir adiante. Como o Palmeiras marcou um gol na casa do adversário, isso pesou no somatório das duas partidas, que terminaram em 3x3. O “alviverde imponente” se manteve na disputa e o Glorioso ficou no começo do caminho (nem chegou ao meio). O time saiu de campo aplaudido por seu espírito de luta, garra e vontade demonstrados ao longo dos 90 minutos. Essa entrega na busca por um resultado satisfatório era o mínimo que se podia esperar. Mas houve outro aspecto que chamou atenção naquela partida.

Ser eliminado de uma competição mesmo com uma vitória é raro, mas acontece em competições dessa natureza, de tiro curto. No entanto, causou muita estranheza à imprensa em geral o público minúsculo que acompanhou o jogo no Estádio Engenhão. Apenas 2.434 almas, a maioria botafoguense, pagaram ingresso para ver um jogo decisivo para o clube do Rio. Afinal, era tudo ou nada, e a missão, embora reconhecidamente complicada, não era impossível para o Botafogo. Considerando que a capacidade do Engenhão é de 45 mil lugares, estava praticamente vazio, um fenômeno que não chega a ser raro, sobretudo em jogos do próprio Botafogo, que administra o local desde sua inauguração, em 2007, o que já levou adversários a apelidarem o estádio de “Vazião” ou “Enchenão”. No dia seguinte, um jornalista da ESPN questionou se houvesse um apoio maior da torcida, coisa de 30 mil pagantes, se a sorte do Botafogo teria sido melhor, se o time, contando com o incentivo de mais torcedores, não teria chegado ao (àquela altura) quarto gol, que lhe daria a vaga na fase seguinte. Mas quem definiu de forma clara e simples a situação foi o comentarista Eraldo Leite, da Rádio Globo, que vaticinou: “O pouco público é um reflexo imediato da falta de confiança que o time do Botafogo passa a sua torcida”.

E o maior problema é que essa desconfiança foi sendo germinada ao longo dos últimos anos. Várias vezes nesse período o Botafogo teve a chance de figurar entre os grandes, que é seu lugar, afinal de contas, sustentando a ponta de uma tabela, conquistando títulos, superando adversários reconhecidamente inferiores. Nada acontecia, porém, e a cada vez que a torcida enchia o estádio, o time fraquejava e brindava seus simpatizantes com uma amarga dose de incompetência e frustração. De tanto repetir-se a fórmula, chegou-se à descrença absoluta. Hoje, o Botafogo joga para pouco mais de três mil pagantes, em média. Talvez porque, no fundo, os abnegados que compareçam ao estádio sabem que o time não irá longe, não ganhará nada. Só fará figuração.

De minha parte, já desisti de acreditar nesse time. Continuo Botafogo e o serei até o fim, mas fica difícil levar fé em uma equipe que se recusa a provar sua grandeza, que consegue ficar invicta durante um campeonato inteiro – um feito, sem dúvida – e perde justamente os dois jogos finais! Ou seja, ainda “iludiu” a torcida com a expectativa de um título histórico para desfazer o sonho em apenas uma partida. Uma equipe que se mantém entre os quatro primeiros do campeonato nacional por quase todas as rodadas, mas na derradeira, na hora de definir os classificados a uma vaga na principal competição continental, fraqueja e deixa a última vaga escorrer pelos dedos, por pura incompetência, perdendo seis jogos em sete disputados, marca tão vexatória que nem os times que terminaram rebaixados conseguiram atingir. Só vou citar esses dois exemplos (há inúmeros outros), que bastam para demonstrar o quanto essa estrela vem perdendo o brilho.

Para aumentar a desconfiança da torcida, o time agora sofre com a falta de um centroavante. A diretoria teve a inteligência de vender os dois titulares do ataque e ídolos da torcida – Herrera e Loco Abreu – sem contratar ninguém para ocupar as posições, tanto no campo quanto no coração dos torcedores. Assim, com Elkeson improvisado e torto no comando do ataque, o time perde ainda mais seu poder de fogo, que já não era mesmo grande coisa. Depois ninguém entende porque o Engenhão fica vazio. É a estrela que vai se ofuscando cada vez mais.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Conflitos internos


Tenho uma regra: só aceito rever um filme depois de passado pelo menos um ano. No caso de filmes aos quais classifiquei com quatro ou cinco estrelas, o intervalo se amplia para de cinco a dez anos. É para dar tempo de a história “assentar”, deixar que descanse em algum canto da memória. Isso serve para que as qualidades de tal filme, que me levaram a qualificá-lo como uma obra-prima, se fortaleçam. Muitas vezes é quase como se fosse um filme inédito, já que nossa experiência cinéfila (e também de vida) é maior. Descobrimos mais detalhes, concedemos outras interpretações... A primeira vez seria a do impacto; a segunda, a da reflexão, da percepção, da maturação de um filme em sua excelência. Revi Zona de conflito agora, nove anos após tê-lo visto pela primeira vez. E todas as qualidades que vi nele na época se realçaram.

Dramas familiares existem aos montes, mas poucos conseguem ser tão dilacerantes quanto este, de 1998, que marcou a estréia na direção do ator Tim Roth. Apesar do ótimo resultado e da repercussão positiva – chegou a ser indicado ao prêmio de melhor diretor no Festival de Filmes Britânicos Independentes – , ele nunca mais se aventurou atrás das câmeras. Pena, porque mostra aqui potencial, segurança e refinamento na condução da história.

Ao se mudar com a família de Londres para Devon, o tímido adolescente Tom se torna ainda mais retraído, sem a companhia de seus amigos. Sua mãe está grávida, o pai trata a todos com rigidez, mas também com afeto, e sua irmã mais velha o acolhe nos momentos difíceis. Um dia, voltando das compras, Tom testemunha um fato terrível, que o lançará em um mundo de incertezas. Contém sua revolta, até que chega um dia em que não será mais possível guardar tanta dor. Sua angústia se transforma em ação e explode em uma cena de forte impacto visual.

Com meia hora de filme o grande segredo da trama se apresenta ao espectador. Mesmo assim, prefiro não revelá-lo. A partir daí, assiste-se a um lento e doloroso estudo sobre a culpa. É um rito de passagem dos mais escabrosos, pontuado pela fotografia que valoriza as belíssimas locações externas e por um ritmo contemplativo, lembrando por vezes os dramas existenciais de Bergman.

Roth extrai o máximo de seu elenco. Tilda Swinton dispensa apresentações e muitos anos antes de se mudar para Hollywood já era a atriz de fartos recursos dramáticos que hoje o grande público conhece. Ray Walstone confere amedrontadora veracidade à figura do pai ambíguo. Também construiu carreira sólida nos Estados Unidos (Sexy beast, A proposta, recentemente em A invenção de Hugo Cabret, entre muitos outros). Ironicamente, o casal de filhos, interpretados por dois estreantes no cinema, parece ter sido mesmo vítima de maldição familiar, já que nenhum dos dois fez nada de relevante depois. Freddie Cunliffe, que faz o atormentado adolescente, limitou-se a curtas e telefilmes sem importância, empacando a carreira em 2008. A bela Lara Belmont ainda se arriscou em Hollywood com o fraco terror O jogo dos espíritos, de 2001, mas também não alcançou o estrelato que se esperava. Ainda na ativa, igualmente se limitou a produções menores (séries, curtas). Ambos transmitem, apenas com o olhar e expressões faciais, toda a complexa rede de desespero e dor silenciosa que seus jovens personagens experimentam. São grandes trabalhos de composição. Curiosidade: Colin Farrell, bem novinho, faz uma ponta (nos créditos finais, assina com um "J." entre seus dois nomes).

O título original, “The war zone”, o mesmo do romance de Alexander Stuart, não publicado no Brasil, em que o roteiro se baseia, faz crer que se trata de um drama de guerra. Mas, na verdade, a guerra maior e mais sofrida é travada mesmo dentro de casa. Com feridas incuráveis. Um filme obrigatório, para ser conhecido ou redescoberto. Inclusive pelas distribuidoras, que despejam tanta besteira nas locadoras, mas nunca se tocaram de lançar este aqui em DVD.

*********************************************************************************

A partir dessa semana, as postagens aqui no CineComFritas serão feitas apenas às quintas-feiras. É para dar mais visibilidade a alguns textos, que antes ficavam "espremidos" no final de semana. Porém, na época do Festival do Rio (28 de setembro a 11 de outubro), as postagens podem voltar a ser diárias, ou quase.

domingo, 19 de agosto de 2012

Marilyn


Marilyn. A simples pronúncia deste nome já evoca um turbilhão de emoções para os cinéfilos. Descobri Marilyn há muitos anos, ao assistir a uma reprise dublada de O pecado mora ao lado, em uma madrugada perdida na TV aberta – sim, antigamente os canais abertos exibiam filmes clássicos e antigos. Até hoje não sei o que mais me encantou: se o roteiro bem estruturado, se a beleza de Marilyn, se a simples oportunidade de tomar contato com um ícone da Sétima Arte, aí incluindo a famosa cena do vestido esvoaçante. O fato é que Marilyn entrou na minha vida para não mais sair.

No último dia 5, o mundo relembrou os 50 anos da morte de Marilyn, um acontecimento ainda hoje envolto em mistério – nunca se descobriu, e provavelmente jamais se descobrirá, se foi suicídio motivado por depressão ou assassinato como queima de arquivo. Nada escrevi aqui porque quis fugir do óbvio, uma vez que praticamente todos os blogs de cinema abordaram o assunto. E eu detesto o óbvio. É claro que não me esqueci da data, e a homenagem que hoje faço é a que considero a mais adequada a um símbolo inconteste do cinema e exemplo de estrela de primeira grandeza do panteão de figuras refulgentes do firmamento hollywoodiano: apenas fotos e imagens de Marilyn. Não precisa mais nada para louvarmos sua memória.