quarta-feira, 4 de março de 2015

Nas mãos de um pesadelo

As mãos de Orlac (1923)
Em 1919, O gabinete do Dr. Caligari dirigido por Robert Wiene e estrelado por Conrad Veidt, marcou o início do Expressionismo alemão no cinema. Quatro anos depois, a mesma dupla voltou a se reunir e realizou mais um dos clássicos daquele período, As mãos de Orlac.

O renomado pianista Paul Orlac está voltando para casa após uma série de concertos quando sofre um acidente no trem em que viajava. Consegue escapar com vida, mas sofre a perda mais dolorosa para qualquer pianista e tem as mãos amputadas. Os médicos transplantam para Orlac os membros de Vasseur, um serial killer recentemente condenado e executado. Sabedor dessa informação, o agora ex-virtuose das teclas passa a apresentar um comportamento estranho e violento, com ímpetos criminosos. A situação se complica quando ele começa a ter visões de um homem que se diz Vasseur, e que deseja atribuir a ele a autoria de vários crimes ainda não solucionados. Tudo pode ser apenas num delírio da mente perturbada de Orlac... ou não.

O tema da transferência de personalidade a partir do transplante de partes de corpos de outra pessoa seria amplamente explorado pelo cinema nas décadas seguintes, em maior ou menor grau, com pequenas ou grandes variações. Oliver Stone fez quase uma paródia deste clássico em A mão (1981), um de seus primeiros filmes (pouco conhecido e hoje esquecido até por nunca ter sido lançado em DVD), em que a vítima de manoplas assassinas é um pobre cartunista (Michael Caine), que recebe também os membros transplantados de um psicopata. O espetacular Santa sangre (1989). de Jodorowsky, também faz uma referência a este aqui, com a inesquecível fala final do protagonista: "Minhas mãos... estas mãos!"

Embora o visual do filme seja menos impactante visualmente que o trabalho mais famoso de Wiene, estão lá as principais características do movimento: os ambientes opressores, a fotografia contrastante entre luz e sombras, o gestual grosseiro na interpretação e o clima constante de pesadelo, confundindo o espectador em sua percepção de delírio e realidade.

Pena que a edição da Magnus Opus é tão pobre quanto a maioria, trazendo apenas biografias e fotos como extras. Um filme a ser descoberto ou revisto.

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Por motivos técnicos, o CineComFritas ficará sem atualizações nas próximas semanas. Voltaremos no dia 10 de abril. 

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Oscar 2015 - Todos os vencedores

Acho que não é errado dizer que foi uma surpresa o resultado do Oscar, entregue agora há pouco no Dolby Theatre. Não se podia descartar a força crescente de Birdman, mas muitos davam como certa a vitória de Boyhood, inclusive o editor deste blog, mesmo não tendo a menor simpatia pelo projeto de Richard Linklater. Que me desculpem os fãs do filme, mas a prova de sua mediocridade é que conseguiu perder até na categoria que poderia ser considerado imbatível, a de Montagem, a grande surpresa da noite, que foi para Whiplash – Em busca da perfeição. Prova que era mesmo um produto de marketing, com mais folclore em sua produção do que conteúdo na realização.

A cerimônia foi marcada pelas farpas e críticas disparadas pelo apresentador Neil Patrick Harris à própria Academia, pelo desprezo concedido ao filme Selma, logo em sua primeira fala da noite, quando expressou: "Aqui estão reunidos os mais brancos...", emendando uma falsa correção em seguida ("brilhantes da América"), obviamente se referindo à ausência de intérpretes negros entre os indicados do ano, cota que poderia ter sido preenchida pelo filme dirigido por Ava DuVernay, também relegada ao ostracismo.

O momento mais emocionante, por tabela, foi a apresentação de "Glory", a canção vencedora, uma catarse conduzida por John Legend e Common, que a defenderam no palco. Prestou justiça e marcou a posição dos votantes contra o absurdo esquecimento. Claro que omissões sempre vão acontecer no Oscar, mas algumas são tão escandalosas que fica difícil justificar.

Veja abaixo os vencedores em todas as categorias do Oscar 2015.


FILME: Birdman (Birdman or The unexpected virtue of ignorance) / Fox
DIRETOR: Alejandro González Iñarritu (Birdman)
ATOR: Eddie Redmayne (A teoria de tudo)
ATRIZ: Julianne Moore (Para sempre Alice)
ATOR COADJUVANTE: J. K. Simmons (Whiplash – Em busca da perfeição)
ATRIZ COADJUVANTE: Patrícia Arquette (Boyhood – Da infância à juventude)
ROTEIRO ORIGINAL: Alejandro González Iñarritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris e Armando Bo (Birdman)
ROTEIRO ADAPTADO: Graham Moore (O jogo da imitação)
FILME ESTRANGEIRO: Ida (Ida) (Polônia)
FILME DE ANIMAÇÃO: Operação Big Hero (Big Hero 6)
FOTOGRAFIA: Birdman
DIREÇÃO DE ARTE: O Grande Hotel Budapeste
FIGURINOS: O Grande Hotel Budapeste
TRILHA SONORA: O Grande Hotel Budapeste
CANÇÃO: "Glory" (Selma)
MONTAGEM: Whiplash – Em busca da perfeição
MAQUIAGEM: O Grande Hotel Budapeste
EFEITOS ESPECIAIS: Interestelar
SOM: Whiplash – Em busca da perfeição
EFEITOS SONOROS: American sniper
DOCUMENTÁRIO: Citizenfour (idem)
DOCUMENTÁRIO DE CURTA-METRAGEM: Linha de apoio ao veterano em crise (Crisis hotline: veterans press 1)
CURTA-METRAGEM: O telefonema (The phone call)
CURTA DE ANIMAÇÃO: O banquete (Feast)
Prêmio Jean Hersholt: Harry Belafonte


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Bolão pessoal do Oscar 2015

Como faço tradicionalmente desde 2012, quando o blog foi reativado, deixo aqui os meus palpites para o Oscar.

FILME
Parece que não tem jeito mesmo, e Boyhood – Da infância à juventude levará o Oscar. É o queridinho de todo mundo, já ganhou o Globo de Ouro de Drama e ainda chega turbinado pela conquista do Bafta no último final de semana, o que costuma ser o termômetro mais certeiro da premiação norte-americana (quase sempre os vencedores de um coincidem com os de outro). Como já escrevi aqui, detestei o filme, mas sou uma voz no deserto. Deve levar mais pelo projeto em si, pelo marketing, do que por suas qualidades cinematográficas. Ou seja, caso típico em que a indústria se rende à forma e esquece de avaliar o conteúdo. Minha torcida é toda para Whiplash – Em busca da perfeição, mas também ficaria feliz se Birdman saísse vencedor.

DIRETOR
Acompanhando o prêmio concedido ao seu filme, Richard Linklater entra para a galeria dos realizadores que tiveram seu talento oficialmente reconhecido por Hollywood. É uma figura muito querida, que bem já faz por merecer o prêmio, mas que poderia ter sido agraciado por alguma outra obra de sua interessante carreira.

ATOR
Aposto em Eddie Redmayne, que incorpora Stephen Hawking e também vem papando prêmios. A Academia adora esse tipo de interpretação que exige muito sacrifício físico – mas ele está mesmo muito bem em A teoria de tudo.  

ATRIZ
Se Julianne Moore não ganhar este ano, melhor esquecer a carreira e abrir um trailer de cachorro-quente. É redundante dizer que ela está espetacular em Para sempre Alice. O Oscar viria até pelo conjunto da obra.

ATOR COADJUVANTE
J. K. Simmons. Sem muita discussão.

ATRIZ COADJUVANTE
Todas as setas apontam para uma vitória de Patrícia Arquette, que consegue ser uma das poucas qualidades de um filme fraco, mas também contemplaria uma bela carreira. Mas aposto em Keira Knightley, que também já está fazendo por merecer uma estatueta.

FILME ESTRANGEIRO
Esta é uma das melhores seleções dos últimos anos, com cinco ótimos filmes – mesmo Timbuktu, que acho o mais fraco da lista, ganhou uma importância absurda pelos recentes atos de terrorismo propagados pelo Estado Islâmico. Apesar do equilíbrio, a disputa está entre o polonês Ida e o russo Leviatã. Cada um chega vitaminado por um prêmio de relevância: o primeiro ganhou o European Award, enquanto o segundo levou o Globo de Ouro da categoria e cresceu bastante nos últimos dias.

FILME DE ANIMAÇÃO
Foi um ano muito fraco para a animação, e a lista dos indicados comprova isso. Na falta de maior qualidade, optou-se por privilegiar o que rendeu bem aos cofres dos estúdios. Pela lógica, quem ganha é Operação Big Hero, um campeão mundial de bilheteria tanto quanto Frozen – Uma aventura congelante, ganhador ano passado, mas sem a mesma excelência de realização. 

ROTEIRO ORIGINAL
Não gosto dos filmes de Wes Anderson, acho seus roteiros enrolões demais para situações tão simples e nunca chegam a lugar algum. Mas meu voto vai para O Grande Hotel Budapeste, onde o diretor finalmente conseguiu dar sustentação dramática suficiente para justificar as muitas opções narrativas propostas pelo roteiro mirabolante.

ROTEIRO ADAPTADO
Aqui, meu palpite é por A teoria de tudo. Pode ser cheio de omissões e atenuantes dramáticas em prol de maior funcionalidade nas telas, mas a adaptação da vida do físico Stephen Hawking alcança o objetivo final, qual seja, emocionar a platéia. Mas, se houver justiça, o prêmio deveria ir para Vício inerente, pela proeza de conseguir adaptar para o cinema um livro de Thomas Pynchon.

FOTOGRAFIA
Embora seja o menos cotado da lista, aposto no azarão Invencível. Por quê? Bem, Hollywood está devendo um agrado à Angelina Jolie há muito tempo, e de que outra forma isso pode acontecer a não ser premiando um filme dirigido por ela?

DIREÇÃO DE ARTE
Outro prêmio para O Grande Hotel Budapeste, com sua belíssima recriação de um universo que funde o realismo de cenários reais à imaginação delirante de seu criador.

FIGURINOS
Esnobado pela Academia em categorias de maior relevância – muitos apostavam que Timothy Spall seria finalista entre os atores – Mr. Turner sai do Oscar com este prêmio de consolação.

MAQUIAGEM
Mais um para premiar a excelência técnica de O Grande Hotel Budapeste.

CANÇÃO
Não só "Glory" (de Selma) é a melhor entre as indicadas, mas também fará justiça a um filme que foi desprezado pela Academia e poderia ter rendido muitas outras nomeações.

TRILHA SONORA
Divertida e solene ao mesmo tempo, a trilha de O Grande Hotel Budapeste sai vencedora aqui.

MONTAGEM
Parece óbvio que um filme feito ao longo de 12 anos e que consegue contar uma história com começo, meio e fim é o favorito absoluto desta categoria. Se há algum mérito em Boyhood – Da infância à juventude é justamente sua competência na edição narrativa.

EFEITOS ESPECIAIS
O interessante mas mal-compreendido Interestelar será imortalizado na história graças ao prêmio nesta categoria.

SOM
Filmes de temática musical sempre são favoritos neste quesito. Portanto, meu palpite vai para Whiplash – Em busca da perfeição.

EFEITOS SONOROS
Não dá para imaginar um filme de Clint Eastwood saindo de um Oscar sem levar nada. Pois o seu American sniper fatura aqui. Em tempo: recuso-me a usar a ridícula tradução inventada tanto pela distribuidora Warner quanto pela Editora Intrínseca, que publicou o livro em que o filme se baseia. Ou se traduz tudo ("Atirador americano") ou mantém-se o título original! Não aprenderam ainda?

DOCUMENTÁRIO
Apesar do prestígio de Wim Wenders, do reconhecimento mundial do trabalho de Sebastião Salgado  e de toda a torcida brasileira, para os norte-americanos nada é mais importante do que a própria história em curso. Citizenfour, que conta os bastidores das denúncias feitas por Edward Snowden, deixará o Brasil, mais uma vez, fora de foco no Oscar.

DOCUMENTÁRIO DE CURTA-METRAGEM
Agora é palpite puro e simples. Meu voto aqui é para Crisis hotline: veteran press 1, que já foi exibido pela HBO daqui.

CURTA-METRAGEM
Fico com Parvaneh.

CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
Minha aposta é em The dam keeper.

A cerimônia do Oscar será realizada no próximo dia 22 e os resultados você confere aqui no CineComFritas já no dia seguinte.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Quando a leitura vira pesadelo

O senhor Babadook (2013)
Hoje em dia é tão difícil assistir a um filme de terror minimamente decente, ou seja, que fuja à fórmula fácil de sangue a rodo e tortura gratuita, que quando descobrimos algum que trilhe outros caminhos já é motivo de aplauso. Este O senhor Babadook é uma produção australiana, país que tem relativa tradição no gênero, e dá para imaginar o estrago que Hollywood vai fazer no caso de uma muito provável refilmagem local.

Uma jovem mãe viúva se muda com seu filho de 8 anos para uma nova casa em Sydney, na tentativa de dar fim aos pesadelos que assolam as noites do menino. Só que o tiro sai pela culatra: o moleque não só continua tendo sonhos aterradores, mas também vai se tornando cada vez mais violento. As ameaças e atitudes agressivas do pequeno coincidem com a descoberta de um livro infantil, chamado Babadook, de história e desenhos (como pop-ups, que saltam das páginas quando são abertas ou viradas) altamente perturbadores, tratando de morte e assassinato  muito instrutivo para o universo infantil, como se vê. A mulher destrói o livro, mas agora ela é quem passa a ser assombrada por pesadelos. E, brevemente, descobrirá que aquela não é apenas uma historinha supostamente para crianças: é uma força demoníaca que quer destruir ela e o filho.

O que me incomodou no filme foram os cortes, rápidos e por vezes abruptos, interrompendo cenas que soam incompletas com tal recurso. A montagem, por tabela, é acelerada, o que compromete um pouco o clima assustador que a história, de maneira gradual, vai criando. Mas, quando se propõe a montar uma atmosfera de medo e tensão, o roteiro consegue, com sobras. Há cenas realmente de gelar o sangue, a ponto de eu pensar que não é um filme adequado para se ver sozinho à noite, e isso é um elogio e tanto a qualquer produção atual do gênero.

A figura do misterioso Babadook nunca é vista de forma explícita, apenas sua silhueta ou reproduzida nos desenhos  também aparece encarnada em tipos vistos nas primeiras experiências cinematográficas de Meliès (mas tudo pode ser um delírio visual da mãe).

Também me frustrou a ausência de uma explicação para as origens do personagem. O Babadook seria um livro amaldiçoado? Um demônio ancestral? A representação de uma maldição milenar que habita aquela casa? O roteiro não explica nem fornece pistas para o espectador. Mas esse detalhe não compromete a montanha-russa de sustos bem-encaixados. 

A diretora e roteirista Jennifer Kent, que também é atriz (esteve em Babe, o porquinho atrapalhado na cidade, 1998, mas não aparece aqui) apresenta um bom cartão de visitas na sua estréia no longa-metragem. Ajustes precisam ser feitos, mas o início é promissor.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

A bruxinha que era boa

Uma garota na vassoura (1972)
A antiga Tchecoslováquia sempre teve forte tradição em cinema fantástico e surrealista, sobretudo nos anos 60, quando filmes com essa temática eram realizados em profusão. Sou fã do estilo e, por isso, gostei muito de descobrir essa pequena jóia da produção local, praticamente desconhecida no Brasil – adianto em explicar que o título nacional é uma livre-adaptação particular da tradução para o inglês, The girl on the broomstick (no original tcheco, Dívka na kostéti).

Saxana é uma bruxinha adolescente que cursa a Escola de Magia no país em que vive. Tem dificuldades para conjurar os feitiços determinados pela professora: em vez de se transformar em um corvo, por exemplo, só consegue assumir a forma de uma vaca. Um dia, ouve falar de criaturas estranhas, que habitam uma terra muito distante: os humanos (e, afinal, somos estranhos mesmo!). Curiosa, resolve conhecer nossos hábitos e costumes; transmudada em uma coruja, acaba indo parar na casa de um estudante, que a leva para a escola. É quando as trapalhadas começam.

O filme é narrado como se fosse um conto de fadas, desses tradicionais que as crianças antigamente liam nos livros de história, e os quais, presumo, caíram no esquecimento, tragados pelas contemporaneidades que roubam a inocência. A mesma inocência que surge em cada fotograma deste filme extremamente simples em sua forma, na produção, nos figurinos modestos, mas que é capaz de encantar, tanto à primeira vista quanto aos que já são admiradores desse tipo de cinema. Claro que é preciso relaxar e assisti-lo exatamente com os olhos de uma criança, para que seja possível uma melhor e mais completa fruição da narrativa.

Saxana descobre as maravilhas do mundo humano.
Saxana fica tão encantada com tudo o que encontra e descobre – um rádio, a música – que decide ficar por aqui, entre nós. Para isso, porém, precisa ingerir uma poção mágica, que lhe concederá a condição humana, cortando os laços que a unem a seu universo maravilhoso. É óbvio que o roteiro desenha uma metáfora para o crescimento e o amadurecimento individual, especialmente o feminino, já que a bruxinha também deseja conhecer o amor. Um romance entre ela e seu anfitrião, porém, nem sequer é esboçado, até a cena final.

Além de ser um conto de fadas encenado com atores reais, o filme também se aproxima bastante da estética dos quadrinhos em diversos momentos. O mais famoso é aquele em que Saxana estica o braço por baixo da carteira escolar e rouba um livro da mesa da professora. Há outro nesse mesmo sentido, quando o rapaz que a ajuda no "mundo humano" literalmente perde a cabeça e ela vai parar em cima de um criado-mudo! Tudo feito com recursos visuais simples, mas altamente eficientes. 

A amável bruxinha marca a estréia da ruiva Petra Cernocká no cinema, que teve carreira irregular, só voltando às telas em 1982, e sempre trabalhando em Praga, inclusive estrelando uma espécie de continuação/refilmagem em 2011, repetindo a personagem, agora idosa, contando suas memórias. O diretor Vaclav Vorlicek, que assinou também essa nova versão, continua na ativa e realizou, entre outros, uma pérola do humor surreal, Quem quer matar Jessie? (1966). Mas sua carreira se restringiu ao mercado local, privando o mundo de conhecer e admirar mais o seu estilo. Dívka na kostéti é um delicioso exemplar do mágico cinema tcheco feito nos anos 60. Quem quiser conhecer o gênero de forma mais acessível, pode procurar, em alguma boa locadora, Um dia, um gato (1963), de Vojtech Jasny, um dos títulos mais festejados daquela safra.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Couvert da memória

A canção do almoço (2010)
Existem romances de 400, 500 páginas ao fim das quais o leitor se pergunta o que diabos leu ali e lamenta o tempo perdido. Não vou dar exemplos, há milhares deles nas prateleiras de qualquer livraria. Igualmente como há filmes de três horas de duração que falam sobre nada, frustrando o espectador e levando-o a refletir sobre o que poderia ter feito de útil durante aquele período em vez de ficar enfurnado numa sala escura.

A analogia é necessária para reforçar a qualidade de um filme pequeno, pouco conhecido, mas que está disponível na rede para quem tiver paciência de procurar e sorte de encontrar (quem não tiver nenhum dos dois pode conferir suas esporádicas exibições na TV a cabo). Em pouco mais de 40 minutos, A canção do almoço consegue dizer muito mais do que qualquer produto hollywoodiano pretensamente genial.

Concebido para a BBC inglesa, este média-metragem é baseado no poema narrativo The song of lunch, escrito por Christopher Reid em 2010. Às 12h de um dia qualquer de semana, o modesto revisor de uma editora pequena deixa seu escritório para ir almoçar. Não será um almoço qualquer: ele irá se encontrar com sua antiga paixão, a ex-mulher que se tornou uma bem-sucedida escritora, reconhecida nos meios literários e acadêmicos, seguindo caminho inverso ao dele mesmo, que alcançou relativo sucesso ao publicar um livro anos antes e implodiu.

Aquele encontro, bem como todo o ambiente que o envolve, está carregado de lembranças passadas, lembranças ainda muito nítidas na mente do revisor (os personagens não têm nome, nem precisam). Só que aquele mundo que ele traz na memória não existe mais. As ruas do SoHo por onde ele caminha não são as mesmas de antes. O próprio dono do seu restaurante preferido se aposentou, legando o negócio a seus filhos, e nem os garçons do local resistiram à passagem cruel do tempo. A decoração, o serviço... tudo está diferente. É outro mundo. É outra vida. Será ele a mesma pessoa? Não, ele também mudou... será que os sentimentos também mudaram?

A brevidade da história pode fazer com que o espectador menos atento deixe passar pequenos detalhes que enriquecem o roteiro e conferem um sabor especial à produção. Temas normalmente complexos, como a busca da eterna juventude, a soberba que faz recusar a aceitação de um fracasso, as diversas referências eróticas, como no momento em que o personagem do revisor bebe vinho, são apresentados de forma simples e direta. Alan Rickman e Emma Thompson encarnam os protagonistas, em atuações contidas e eficientes.

Agradável de ver, com um belo texto e dura tanto quanto um bom episódio de alguma série. Dispense os romanções verborrágicos e opte por este pequeno e recompensador volume.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Todos os indicados ao Oscar 2015

Para mim, esta é a safra mais fraca do cinema norte-americano recente, sem nenhum grande filme que encha os olhos, nenhuma superprodução que normalmente seja associada à premiação do Oscar. A Academia deve compartilhar de opinião parecida, tanto que foram apenas oito os indicados a melhor filme, o número mais baixo desde 2010, quando foi permitido que entre 5 e 10 concorressem. Assim, não vi surpresa alguma entre os finalistas, todos já eram mais ou menos esperados.

Alguns destaques entre os indicados, anunciados hoje: estranhei a ausência de Amy Adams, que acabou de ganhar o Globo de Ouro por Grandes olhos talvez porque devam achar que ainda não é a sua hora de levar o Oscar para casa. Hora que parece finalmente ter chegado para Julianne Moore, brilhante como de costume em Para sempre Alice e se perder mais uma vez, é melhor encerrar a carreira e fazer análise. E por que diabos Meryl Streep novamente? Isso já é vício de Hollywood, não é possível que não haja outra atriz que faça jus a uma nomeação! Também estranha é a presença de Bennett Miller entre os diretores, já que seu filme ficou fora da disputa principal é a primeira vez que isso acontece também desde 2010, no atual sistema de indicações.

Adorei a inclusão do estoniano Tangerinas entre os concorrentes de língua estrangeira: é um filme pequeno, mas belíssimo, sensível, inteligente. Não deve ganhar, mas a exposição que conseguiu já é um prêmio e um convite a que mais pessoas o conheçam.

O Brasil tinha quatro chances de participar da festa, e acabou entrando com um dos documentários, O sal da terra, de Wim Wenders, sobre o fotógrafo Sebastião Salgado, cujo filho Juliano assina a codireção. A aposta é válida, mas infelizmente acho que ainda não é a nossa vez de festejarmos uma premiação em Hollywood.

Abaixo, todos os indicados ao Oscar 2015.

FILME
Birdman
O Grande Hotel Budapeste
O jogo da imitação
American sniper
Boyhood – Da infância à juventude
Whiplash – Em busca da perfeição
A teoria de tudo
Selma

DIRETOR
Alejandro González-Iñarritu (Birdman)
Wes Anderson (O Grande Hotel Budapeste)
Morten Tyldon (O jogo da imitação)
Richard Linklater (Boyhood – Da infância à juventude)
Bennett Miller (Foxcatcher – Uma história que chocou o mundo)

ATOR
Michael Keaton (Birdman)
Benedict Cumberbatch (O jogo da imitação)
Bradley Cooper (American sniper)
Eddie Redmayne (A teoria de tudo)
Steve Carell (Foxcatcher – Uma história que chocou o mundo)

ATRIZ
Felicity Jones (A teoria de tudo)
Reese Witherspoon (Livre)
Julianne Moore (Para sempre Alice)
Rosamund Pike (Garota exemplar)
Marion Cotillard (Dois dias, uma noite)

ATOR COADJUVANTE
Edward Norton (Birdman)
Ethan Hawke (Boyhood – Da infância à juventude)
J. K. Simmons (Whiplash – Em busca da perfeição)
Mark Ruffalo (Foxcatcher – Uma história que chocou o mundo)
Robert Duvall (O juiz)

ATRIZ COADJUVANTE
Emma Stone (Birdman)
Keira Knightley (O jogo da imitação)
Patrícia Arquette (Boyhood – Da infância à juventude)
Meryl Streep (Caminhos da floresta)
Laura Dern (Livre)

FILME ESTRANGEIRO
Ida (Polônia)
Leviatã (Rússia)
Tangerinas (Estônia)
Timbuktu (Mauritânia)
Relatos selvagens (Argentina)

FILME DE ANIMAÇÃO
Os Boxtrolls
Operação Big Hero
Como treinar o seu dragão 2
O conto da Princesa Kaguya
A canção do mar

ROTEIRO ORIGINAL
Birdman
O Grande Hotel Budapeste
Boyhood – Da infância à juventude
Foxcatcher – Uma história que chocou o mundo
O abutre

ROTEIRO ADAPTADO
O jogo da imitação
American sniper
Whiplash – Em busca da perfeição
A teoria de tudo
Vício inerente

FOTOGRAFIA
Birdman
O Grande Hotel Budapeste
Mr. Turner
Invencível
Ida

DIREÇÃO DE ARTE
O Grande Hotel Budapeste
O jogo da imitação
Interestelar
Mr. Turner
Caminhos da floresta

FIGURINOS
O Grande Hotel Budapeste
Mr. Turner
Caminhos da floresta
Vício inerente
Malévola

MAQUIAGEM
O Grande Hotel Budapeste
Foxcatcher – Uma história que chocou o mundo
Guardiões da galáxia

CANÇÃO
"Glory" (Selma)
"Lost stars" (Mesmo se nada der certo)
"Everything is awesome" (Uma aventura Lego)
"Grateful" (Além da luz)
"I'm not gonna miss you" (Glenn Campbell – I'll be me)

TRILHA SONORA
O Grande Hotel Budapeste
O jogo da imitação
A teoria de tudo
Mr. Turner
Interestelar

MONTAGEM
O Grande Hotel Budapeste
O jogo da imitação
American sniper
Boyhood – Da infância à juventude
Whiplash – Em busca da perfeição

EFEITOS ESPECIAIS
Interestelar
Guardiões da galáxia
X-Men – Dias de um futuro esquecido
Capitão América – O soldado invernal
Planeta dos Macacos – O confronto

SOM
Birdman
American sniper
Whiplash – Em busca da perfeição
Interestelar
Invencível

EFEITOS SONOROS
Birdman
American sniper
Interestelar
Invencível
O hobbit – A batalha dos cinco exércitos

DOCUMENTÁRIO
O sal da terra
Vietnã – Batendo em retirada
A fotografia oculta de Vivian Meyer
Virunga
Citizenfour

DOCUMENTÁRIO DE CURTA-METRAGEM
Joanna
La parka
Crisis hotline: veteran press 1
Nasza klatwa
White Earth

CURTA-METRAGEM
Aya
Boogalloo and Graham
La lampe au beurre de yak
Parvaneh
O telefonema

CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
The bigger picture
The dam keeper
O banquete
Uma vida simples
Me and my Moulton