quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Oscar 2013 (final) e Framboesa de Ouro


Acertei o principal prognóstico do Oscar 2013: errei quase todos os palpites que dei. Foi disparado meu pior desempenho em todos os tempos, apenas 3 acertos (em 24 categorias!), um vexame que pode levar muitos leitores eventuais a acharem que o articulista não entende nada de cinema. Mas o desastre tem uma explicação: pus muito coração nos meus palpites, optei por marcar muito da minha torcida e deixei de lado o aspecto racional do jogo. E todo mundo sabe que em bolão (seja de cinema, seja de futebol) o que vale é a razão.

Mas foi mesmo um Oscar meio estranho. O filme vencedor não foi o mais premiado da noite (não é comum, embora venha se observando com freqüência nos últimos tempos), nem legou prêmio ao seu diretor (foi apenas a quarta vez que isso aconteceu), categoria técnica com empate (aí sim foi inédito, embora empates já tenham ocorrido nas categorias de interpretação, a última para Melhor Atriz em 1969). Outros ineditismos foram legais de ver. Daniel Day-Lewis tornou-se o primeiro ator a ganhar três vezes o Oscar na categoria principal (e se igualou em prêmios com Jack Nicholson, que ganhou uma vez como coadjuvante, e Walter Brennan, que só venceu como coadjuvante). E Tarantino finalmente levou sua segunda estatueta para casa, agora sem dividir os méritos com ninguém (ganhou por Pulp fiction - tempo de violência em 1996, em parceria com Roger Avary). Mais do que merecido. A ironia - e provavelmente vão querer me apedrejar pela opinião - é que ela veio justamente por seu filme mais fraco. Django livre é desnecessariamente longo, prejudicado por ter vários finais (a gente espera que acabe ali e continua), um ritmo claudicante no longo entrecho passado na mansão de Leonardo Di Caprio que derruba o filme, e violência excessiva, mesmo que ela seja comum nos filmes do diretor. Talvez seja o primeiro filme de Tarantino em que o excesso de sangue na tela me incomodou, não tinha aquela leveza e gaiatice de seus trabalhos anteriores e com as quais já nos acostumamos (aquela luta dos mandingos na sala do Di Caprio, o que é aquilo? E o ataque dos cachorros? Sinceramente, um pouco acima do que posso suportar, pela gratuidade). Mas ele merecia há tempos, agora é esperar que se consagre definitivamente como realizador e leve um Oscar de direção - e já abro a aposta, o próximo filme dele que for indicado sairá vencedor. Christoph Waltz "roubou" o Oscar de Coadjuvante de Tommy Lee Jones, mas qualquer um que levasse ali seria merecido. Duro de engolir foi mesmo Jennifer Lawrence ganhando um Oscar ainda precoce, a meu ver. Não está bem em O lado bom da vida, pode ser uma intérprete de futuro, mas ainda não convence. Futuro que parece ter chegado para Anne Hathaway, que, graças a uma única cena, engoliu suas concorrentes - mas ainda acho que foi mais uma decisão política do que por méritos, aliás,como há tantas no Oscar.

O grande derrotado da noite acabou sendo Lincoln, que só levou dois Oscars dos 12 a que concorria. E não é que Spielberg perdeu o que já parecia certo? Será que a Academia gosta tanto assim de As aventuras de Pi ou do Ang Lee? Acho o filme fraco e não lhe daria mais do que dois prêmios. E nunca vi um Oscar de Canção tão anunciado quanto foi o de Adele. Certo, ela teve a desculpa de se apresentar em uma homenagem aos 50 anos da franquia James Bond, mas ficou meio evidente que levaria o prêmio, não? O elenco de Os miseráveis defendeu com brilho a música concorrente, mas a apresentação acabou se perdendo em meio a outras dos musicais da última década. E por que não deixaram o Seth MacFarlane defender a sua?

No fim, a vitória de Argo acabou sendo justa. É um ótimo filme, tenso, bem montado - e a senha para saber que ele seria o premiado veio com os Oscars de Montagem e Roteiro Adaptado, raramente o vencedor deixa de sair vitorioso em uma dessas categorias. No entanto, pode ser que eu esteja errado, desconfio que ele se tornará um dos menos lembrados ganhadores de Oscar. Esperemos para ver.

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FRAMBOESA DE OURO

Na noite anterior ao Oscar, foram anunciados os vencedores do Framboesa de Ouro, que voltou a ser entregue em sua data habitual. Ano passado, a cerimônia só ocorreu em abril por uma jogada de marketing. Como era esperado, a turma da "saga" Crepúsculo embolsou a maioria dos prêmios, levando sete das 11 nomeações que recebera. Veja abaixo a relação completa dos vencedores.

FILME: Amanhecer - parte 2
DIRETOR: Bill Condon (Amanhecer - parte 2)
ATOR: Adam Sandler (Este é o meu garoto)
ATRIZ: Kristen Stewart (Amanhecer - parte 2 e Branca de Neve e o caçador)
ATOR COADJUVANTE: Taylor Lautner (Amanhecer - parte 2)
ATRIZ COADJUVANTE: Rihana (Battleship - a batalha dos mares)
DUPLA: Taylor Lautner e Mackenzie Foy (Amanhecer - parte 2)
CONJUNTO: Amanhecer - parte 2
ROTEIRO: Este é o meu garoto
REMAKE / SEQÜÊNCIA: Amanhecer - parte 2

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Oscar 2013 - Os vencedores


FILME: Argo (Argo)
DIRETOR: Ang Lee (As aventuras de Pi)
ATOR: Daniel Day-Lewis (Lincoln)
ATRIZ: Jennifer Lawrence (O lado bom da vida)
ATOR COADJUVANTE: Christoph Waltz (Django livre)
ATRIZ COADJUVANTE: Anne Hathaway (Os miseráveis)
ROTEIRO ORIGINAL: Quentin Tarantino (Django livre)
ROTEIRO ADAPTADO: Chris Terrio (Argo)
FILME ESTRANGEIRO: Amor (Amour) (Áustria)
FILME DE ANIMAÇÃO: Valente (Brave)
FOTOGRAFIA: As aventuras de Pi
DIREÇÃO DE ARTE: Lincoln
FIGURINOS: Anna Karenina
TRILHA SONORA: As aventuras de Pi
CANÇÃO: "Skyfall" (007 - Operação Skyfall)
MONTAGEM: Argo
MAQUIAGEM: Os miseráveis
EFEITOS ESPECIAIS: As aventuras de Pi
SOM: Os miseráveeis
EFEITOS SONOROS: A hora mais escura e 007 - Operação Skyfall
DOCUMENTÁRIO: Procurando Sugar Man (Searching for Sugar Man)
DOCUMENTÁRIO CURTO: Inocente
CURTA-METRAGEM: Curfew
CURTA DE ANIMAÇÃO: Paperman
Prêmio Jean Hersholt: Jeffrey Katzemberger
Honorários: Hal Needham; George Stevens Jr.; e D. A. Pennebaker.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Meus palpites para o Oscar 2013


Com a proximidade da entrega do Oscar, sempre surgem os bolões de amigos ou cinéfilos para ver quem acerta mais vencedores. Desconfio que no grupo de que participo vou terminar na rabeira porque este ano optei por palpites mais ousados, descartando em alguns casos as escolhas óbvias. A seguir, meus prognósticos (em negrito) e alguns comentários.

FILME
As recentes vitórias de Argo (Globo de Ouro, SAG, DGA e agora o Bafta) recolocaram o filme na trilha do favoritismo, que vinha sendo percorrida sem muitos sustos por Lincoln. No entanto, o filme de Spielberg me parece mais sólido em sua proposta, de contar uma parte fundamental da história norte-americana sem invencionices e sem aquele ufanismo típico dos grandes blockbusters de Hollywood. Tem a "cara" da Academia e deve arrebatar muitos prêmios. É minha aposta e minha torcida.

DIRETOR
Se Argo levar o Oscar principal, a Academia ficará exposta ao ridículo de não ter indicado seu diretor, Ben Affleck (só três filmes até hoje conquistaram a láurea máxima sem que seu diretor tenha sido indicado). Ainda mais que ele também vem colecionando prêmios nesse começo de temporada. Mas preferiram apostar no novato Brenh Zeitlin pelo horrível Indomável sonhadora. Assim, Steven Spielberg já deve ter aberto outro espaço na prateleira de sua casa para acomodar a terceira estatueta de sua carreira.

ATOR
Outra falha imperdoável da Academia, agora em dose dupla: esqueceu de John Hawkes, soberbo em As sessões, e ignorou Jamie Foxx, muito bem em Django livre. Assim, com uma interpretação contida e detalhista, Daniel Day-Lewis também leva seu terceiro Oscar por encarnar um Lincoln à beira da perfeição.

ATRIZ
Com apenas 22 anos, Jennifer Lawrence ainda é muito nova para ganhar Oscar. Ela nem está tão bem assim em O outro lado da vida, na verdade não segura um personagem difícil, e isso ajuda a derrubar o filme, que peca pelo exagero. Seria bem legal se Naomi Watts levasse sua primeira estatueta. Além de brilhar em O impossível¸ já está merecendo um prêmio pela carreira.

ATOR COADJUVANTE
Acho difícil alguém bater Tommy Lee Jones, que tem atuação precisa em Lincoln. Mas também é bacana ver Robert De Niro disputando um Oscar novamente, depois de tantos papéis ridículos em fitinhas descartáveis. Será que a Academia vai se sensibilizar com isso?

ATRIZ COADJUVANTE
Se o Oscar fosse decidido por uma única cena, Anne Hathaway levava com sobras. Sua performance em Os miseráveis cantando "I dreamed a dream" é de emocionar qualquer espectador com o mínimo de sensibilidade. Deve levar, embora eu não ache que ela esteja especialmente bem no filme. No conjunto, porém, meu voto vai para Helen Hunt, sobretudo porque sou fã de As sessões e seu prêmio seria uma forma de corrigir o esquecimento de John Hawkes entre os atores.

FILME ESTRANGEIRO
Barbada: Amor. Apesar da qualidade dos concorrentes, o drama de Haneke tem a seu favor a vantagem de ser o único a tratar de um tema universal, portanto facilmente assimilável por todos os públicos, enquanto os outros se fixam em conflitos locais.

FILME DE ANIMAÇÃO
Detona Ralph, que ainda conta com um roteiro muito bem sacado. Mas os Piratas pirados da Aardman não podem ser descartados.

ROTEIRO ORIGINAL
Embora Quentin Tarantino esteja cotado para levar seu primeiro Oscar, por Django livre, aposto mais uma vez em Michael Haneke: seu Amor é uma mescla rara e muito feliz de sensibilidade e crueldade.

ROTEIRO ADAPTADO
Com 8 indicações nas costas, é de se imaginar que O lado bom da vida vá sair vitorioso em pelo menos uma delas. Pode ser no de Atriz, mas prefiro apostar neste aqui. Embora seja um prêmio equivocado: o filme erra tanto que fica difícil imaginar que sua adaptação tenha sido bem-sucedida.

FIGURINOS
Com cinco fortes concorrentes na disputa, arrisco a vitória de Espelho, espelho meu, com seus exuberantes figurinos do mundo dos contos de fada.

DIREÇÃO DE ARTE
A recriação de uma França à beira do caos social mostrada no arrebatador Os miseráveis garante a estatueta para o musical dirigido por Tom Hooper.

FOTOGRAFIA
Ao que parece, o Oscar vai para 007 - Operação Skyfall, que vem recebendo os principais prêmios da temporada.

MAQUIAGEM
Páreo duro entre O hobbit e Hitchcok. Opto por este último, que transforma Anthony Hopkins no autêntico Mestre do Suspense com perfeição (e bem melhor do que Toby Jones no televisivo A garota de Hitchcok da HBO).

CANÇÃO
Adele é a cantora da moda e sua "Skyfall" vem colecionando prêmios. Deve levar. Mas sempre acho que filme musical é favorito nessa categoria. Assim, jogo minhas fichas em "Suddenly", de Os miseráveis. Não a acho uma grande canção, mas a Academia já premiou coisas bem piores, como no ano passado, em que esnobaram "Real in Rio" para contemplar uma musiquinha descartável (e da qual ninguém lembra).

TRILHA SONORA
Discreta e minimalista, a trilha sonora de Lincoln garante mais um Oscar para o filme de Spielberg.

MONTAGEM
Reparem: muitas vezes o filme vencedor do Oscar arrebata também essa categoria. Então, o voto óbvio é para o Lincoln de Spielberg.

EFEITOS ESPECIAIS
Não acho As aventuras de Pi um grande filme, mas a interação cênica entre o menino e o tigre na maior parte do tempo dará a ele o Oscar de Efeitos Especiais (que eu insisto em chamar assim, mesmo que o nome tenha sido modificado para Visuais). A julgar pelos avanços técnicos que vem ocorrendo no cinema, muito em breve será necessário desmembrar a categoria em duas: Efeitos Especiais / Visuais e Efeitos Especiais em 3D.

SOM (SOUND MIXING)
Complementando a lista de Oscars tradicionalmente conferidos aos vencedores de Melhor Filme, Lincoln sai vitorioso aqui também.

EFEITOS SONOROS (SOUND EDITING)
Outra categoria que insisto em chamar pelo nome antigo. Ainda acho que Argo não leva o prêmio principal, mas sairá com pelo menos um Oscar, e será aqui.

DOCUMENTÁRIO
Desde que o vi na repescagem do Festival do Rio, achei A guerra invisível um forte candidato ao Oscar. Agora, o filme que debate os inúmeros casos de violência sexual dentro de unidades militares norte-americanas leva o prêmio e joga luzes sobre o assunto.

DOCUMENTÁRIO CURTO
Aqui começa a roleta russa das premiações. Só sabemos dos filmes o que lemos sobre eles. Fora que muitas vezes o indicado mais cotado sai de mãos abanando. Minha aposta no escuro vai para King's Point.

CURTA-METRAGEM
Escolho Henry por um motivo prosaico: é o que me parece mais com nome de curta vencedor de Oscar!

CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
Criada há mais de 20 anos e com vários prêmios de televisão no currículo, será que chegou a hora de a família Simpson levar o Oscar para Springfield? Aposto em The Simpsons - the longest daycare.

Em virtude da cobertura do Oscar, o CineComFritas não será atualizado na semana que vem. Os vencedores do prêmio estarão disponíveis aqui no blog no dia 25 e dentro de duas semanas encerro o assunto com alguns comentários sobre a entrega.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Meios condenáveis e fim discutível

A hora mais escura (2012)

Não dá para entender como ou por que a Academia cisma com certos filmes, exaltando-os à categoria de sensacionais quando, no fundo, são iguais a tantos outros que já foram feitos, sem nada de especial. Aconteceu em anos anteriores entre os indicados a Melhor Filme (Entre quatro paredes, 2002, Encontros e desencontros, 2004, Juno, 2008, só para ficarmos com alguns mais recentes), até que conseguiram premiar a irrelevância de Guerra ao terror em 2010. Voltam à carga este ano com a nova produção de Kathryn Bigelow, A hora mais escura, indicado em 5 categorias, incluindo a principal, mas desprezaram a diretora, outrora queridinha dos votantes, o que é mau sinal.

Do que trata, todo mundo já sabe: é a recriação dos últimos momentos da caçada a Osama Bin Laden em 2011, quando ele foi afinal abatido, ao que tudo indica, sem muita chance de defesa e sem direito a um julgamento decente por crimes contra a humanidade, em um tribunal, como se espera que ocorra nas nações democráticas. Como toda a ação foi coordenada pela CIA, e como os membros da agência não podem divulgar detalhes de suas atividades, não houve, portanto, fontes que tenham servido de base para um roteiro mais verossímil. Assim, todo o filme é um livre exercício de recriação dramática, ou seja, todo imaginado, sempre se baseando no que teria acontecido segundo relatos da imprensa, abordando os supostos movimentos efetuados na tentativa de capturar o líder afegão. Novamente Bigelow se uniu ao seu namorado Mark Boal, premiado pelo roteiro de Guerra ao terror, que começou a escrever uma coisa, mas no meio do processo, foi surpreendido pela notícia do assassinato de Osama e teve de recomeçar tudo do zero, criando outra história. Isso talvez explique o ritmo irregular do filme, que até começa bem, com uma longa seqüência de tortura, meio difícil de assistir, para depois cair num palavrório interminável, em que os agentes da CIA debatem táticas de perseguição, analisam hipóteses sobre o paradeiro de Osama, enquanto caçam terroristas para temperar a passagem do tempo. Há outras duas cenas interessantes, o atentado a um restaurante e a explosão do homem-bomba na base militar norte-americana. No todo, contudo, a história se arrasta por quase três horas até a seqüência final, que mostra a efetiva invasão à fortaleza onde Osama estaria escondido. Na maior parte do tempo, porém, parece mais um episódio bem esticado da série Homeland.

Jessica Chastain: ela quer a cabeça de Osama.
Tudo é muito escuro, a ponto de quase não ser possível identificar o que se passa na tela, fica difícil acompanhar as ações, sobretudo na parte final, que, embora tenha certo grau de tensão, termina na sombra, com fachos de luz esverdeada para iluminar um pouco o breu em que a missão é realizada. Fora isso, há outro problema, mais perceptível: o filme faz apologia da tortura como forma aceitável de conseguir informações, ou seja, ela é aceita desde que haja uma "causa nobre" por trás. Desse jeito, fica difícil já simpatizar com qualquer aspecto da produção. O numeroso elenco praticamente não tem chances de desenvolver nada de especial. Indicada pela segunda vez em dois anos (a primeira na categoria principal), Jessica Chastain não faz nada de notável. Passa a maior parte do tempo nos gabinetes e salas de tortura, até vai a campo, mas sua personagem, que deveria ser obcecada pela busca da verdade, pela resolução do caso, é só apática, nunca levanta a voz para se revoltar com o que vê. O roteiro perde a chance de humanizá-la no início, quando ela testemunha as torturas a que o preso é submetido, e no máximo vira o rosto em alguns momentos, mas sem se impor, sem dar ordens em contrário, o que poderia fazer (ela é chefe da Inteligência). A mim, lembrou mais aquela militar norte-americana que apareceu em fotos com presos torturados em Guantánamo, arrastando um deles pelo pescoço com uma coleira. Eu fiquei esperando o momento em que ela ia se levantar e esbofetear qualquer árabe que aparecesse na sua frente!  

O filme sofreu ameaças de boicote nos Estados Unidos e foi muito criticado por causa justamente de suas cenas de tortura e por expor para o mundo uma realidade que os americanos fingem que não existe. Com isso, acabou perdendo força e não deve fazer mais do que figuração na noite de 24 de fevereiro. Não merece mesmo melhor sorte. E Jessica pode e deve fazer papéis mais fortes e interessantes. Ainda não será dessa vez que levará a estatueta para casa.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Maior que a vida

Lincoln (2012)

De todos os filmes indicados ao Oscar este ano, o que eu menos tinha vontade de assistir era justamente o recordista de nomeações, Lincoln. Pensava: "Caramba, duas horas e meia vendo um filme que fala de política, debate leis de outro país, e ainda por cima trata de uma personalidade da qual pouco ou nenhum interesse resta para nós, brasileiros? Haja saco!" Mas precisava assistir, era meu dever de cinéfilo e quase uma missão a que me imponho anualmente - desde 2000 sempre vejo todos os indicados na categoria principal, para avaliar se a escolha foi justa (só não vi a trilogia O senhor dos anéis porque quero ler os livros primeiro - eu sou um chato).

Fui com uma prima, também cinéfila, de passagem pelo Rio, em uma sessão de sábado à tarde (não gosto de ir ao cinema nos fins de semana, o ingresso é bem mais caro, as salas estão mais cheias, e, portanto, a chance de encontrarmos algum idiota mal-educado é maior), que estava lotada. Primeira surpresa: o público se comportou muito bem, sem conversinhas paralelas ou celulares retinindo na nossa paciência. Segunda surpresa: o filme é muito bom. Mais que isso, é ótimo, merecendo as quatro estrelas da minha avaliação. Parece que não há mais dúvida sobre quem leva o Oscar para casa este ano. Se antes eu já achava uma dessas escolhas indigestas com que a Academia nos brinda de vez em quando (lembram-se de Crash - no limite, em 2006?), agora afirmo sem pestanejar: se o Oscar ficar nas mãos de Lincoln, estará em muito boa companhia.

Lincoln: à frente de seu tempo.
Verdade seja dita que achei os cerca de primeiros 50 minutos de uma chatice assustadora. Um bando de homens, quase todos assemelhados entre si por causa das perucas e do figurino de época, discutindo injunções políticas e constitucionais norte-americanas, em ritmo lento, com uma trilha sonora neutra, que não deixa maiores impressões. Isso é importante para marcar o contexto da história, mas não nego que funciona também como convite a um cochilo, especialmente para o público desacostumado a filmes desse porte. No entanto, os 100 minutos restantes são realmente notáveis, a ponto de se acompanhar com todo o interesse até a resolução final. É provável que a maioria dos espectadores médios do filme desconheçam toda a história, e não saibam, portanto, o que de fato aconteceu (mas basta uma conferida rápida na sinopse para descobrir o mistério do roteiro); a esses, acrescente-se um elemento de suspense, que pode servir para atrair a atenção de quem não está muito preocupado ou interessado nos meandros políticos da história. A platéia também gostou do que viu e aplaudiu no final da projeção.

Ao contrário do que muita gente pode pensar, o filme não é uma biografia de Abraham Lincoln, o 16º presidente dos Estados Unidos e até hoje considerado um parâmetro de retidão política e ética buscado por seus sucessores desde então. O roteiro, de Tony Kushner, baseado no livro Team of rivals: the genious of Abraham Lincoln, de Doris Kearn Goodwin (recém-lançado no Brasil pela Record em versão reduzida e apenas com o nome Lincoln na capa), foca suas atenções no ano capital de 1865, no final da Guerra de Secessão, e acompanha os esforços empreendidos pelo presidente para que fosse aprovada a 13ª Emenda à Constituição Norte-Americana. Não era uma lei ordinária qualquer, mas uma determinação que abolia a escravidão no país e, com isso, lançava os Estados Unidos a uma nova era mundial no reconhecimento da igualdade entre os homens. Acompanhamos as estratégias utilizadas por Lincoln na tentativa de conseguir o seu intento, ainda que usasse de artifícios moralmente condenáveis, como a compra de votos. Mas a questão que se impõe é: Lincoln não buscava favorecimento pessoal, e sim deixar um legado maior que si próprio, pondo seu país à frente de sua vaidade. Uma aula para a classe política de quase todos os países - nem preciso dizer que sobretudo no Brasil. O roteiro também ganha pontos por evitar o triunfalismo que seria natural de se esperar em uma produção do gênero. Não há a preocupação de se endeusar o personagem, que é mostrado em todas as suas facetas, das mais ousadas às mais frágeis. Lincoln era um homem comum, que agia segundo sua consciência. E vislumbrava o melhor para sua nação.

Mary-Todd (Sally Field): mãe e primeira-dama.
Tudo funciona muito bem em Lincoln: a direção de arte cuidadosa reconstitui com perfeição os cenários e ambientes da época; a fotografia de tons sombrios realça os aspectos claustrofóbicos dos gabinetes e dos interiores nos quais se passa a maior parte da ação; o tom austero da narrativa convida o espectador a pensar e formular suas próprias opiniões, algo muito raro no cinema atual. Mas nada disso seria possível se Spielberg não tivesse se cercado de um elenco excepcional. No papel-título, o inglês Daniel Day-Lewis dá mais um show de interpretação, compondo um Lincoln em detalhes mínimos, como a inflexão de voz e a ligeira curvatura corporal. Sally Field tem poucas chances, mas arrebata o espectador quando aparece na pele da sofrida Mary-Todd, a primeira-dama angustiada pelo destino de seu filho mais velho, uma participação pequena mas expressiva de Joseph Gordon-Levitt. Ainda Tommy Lee Jones (como Thaddeus Stevens) e David Strathairn (como William Seward) abrilhantam mais o resultado encarnando os maiores aliados de Lincoln.

Thaddeus Stevens (Tommy Lee Jones): aliado.
O Oscar seria uma boa forma de coroar e garantir lugar eterno na história para este grande filme, mas as recentes vitórias de Argo no Globo de Ouro e no SAG ameaçam seu favoritismo. Será injustiça se perder? O tempo, como sempre, dirá. Da mesma forma como reverbera até hoje o legado de político exemplar que Lincoln deixou em sua passagem pela Casa Branca. Um legado maior que sua própria vida.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Quando a democracia disse "Não"

Não (2012)

Entre o final dos anos 80 e meados dos 90, o mundo assistiu a uma série de transformações sociopolíticas que alteraram de forma indelével as configurações da história como conhecíamos. Entre tais eventos, os mais emblemáticos foram a queda do Muro de Berlim, a desintegração da União Soviética, que, por tabela, gerou o esfacelamento do regime comunista na Europa Oriental, e a Guerra da Bósnia, um dos episódios mais sangrentos do século XX. Naquela época, a TV a cabo ainda engatinhava no Brasil, telefone celular era um luxo para os mais abastados e a internet estava embrionária. As pessoas assistiram a tudo apenas pela televisão e só dispunham dos jornais e revistas para se informar. Em meio a esse vendaval de mudanças, uma que ficou quase no rodapé da história, e que eu, confesso, nem me lembrava mais, teve vez aqui perto, no vizinho Chile.

Em 1988, o governo ditatorial do general Augusto Pinochet autorizou a realização de um plebiscito, por meio do qual o povo escolheria entre a continuidade do governo totalitário e a renovação democrática. É neste panorama que se desenvolve a trama de Não (ou No, como preferiu a distribuidora, descartando a tradução), um dos finalistas ao Oscar de Filme Estrangeiro deste ano - já expliquei, sei que a denominação é errada, mas não consigo chamá-la de outra forma. Não deve levar (a estatueta já é praticamente do Amor de Michael Haneke), mas é um concorrente digno e que merece a atenção.

René Saavedra (Gael García Bernal): a ditadura cansa.
O "não" do título significa a opção pela abertura democrática, em oposição, obviamente, ao "sim", que decretaria a permanência de Pinochet, que já contava quase 15 anos à frente do poder, período durante o qual lançou o país em trevas, violência generalizada e todo aquele aparato próprio das ditaduras. É pelo "não" que um grupo de publicitários é contratado para criar uma campanha de televisão, de forma a convencer a população local. Eles estão sozinhos contra todos; sabem de antemão que o plebiscito é um blefe, uma jogada política de Pinochet apenas para legitimar o sistema vigente para o resto do mundo. Mesmo assim, guiados pelas convicções de cada um, não esmorecem e buscam criar a melhor campanha possível. É a contribuição que podem dar para a reconstrução do Estado democrático. À frente desse grupo, está René Saavedra (Gael García Bernal, em outra boa composição), que tem motivos pessoais para se empenhar por uma vitória pelo "não", já que sua mulher é uma ex-presa política que acabou de ser libertada. Ambos têm um filho pequeno e é nele que se projeta a imagem de um Chile futuro e esperançoso, bafejado pelos ventos da mudança.

O diretor Pablo Larraín vem se firmando como um dos principais realizadores do cinema latino-americano e confirma seu talento na condução dessa história que combina habilmente tensão e drama político. Longe do suposto panfletarismo que tal tema suscitaria, o roteiro, escrito por Pedro Peirano (da série local 31 minutos) e baseado na peça O plebiscito, de António Skármeta, abre a discussão e dá voz aos dois lados, embora, inegável e obviamente, com simpatia pela causa democrática.

Uma das campanhas pelo "não": a alegria está chegando.
A exemplo do que fizera em seus trabalhos anteriores, Tony Manero e Post mortem, em Não Larraín mescla ficção e realidade por meio da inserção de imagens documentais, inclusive apresentando as verdadeiras campanhas pró-"não" que foram veiculadas na televisão chilena, mostrando um suposto making of produzido pela equipe. Todas são criativas e até emocionantes. Mesmo sendo referentes a outro país, dão orgulho e causam simpatia a quem assiste, ganhando ainda mais pontos em contraste com as pobres mensagens oficiais que também são mostradas.

No elenco, ainda estão Alfredo Castro, ator preferido de Larraín e que esteve em seus trabalhos anteriores, Néstor Cantillana (da série Prófugos) e Luís Gnecco (idem e que esteve no recente A dançarina e o ladrão). Um filme que confirma a boa qualidade dos indicados deste ano.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

América, o sonho de chegar

Os emigrantes (1971)

Em 2012, O artista se tornou o primeiro filme de outro país a ganhar o Oscar (digam o que quiserem, mas trata-se de uma produção francesa, ainda que tenha sido rodada nos Estados Unidos, com elenco secundário e membros da ficha técnica ianques). Antes dele, apenas outros três filmes ao longo da história haviam tentado a proeza, sem sucesso. A primeira vez foi com o clássico A grande ilusão, de Jean Renoir (1940). Trinta e quatro anos depois, Ingmar Bergman emplacou Gritos e sussurros entre os cinco finalistas. E poucos anos antes, em 1972, outro filme sueco conseguiu angariar a simpatia de Hollywood e disputou o Oscar em pé de igualdade com as produções locais: Os emigrantes, dirigido por Jan Troell, acabou esquecido pelo tempo, mas é um belo retrato de época. E mostra como o sonho americano da terra prometida pode ser mesmo uma maldição para alguns aventureiros.

Em 1844, o casal Karl-Oskar e Kristina vive em Ljuder, um pequeno povoado rural no interior da Suécia. Eles dispõem de um pedaço de terra no qual plantam e colhem o sustento, mas o solo é praticamente infértil e rende poucos produtos. Quando dois dos filhos quase morrem de fome, eles passam a considerar a possibilidade de se mudarem para viver nos Estados Unidos, o Novo Mundo que representa possibilidades e esperança. Uma das moradoras do vilarejo reforça a idéia, já que tem um filho que reside na América e encontrou a bem-aventurança, de acordo com as cartas que recebe do rapaz. O casal se junta a outros agricultores na mesma situação e empreende uma jornada de fé durante dias a bordo de um navio. Mas ainda há muitas dificuldades no trajeto do grupo. Afinal, todos são chamados, mas poucos serão os escolhidos, máxima religiosa que se materializará ao longo da viagem.

Liv Ullmann: primeira indicação ao Oscar.
Assistir a Os emigrantes é se transportar a um mundo que não existe mais, em todos os sentidos, sobretudo nos aspectos ligados ao cinema como um todo. É um tipo de produção que não se faz mais, embora ainda tivesse campo naquela época. As platéias de hoje, formadas em sua maioria por espectadores jovens, pedem um estilo mais dinâmico de narrativa, e produções desse formato, se ainda não desapareceram completamente, estão próximas da extinção. A narrativa lenta reforça o caráter épico conferido ao filme, que, ao longo de seus 184 minutos de duração, é grandemente sustentado por cenas contemplativas, realçando o aspecto psicológico dos personagens. É interessante observar como o discurso religioso trespassa todo o filme, desde as raízes locais dos moradores, que pautam seu estilo de vida pelo viés eclesiástico, seguindo o que determina a Igreja, de forte presença na comunidade, até a simbologia da dispersão de um povo sofrido em busca da terra prometida. Como os judeus que encontraram privações em sua diáspora, o grupo de viajantes suecos precisa superar as adversidades de uma odisséia sem garantias de final feliz, mas tendo a esperança como norte de sua empreitada.

Max Von Sydow é um dos emigrantes.
A viagem é pontuada por cenas tensas, como a discussão entre Kristina e uma das viajantes, em que a primeira acusa a outra de estar com piolhos e, portanto, seria uma ameaça aos demais viajantes, com uma ou outra tirada cômica para aliviar, o que é bem representado na parte em que o casal jovem tenta aprender inglês. No todo, porém, prevalece a austeridade narrativa, sustentada pela bela fotografia que realça o aspecto da epopéia empreendida pelo grupo. O final é simbólico e emocionante.

O filme concorreu a quatro Oscars: além da categoria principal, foi indicado ainda para diretor, atriz (Liv Ullmann, na primeira das duas nomeações que recebeu; a segunda foi por Face a face de Bergman, em 1977) e roteiro adaptado. Mas não ganhou em nenhuma. Mesmo assim, fez sucesso suficiente para justificar uma continuação - naquele tempo, as continuações ainda eram feitas com propósito artístico e não por influência financeira mercadológica - que o próprio Troell dirigiu no ano seguinte, O preço do triunfo. Tanto um quanto outro foram esquecidos pelas distribuidoras e jamais lançados em formato caseiro no Brasil. Uma pena.